Valor Econômico
Campanha do PT coloca como estratégia central a comparação de indicadores das gestões Lula e Bolsonaro para desconstruir Flávio
A cobrança por sinalizações de futuro sobre a
campanha do PT deverá vir por meio de comparações entre as entregas do atual
governo e aquele que o antecedeu. Foi isso que o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva sinalizou, ao lançar sua campanha no estádio da Vila Euclides, em São
Bernardo do Campo (SP), no domingo (16), num tom de quem se cansa com a
cobrança: “Eu vou dizer pra vocês o que é pensar no futuro”.
Saiu, então, comparando indicadores da
redução da evasão escolar do ensino médio, enumerando indicadores que, na
redução da evasão escolar no ensino médio, inflação, desemprego, geração de
postos de trabalho, investimentos públicos, crédito para a indústria e
crescimento da economia.
É por aí que a demanda da militância por desconstrução da candidatura de seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deve vir. Quando dirigentes petistas falam em “tocar o terror” na campanha do PL, é o apelo, junto ao eleitor, contra a volta ao passado, que enfatizam. A ausência de menções a escândalos como o Master sugere que a desconstrução virá mais da comparação do que pela exploração da corrupção.
A deputada e ex-presidente do PT, Gleisi
Hoffmann (PR), candidata ao Senado, ensaiou uma explicação: “Na corrupção,
batemos de cá e eles devolvem de lá. Na comparação de governo não há como eles
fazerem contraponto”.
Lula disse ainda que, “em 10 ou 15 dias”, ele
e o vice, Geraldo Alckmin, candidato a permanecer na chapa, vão lançar outro
programa de governo com a numeralha comparativa. O primeiro, divulgado há dez
dias, foi uma prestação de contas de mais de 80 páginas. O discurso do
presidente sugere que o próximo cotejará esta prestação de contas com aquela do
ex-presidente Jair Bolsonaro.
A prestação de contas não deixa de ser um
olhar pelo retrovisor, mas o deputado federal e candidato à reeleição, Carlos
Zarattini (PT-SP), também presente, contesta: “É a única maneira de tirar o
eleitor da guerra ideológica das redes sociais e chamar o cidadão à
responsabilidade para que o país não volte a piorar.”
Lula cortou seu discurso exatamente pela
metade em relação àquele da convenção do partido de duas semanas atrás. Falou
por 36 minutos. Sua fala, porém, foi antecedida por vídeos em que seus
companheiros de sindicato, que teve aquele estádio como sede das greves históricas
da virada dos anos 1980, falaram sobre Lula, por breves discursos de ministros
presentes, de Alckmin e do ex-ministro e candidato ao governo de São Paulo,
Fernando Haddad.
Numa reparação ao ato da convenção, quando a
primeira-dama, Janja da Silva, foi a única mulher a discursar, empurrada pelo
marido, desta vez, a ex-governadora do Rio e candidata ao Senado, Benedita da
Silva (PT), ficou encarregada de repor a lacuna com uma fala de apelo
religioso.
Janja voltou a falar, desta vez, num discurso
lido. Foi o discurso mais surpreendente do evento. Pela primeira vez desde que
Lula assumiu o relacionamento, ao deixar a prisão, em Curitiba, em 2019, Janja
falou de dona Marisa em público. Marisa Letícia Lula da Silva foi companheira
de Lula entre 1973 e 2017, quando morreu, vítima de um acidente vascular
cerebral, no auge da Lava-Jato. Casou com Lula já com um filho quando ambos
haviam acabado de enviuvar, e dele teve outros três filhos.
Janja citou-a como alicerce, junto à geração
de mulheres de metalúrgicos do ABC dos anos 1980, sem o qual “essa história
toda tivesse sido diferente”. Lembrou ainda a primeira bandeira do PT,
costurada por dona Marisa, e lhe dedicou “toda a minha admiração”.
A falta de reconhecimento ao papel da mãe na
história do PT e na do pai sempre foi um motivo de queixa dos filhos do
presidente. A largueza do gesto foi interpretada por petistas presentes como um
aceno à rejeição de Lula e da própria primeira-dama como também aos próprios
filhos do presidente, o mais velho dos quais, Fábio Luís, voltou a trazer
dissabores à campanha do pai pelas relações com a lobista Roberta Luchsinger,
investigada por tráfico de influência no governo.

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