Valor Econômico
Pela primeira vez, previsão de investimentos privados em logística chegará a 60% do total, superando os públicos
Nos próximos 15 anos, a quantidade de carga a
ser transportada no país vai aumentar 300%, impulsionada pelas exportações de
commodities. “Entendeu o tamanho do problema?”, questionou o ministro dos
Transportes, George Santoro. Ele lança no próximo dia 12 o Plano Nacional de
Logística (PNL) 2050, que prevê investimentos de R$ 1,225 trilhão, conforme
cálculos que ainda são refinados e que foram antecipados à coluna.
Pela primeira vez, a previsão de investimentos privados em logística chegará a 60% do total, superando os públicos. Serão R$ 734,4 bilhões ante R$ 490,5 bilhões.
“Hoje, somos muito eficientes no agronegócio,
mas outros países vão crescer a eficiência deles”, comentou. “Então, o que
definirá a renda disponível no país será o custo logístico.”
A aposta do PNL para atacar esse problema é
melhorar acesso a portos por ferrovias e rodovias. Isso dará mais opções aos
operadores logísticos, disse o ministro.
O plano pretende ajudar a decidir onde alocar
investimentos. O ministro contou ter sido procurado por uma grande empresa que
queria instalar uma planta no Mato Grosso. Queria usar uma hidrovia e perguntou
se haveria conexão ferroviária. É o tipo de informação que não tem no PNL
atual, mas estará disponível na internet na versão 2050.
Para ser uma base confiável de informações, o
plano pegou no pulso da economia real de uma forma inédita. Utilizou como um
ponto de partida os Conhecimentos de Transporte Eletrônicos (CT-e), que
informam a movimentação de carga.
As versões anteriores do PNL se valiam de
dados de notas fiscais. Que, por causa de planejamento tributário, nem sempre
expressam o trânsito efetivo das mercadorias. “Nos conhecimentos, eu tenho o
peso e tenho qual é a mercadoria”, disse Santoro, que já foi secretário de
Fazenda de Alagoas.
Além disso, foram entrevistados os 400
maiores embarcadores de carga do país, para saber os planos deles para o futuro
e para onde caminhará a demanda por logística.
A escuta à economia e aos Estados foi apoiada
também por uma série de dez eventos realizados em parceria com o Valor na série de debates
“Logística no Brasil”. Foram ainda incorporados 25 planos estaduais de
logística.
Desse conjunto de dados, emergiu o quadro que
mostra a urgência de melhorar o acesso aos portos por ferrovias. Em Paranaguá
(PR), por exemplo, a carga fica 540 horas aguardando embarque. Há acúmulo, e os
portos das proximidades não são alternativa por falta de acesso por trens.
Problema semelhante ocorre no porto de Santos (SP), comentou o ministro.
Um projeto de destaque no PNL é o arco
Sudeste, composto por uma ferrovia nova que ligará Cariacica (ES) a Nova Iguaçu
(RJ). “Passa em frente a 80% da produção nacional de óleo e gás”, resumiu. Essa
linha se conecta na malha já existente, hoje sob concessão da MRS, e chega em
São Paulo.
A intenção do PNL é finalmente resolver o
problema das ferrovias atravessando a capital paulista, construindo o Ferroanel
- que tem projeto desde 1960, da época do governador Adhemar de Barros. “Vamos
resolver agora, dentro da concessão”, afirmou Santoro. Do Ferroanel, será
possível acessar as Malha Oeste e chegar a Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.
“Eu acesso a 15 portos com esse corredor”,
disse. “Mais do que isso, conecto com a Malha Sul e com a Norte-Sul - eu acesso
qualquer lugar do Brasil.” Na parte que passa por Espírito Santo e Rio de
Janeiro, o corredor passa por reservas de gás que podem viabilizar a produção
de fertilizantes no país, no atual cenário de tensão geopolítica.
Pela primeira vez, informou, vai ficar claro
o aporte de recursos federais em concessões, principalmente de ferrovias. Em
alguns projetos, verbas da União vão fechar o “gap de viabilidade”. Porém, o
valor será limitado. “Se for maior do que o capex [investimento em ativo fixo]
do projeto, não financio.”
Santoro afirmou que haverá espaço fiscal para
isso, supondo que o orçamento da pasta será mantido em R$ 15 bilhões por ano.
“Eu não fiz 25 concessões rodoviárias? Eu economizei pelo menos R$ 5 bilhões em
manutenção”, contabilizou. Além disso, as cerca de 20 concessões renovadas no
atual governo pagarão outorgas de cerca de R$ 20 bilhões nos próximos 14 ou 15
anos.
A atenção à situação das contas públicas
também é algo novo no PNL. Desta vez, será fixado um limite orçamentário. “Nos
PNLs do passado, se você somasse todos os projetos, dava uns quatro PIBs”,
comentou.
O plano também inovará ao informar, em cada
projeto, o risco ambiental envolvido.
Num contexto de eleições muito disputadas, a
pergunta é qual a garantia de realização dos investimentos previstos no PNL. O
ministro aponta para a governança em torno dele, que envolve uma lei e quatro
ministérios, além de comitês que contam com a participação do setor privado.
Além disso, lembra, a maior parte dos investimentos serão privados, baseados em
contratos.
Numa área marcada no passado recente por
projetos mirabolantes, o PNL 2050 buscou a economia real para ser mais útil à
dura tarefa de planejar a longo prazo no Brasil.

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