sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Percalços de Lula e Flávio pelos votos do Nordeste, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Candidatos reveem estratégias e intensificam visitas aos Estados onde esperam melhorar o desempenho

Num momento decisivo para as campanhas, diante do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, os candidatos reveem estratégias e intensificam visitas aos Estados onde esperam melhorar o desempenho. Enquanto o presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, fez a primeira incursão ao Nordeste, feudo lulista, em agenda em Alagoas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi obrigado a mudar o roteiro do fim de semana. Ele faria uma ofensiva na região Sul, reduto do adversário.

Preocupado com o crescimento de Flávio no Rio Grande do Sul, Lula teve de cancelar o compromisso em Porto Alegre nesta sexta-feira (28) por causa das fortes chuvas, com previsão de inundações e vendavais. A agenda foi substituída por uma caminhada com aliados e militantes em Salvador, na Bahia.

Sexto maior colégio eleitoral, com 5,3 milhões de eleitores, o Rio Grande do Sul é a aposta do PT para ampliar a votação na região, que se tornou um reduto bolsonarista, impulsionado pelo agronegócio. Levantamento recente da Quaest mostrou Flávio com 34% das intenções de voto no Estado, e o petista com 28%.

Os coordenadores acreditam no avanço de Lula entre os gaúchos, ante a sinalização de esmorecimento da direita radical. A candidata ao governo, Juliana Brizola (PDT), do time lulista desponta com 23% da preferência do eleitor, tecnicamente empatada com o bolsonarista Luciano Zucco (PL), que tem 26%, segundo a Quaest. A campanha petista vai martelar os números do socorro federal aos gaúchos, durante as enchentes que devastaram o Estado em maio de 2024. Dados do Tesouro apontam investimentos de cerca de R$ 61 bilhões, incluindo o auxílio de R$ 5,1 mil a pelo menos 430 mil famílias vítimas das águas.

Com a visita ao Sul adiada, Lula manterá a tradição de inaugurar a campanha no Nordeste pela Bahia, quarto maior colégio eleitoral, com 7,1 milhões de eleitores. O Estado foi determinante para a vitória do petista sobre Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno em 2022. Lula conquistou 72% dos votos dos baianos, com uma vantagem de 3,7 milhões.

Em 2022, o desempenho do petista na Bahia só não foi melhor do que no Piauí, com menos eleitores, mas que lhe entregou 76,8% dos votos. Com base nesses números, e numa conjuntura de disputa mais embolada e imprevisível no Sudeste, os coordenadores de Lula trabalham para turbinar a votação do petista no Nordeste, a fim de compensar potenciais revezes, especialmente, em Minas Gerais.

Líder do PT e coordenador de Lula no Nordeste, o senador Camilo Santana (CE) confirmou a expectativa de que o presidente amplie sua votação na região em relação a 2022. Diz que esse cálculo faz sentido pela alta aprovação do petista entre os nordestinos, e porque Bolsonaro era um adversário que tinha personalidade, atributo que faltaria ao sucessor.

Mais do que o tradicional favoritismo de Lula, o principal problema de Flávio no Nordeste é a falta de palanques. Além do vice Alfredo Gaspar (PL), que é alagoano, apenas dois aliados demonstraram disposição de fazer comícios com o presidenciável do PL na região: os candidatos aos governos da Paraíba, senador Efraim Morais (PL), e do Rio Grande do Norte, Álvaro Dias (PL) - este último, aliado e conterrâneo do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha. Ciro Gomes (PSDB) no Ceará, João Henrique Caldas (JHC), também do PSDB, em Alagoas, e ACM Neto (União) na Bahia tentam escondê-lo para não perderem votos dos eleitores de Lula.

Por sua vez, o presidenciável do PT, mesmo favorito, também sofre percalços na região. Lula cogitou não visitar Pernambuco, onde dois aliados disputam o governo: João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD). Entretanto, ele deve ceder aos apelos de Campos, pela força da aliança com o PSB e pela amizade histórica com o pai dele, Eduardo Campos, morto em 2014.

A vida dos dirigentes petistas também não está fácil no Maranhão. O PT lançou a candidatura do vice-governador Felipe Camarão, remanescente do grupo político do hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, mas uma ala da legenda migrou para o líder das pesquisas, Eduardo Braide (PSD).

Lulistas alertam, contudo, que as votações recordes no Nordeste nunca garantiram a vitória. Em 2022, a vantagem de Lula sobre Bolsonaro na capital paulista foi essencial para o resultado final. Com uma dianteira de 486 mil votos, o petista alcançou 53,5% dos votos contra 46,4% do adversário, mas perdeu no interior do Estado.

A percepção de coordenadores lulistas é de que o cenário atual é positivo no Sudeste, com o empate técnico entre PT e PL em São Paulo, e uma melhora de Lula no Rio de Janeiro. Dois fatores explicam o quadro fluminense: a aliança com o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), líder das pesquisas, e o esvaziamento da força bolsonarista, já que as denúncias de corrupção afastaram os principais aliados de Flávio do governo e da eleição: o deputado estadual Rodrigo Bacellar (União), que foi preso, seria o palanque de Flávio ao governo, e o ex-governador Cláudio Castro (PL) disputaria o Senado. Lula continua liderando entre os mineiros, mas num placar apertado. Com o favoritismo de Cleitinho Azevedo (Republicanos), aliado de Flávio, para o governo, o desfecho em Minas, onde Lula sempre venceu, se tornou imprevisível.

Um comentário:

  1. Todos os estados são importantes,se tirassem os votos que Lula teve em Santa Catarina em 2022,ele perderia a eleição.

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