sábado, 1 de agosto de 2026

Os EUA e a eleição brasileira, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Já está bastante claro que as sanções sofridas pelo Brasil não têm um fundamento concreto e se tornaram instrumentos de pressão política com a meta clara de influenciar a temperatura da opinião pública às vésperas das eleições. Desde fevereiro de 2025, os EUA impuseram sobretaxas que impactam o comércio exterior brasileiro

Teremos, nas eleições de 2026, uma preocupação nova na história da redemocratização: um possível cenário de interferência internacional no nosso pleito. Falo especificamente dos norte-americanos. Qualquer observador atento da política nacional já percebeu que as manifestações recorrentes do presidente dos EUA revelam um interesse genuíno no resultado das urnas e que nossa soberania pode estar ameaçada.

Eu chamaria atenção para três movimentos que, analisados em conjunto, evidenciam esse interesse atípico de um país estrangeiro sobre os nossos assuntos internos: o conjunto de declarações do governo americano sobre o mérito do trabalho do Poder Judiciário brasileiro; a manutenção do discurso de que Jair Bolsonaro teria sido alvo de perseguição política; e a aplicação sobre sanções econômicas e diplomáticas.

Foquemos nas tarifas. Já está bastante claro que as sanções sofridas pelo Brasil não têm um fundamento concreto e se tornaram instrumentos de pressão política com a meta clara de influenciar a temperatura da opinião pública às vésperas das eleições. Desde fevereiro de 2025, os EUA impuseram sobretaxas que impactam o comércio exterior brasileiro: estamos falando de uma tarifa de 25% adicional sobre diversos produtos nacionais e de uma sobretaxa de 12,5% sob a alegação de que o Brasil não tem trabalhado para impedir a importação de produtos fruto de trabalho forçado.

As medidas impactam a competitividade dos produtos brasileiros e pressionam o desempenho de nossa balança comercial, notadamente em alguns setores exportadores que dependem dos mercados norte-americanos. Trata-se de um desgaste político que se junta às críticas ao Poder Judiciário brasileiro, seja no enfrentamento das tentativas de golpe, seja no tratamento da liberdade das big techs no Brasil. Quando somamos esse debate às críticas americanas ao sistema de pagamentos Pix, percebemos que há uma atenção importante com os assuntos internos e que a pressão sobre o Brasil se tornou uma pauta prioritária para o governo de Donald Trump.

Precisamos nos preocupar com um cenário possível de resultado eleitoral desfavorável aos interesses norte-americanos, que já declarou alinhamento com o bloco bolsonarista. O que os americanos estão dispostos a fazer se elegermos um presidente mais rigoroso com a proteção da soberania nacional? A possibilidade de uma interferência mais concreta não pode ser descartada, considerando o que observamos na Venezuela.

É certo que, como país, o Brasil é mais forte, mais complexo e desafiador de administrar do que o território venezuelano, mas não podemos ignorar o potencial de desorganização e estresse que a hostilidade de um país tão poderoso como os EUA pode nos causar.

*Doutora em Direito (USP e professora da Universidade Federal do Ceará

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