Valor Econômico
Conflito entre a preservação ambiental e a expansão da fronteira agrícola remete ao debate sobre qual país o Brasil quer ser nos próximos anos
Quatro dos cinco principais candidatos à Presidência da República citam explicitamente a Ferrogrão como prioridade em seus programas de governo. Concebida por tradings do agronegócio, é uma linha de 933 km que ligará Mato Grosso aos portos do Norte do país, barateando o frete. É, porém, um projeto cercado por polêmicas que têm origem numa questão bem mais ampla: o avanço da fronteira agrícola sobre a Amazônia, que provoca resistência dos ambientalistas.
Atualmente, o projeto está em análise na
Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a expectativa é que seja
enviado nas próximas semanas para o Tribunal de Contas da União (TCU). Correndo
tudo como o planejado, a concessão da ferrovia poderá ser leiloada no atual
governo.
Estima-se que a Ferrogrão reduzirá em 20% o
frete médio das cargas em Mato Grosso e em até 35% o custo do transporte nas
regiões mais próximas da linha. O investimento está estimado em R$ 20 bilhões
no ativo fixo, e R$ 33 bilhões se for considerado também o “sustaining”, uma
espécie de reserva para manter a operação do negócio nos primeiros anos.
A Taxa Interna de Retorno da Ferrogrão foi
calculada em 14,4% - patamar considerado elevada, porque considera também que o
projeto envolve riscos. Seus defensores registram interesse de investidores
canadenses, chineses, árabes e americanos, que entrariam associados a algum
operador logístico ou grupo nacional.
“No transporte ferroviário, vamos destravar a
Ferrogrão”, diz o programa de Flávio Bolsonaro (PL), que prevê investimentos de
R$ 900 bilhões em quatro anos na estruturação de “corredores logísticos
inteligentes”.
O programa de Ronaldo Caiado (PSD) fala em
“priorizar obras estruturantes de escoamento, como a Ferrogrão, a Ferrovia
Norte-Sul, a Fiol, a Malha Norte, a BR-163 e as hidrovias do Centro-Oeste e do
Norte”, numa lógica de integrar infraestrutura do campo aos mercados.
Romeu Zema (Novo) cita a ferrovia, ao lado de
outras duas, a de Integração do Centro-Oeste (Fico) e a de Integração
Oeste-Leste (Fiol), como corredores estruturantes que ajudarão a superar
desafios em infraestrutura. Renan Santos (Missão) fala em iniciar de imediato as
obras da Ferrogrão. O programa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não cita a
linha especificamente, mas prevê intensificar as concessões de ferrovias.
Assim como é percebido como estratégico, o
projeto levanta resistências por causa de seu impacto ambiental. Ficou cinco
anos parado enquanto esperava uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em maio passado, a corte decidiu que não
houve inconstitucionalidade na forma como foi desafetada a área do Parque
Nacional Jamanxim por onde a linha passará: com a edição de uma medida
provisória, posteriormente convertida em lei.
Mais do que o debate sobre o processo
legislativo, a decisão do Judiciário ocorreu sob o pressão de ambientalistas e
representantes de povos originários, por causa do impacto do projeto na
floresta e no rio Tapajós, em cuja margem a ferrovia chegará, no porto de
Itaituba (PA).
Na visão do ministro dos Transportes, George
Santoro, a questão envolvendo indígenas nem é o maior desafio do projeto. “Ele
tem uma terraplanagem muito extensa, em área alagada”, disse à coluna. Fontes
ligadas ao projeto negam.
Mas, à parte desse debate, o ministro enxerga
uma discussão de fundo. “O que o pessoal mais fala contra ela é que vai ampliar
a fronteira agrícola”, comentou. “O problema é que, independentemente disso,
essa fronteira vai se ampliar, tendo ou não a Ferrogrão.”
A questão, acrescentou, é fazer um debate “de
forma estruturada” para buscar uma solução que contemple agronegócio e
sustentabilidade. “A Ferrogrão capta mais carbono do que qualquer projeto meu”,
argumenta.
O projeto prevê que a linha evitará a emissão
de 3,4 milhões de dióxido de carbono equivalente na atmosfera por ano. Além
disso, toda a carga de soja que transitar por lá será rastreada. A linha será
ainda uma forma de conectar a bioeconomia da Amazônia aos centros consumidores.
O ministro cita um exemplo de conciliação
entre a obra de infraestrutura e a sustentabilidade. “A Fiol estava parada
havia 18 anos por causa de um conflito com quilombolas”, exemplificou. “O
acordo para destravar a obra custou R$ 160 milhões, e o que são R$ 160 milhões
num projeto de R$ 20 bilhões?”
Santoro aponta alternativas ao projeto. “Tem
gente que adora a Ferrogrão, mas eu acho que é melhor fazer a Açailândia (MA) a
Barcarena (PA), que eu resolvo o mesmo problema.” Ele se refere a uma linha que
liga a Ferrovia Norte-Sul ao porto paraense de Vila do Conde.
O conflito entre a preservação ambiental e a
expansão da fronteira agrícola remete ao debate sobre qual país o Brasil quer
ser nos próximos anos. Hoje, é uma potência exportadora de commodities, cujo
volume de embarques aumentará 300% nos próximos 15 anos. Se o caminho
continuará sendo este, é bom considerar que a demora em expandir a
infraestrutura joga e jogará contra a competitividade dos produtos brasileiros.

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