Correio Braziliense
É essa a lógica que conecta
iniciativas aparentemente distintas, como o fim da escala 6 x 1 e a
renegociação de dívidas com cartões de crédito, que voltam à pauta do Congresso
A “economia do afeto”, conceito formulado pelo historiador Alberto Aggio para
explicar uma das características centrais da cultura política do lulismo, talvez
seja a melhor chave para compreender os movimentos recentes do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva em busca da reeleição. Trata-se de uma relação de
reciprocidade entre ele e os setores populares, construída pelo reconhecimento
simbólico, pela identificação pessoal e por políticas que produzam benefícios
concretos no cotidiano.
É essa lógica que conecta iniciativas aparentemente distintas, como o fim da
escala 6 x 1; a redução da chamada “taxa das blusinhas”; a renegociação de
dívidas com cartões de crédito e outras medidas voltadas para renda, consumo e
qualidade de vida. Lula procura reconstruir a percepção de que seu governo
melhora a vida dos “de baixo”. Ao mesmo tempo, isso depende da aliança
pragmática com o Centrão, materializada na aproximação com os presidentes do
Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Mais uma vez, Lula aposta na transformação de demandas econômicas imediatas em
vínculos políticos. Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre 2026 e
outras eleições: Lula não controla o comportamento da economia. Os números são
contraditórios. O mercado de trabalho permanece forte. O desemprego caiu para
5,3% no trimestre encerrado em julho, menor nível para o período desde o início
da série histórica, em 2012. São 103,3 milhões de ocupados e 39,4 milhões de
empregados com carteira assinada no setor privado.
O IPCA-15 caiu 0,40% em agosto e acumulou 4,24% em 12 meses, devido
principalmente a fatores pontuais: o bônus de Itaipu nas contas de luz e as
quedas de combustíveis e passagens aéreas. A inflação de serviços, porém, permanece
resistente. O maior problema está no crédito. Com a Selic a 14% ao ano, o nível
continua restritivo para consumidores e empresas. Soma-se a isso a questão
fiscal. O governo central acumulou deficit primário de R$ 81,3 bilhões entre
janeiro e julho, e se projeta um deficit de aproximadamente R$ 59,1 bilhões, em
2026.
É no orçamento doméstico, porém, que aparece o maior risco eleitoral. Em julho,
82% das famílias brasileiras estavam endividadas. Quase 30% tinham contas
atrasadas e as famílias endividadas comprometiam, em média, 29,5% da renda
mensal com pagamentos. O cartão de crédito estava presente em mais de 85% dos
casos. A pressão já chegou às empresas. Grandes redes varejistas precisaram
reestruturar mais de R$ 68 bilhões em dívidas nos últimos dois anos e meio.
Juros elevados, crédito restrito, endividamento dos consumidores e
transformação estrutural provocada pelo comércio eletrônico formam uma
combinação perigosa. É ai que a centralidade da democracia pode fazer a
diferença.

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