quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Plano de logística quer investir R$ 1,225 tri até 2050, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Pela primeira vez, previsão de investimentos privados em logística chegará a 60% do total, superando os públicos

Nos próximos 15 anos, a quantidade de carga a ser transportada no país vai aumentar 300%, impulsionada pelas exportações de commodities. “Entendeu o tamanho do problema?”, questionou o ministro dos Transportes, George Santoro. Ele lança no próximo dia 12 o Plano Nacional de Logística (PNL) 2050, que prevê investimentos de R$ 1,225 trilhão, conforme cálculos que ainda são refinados e que foram antecipados à coluna.

Pela primeira vez, a previsão de investimentos privados em logística chegará a 60% do total, superando os públicos. Serão R$ 734,4 bilhões ante R$ 490,5 bilhões.

“Hoje, somos muito eficientes no agronegócio, mas outros países vão crescer a eficiência deles”, comentou. “Então, o que definirá a renda disponível no país será o custo logístico.”

A aposta do PNL para atacar esse problema é melhorar acesso a portos por ferrovias e rodovias. Isso dará mais opções aos operadores logísticos, disse o ministro.

O plano pretende ajudar a decidir onde alocar investimentos. O ministro contou ter sido procurado por uma grande empresa que queria instalar uma planta no Mato Grosso. Queria usar uma hidrovia e perguntou se haveria conexão ferroviária. É o tipo de informação que não tem no PNL atual, mas estará disponível na internet na versão 2050.

Para ser uma base confiável de informações, o plano pegou no pulso da economia real de uma forma inédita. Utilizou como um ponto de partida os Conhecimentos de Transporte Eletrônicos (CT-e), que informam a movimentação de carga.

As versões anteriores do PNL se valiam de dados de notas fiscais. Que, por causa de planejamento tributário, nem sempre expressam o trânsito efetivo das mercadorias. “Nos conhecimentos, eu tenho o peso e tenho qual é a mercadoria”, disse Santoro, que já foi secretário de Fazenda de Alagoas.

Além disso, foram entrevistados os 400 maiores embarcadores de carga do país, para saber os planos deles para o futuro e para onde caminhará a demanda por logística.

A escuta à economia e aos Estados foi apoiada também por uma série de dez eventos realizados em parceria com o Valor na série de debates “Logística no Brasil”. Foram ainda incorporados 25 planos estaduais de logística.

Desse conjunto de dados, emergiu o quadro que mostra a urgência de melhorar o acesso aos portos por ferrovias. Em Paranaguá (PR), por exemplo, a carga fica 540 horas aguardando embarque. Há acúmulo, e os portos das proximidades não são alternativa por falta de acesso por trens. Problema semelhante ocorre no porto de Santos (SP), comentou o ministro.

Um projeto de destaque no PNL é o arco Sudeste, composto por uma ferrovia nova que ligará Cariacica (ES) a Nova Iguaçu (RJ). “Passa em frente a 80% da produção nacional de óleo e gás”, resumiu. Essa linha se conecta na malha já existente, hoje sob concessão da MRS, e chega em São Paulo.

A intenção do PNL é finalmente resolver o problema das ferrovias atravessando a capital paulista, construindo o Ferroanel - que tem projeto desde 1960, da época do governador Adhemar de Barros. “Vamos resolver agora, dentro da concessão”, afirmou Santoro. Do Ferroanel, será possível acessar as Malha Oeste e chegar a Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

“Eu acesso a 15 portos com esse corredor”, disse. “Mais do que isso, conecto com a Malha Sul e com a Norte-Sul - eu acesso qualquer lugar do Brasil.” Na parte que passa por Espírito Santo e Rio de Janeiro, o corredor passa por reservas de gás que podem viabilizar a produção de fertilizantes no país, no atual cenário de tensão geopolítica.

Pela primeira vez, informou, vai ficar claro o aporte de recursos federais em concessões, principalmente de ferrovias. Em alguns projetos, verbas da União vão fechar o “gap de viabilidade”. Porém, o valor será limitado. “Se for maior do que o capex [investimento em ativo fixo] do projeto, não financio.”

Santoro afirmou que haverá espaço fiscal para isso, supondo que o orçamento da pasta será mantido em R$ 15 bilhões por ano. “Eu não fiz 25 concessões rodoviárias? Eu economizei pelo menos R$ 5 bilhões em manutenção”, contabilizou. Além disso, as cerca de 20 concessões renovadas no atual governo pagarão outorgas de cerca de R$ 20 bilhões nos próximos 14 ou 15 anos.

A atenção à situação das contas públicas também é algo novo no PNL. Desta vez, será fixado um limite orçamentário. “Nos PNLs do passado, se você somasse todos os projetos, dava uns quatro PIBs”, comentou.

O plano também inovará ao informar, em cada projeto, o risco ambiental envolvido.

Num contexto de eleições muito disputadas, a pergunta é qual a garantia de realização dos investimentos previstos no PNL. O ministro aponta para a governança em torno dele, que envolve uma lei e quatro ministérios, além de comitês que contam com a participação do setor privado. Além disso, lembra, a maior parte dos investimentos serão privados, baseados em contratos.

Numa área marcada no passado recente por projetos mirabolantes, o PNL 2050 buscou a economia real para ser mais útil à dura tarefa de planejar a longo prazo no Brasil.

 

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