Valor Econômico
O pior dos mundos para o presidente será a volta da “taxa das blusinhas” a um mês do primeiro turno
É conhecida a admiração do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva pelo ex-presidente Getúlio Vargas, por legados como os
direitos trabalhistas e a Petrobras. Porém, atualmente, é o general Eurico
Gaspar Dutra, sucessor do “pai dos pobres”, que provoca inveja no petista,
porque, há 80 anos, com uma canetada, ele proibiu cassinos e jogos de azar no
Brasil.
Conselheiros de Lula passaram a defender que ele faça o mesmo, assinando, ainda durante a campanha, uma medida provisória (MP) para proibir as bets no país. Em 1946, o instrumento de Dutra foi o “decreto-lei”, antecessor da MP.
A percepção do grupo é de que, no cenário
atual, em que as apostas online atingiram as famílias, principalmente de baixa
renda, o presidente teria apoio popular, que se converteria em votos.
Defensores da ideia invocam pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, do fim de abril,
revelando que 70% dos brasileiros apoiam a proibição das bets. Além disso, um
estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) estima que 10,9 milhões
de brasileiros apresentam comportamento de risco, enquanto 1,4 milhão já sofrem
transtornos do jogo.
A dois dias da largada oficial da campanha, e
com seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), encostado nele
nas pesquisas, Lula já começou a colocar em prática dois conselhos principais,
que vinha recebendo dos aliados mais próximos e de maior confiança.
Em primeiro lugar, reforçar gestos e
declarações contra as bets e as big techs. Há receio de que, além do
instrumento do “tarifaço”, o governo do presidente Donald Trump tente
influenciar as eleições brasileiras pela atuação das gigantes de tecnologia
americanas.
O segundo conselho é calibrar os ataques ao
mercado financeiro, sobretudo, num momento de evasão de investidores
estrangeiros, que derrubou a bolsa brasileira. Segundo um aliado, Lula não
poupará a “Faria Lima”, até porque o cálculo é de que a população não tem
simpatia pelos bancos. Contudo, será papel da equipe econômica, em especial, do
ministro da Fazenda, Dario Durigan, afinar a interlocução com os investidores.
Um aceno concreto foi o ajuste fiscal
embutido no projeto sobre combustíveis, aprovado na quarta-feira (12). Embora
insuficiente, foi um começo. O texto criou gatilhos para conter o crescimento
das despesas vinculadas. A economia projetada para o ano que vem é de R$ 10
bilhões.
Na quinta-feira (13), seguindo orientação de
aliados e do marqueteiro, Lula voltou a subir o tom contra as bets. “A desgraça
do jogo é que você passa a vida inteira jogando para pagar o prejuízo do
primeiro jogo”, declarou.
Não por acaso, no mesmo dia, Durigan divulgou
que cerca de 5 milhões de contas estão impedidas de acessar as plataformas de
apostas online. Resultado de ações do governo, como o Novo Desenrola, que
proíbe por um ano o acesso às bets de quem aderir ao programa. Segundo o
ministro, são 800 mil bloqueados nessa categoria, além de 1,2 milhão que
voluntariamente se excluíram, e mais 3 milhões beneficiários de programas sociais,
como o Bolsa Família, que foram impedidos de apostar.
Simultaneamente, há duas semanas, Lula havia
sancionado projeto que destinou até 3% da arrecadação com as apostas esportivas
para a Polícia Federal (PF) - resultado de uma medida provisória. Meses atrás,
o petista havia sido mais incisivo, ao defender, abertamente, o fechamento das
empresas de apostas. No dia 8 de abril, ele afirmou que o governo discutia,
seriamente, a proibição dos jogos no país. “Se as bets causam o mal que a gente
acha que causa, por que a gente não acaba com as bets?”, questionou. “Hoje o
cassino está dentro da sua casa”, alertou, em entrevista ao ICL Notícias.
Ressalvou, entretanto, que medida dessa envergadura dependia do Congresso.
A escalada do endividamento dos brasileiros
atingiu a popularidade de Lula. O hábito das apostas foi apontado como um dos
fatores do comprometimento da renda. Segundo a AtlasIntel, 35,3% dos
entrevistados atribuem a permissão do jogo ao governo atual, quando a
autorização para operação das bets se consumou na gestão de Michel Temer, em
2018. A lei, entretanto, exigia regulamentação. A inação do ex-presidente Jair
Bolsonaro estimulou a proliferação de empresas ilegais, o que obrigou o governo
Lula a regulamentar a atividade, passando a taxar as bets, e a coibir a atuação
das que operam na ilegalidade.
Apesar do conselho de aliados, ainda é remota
a hipótese de Lula, efetivamente, editar uma MP proibindo as bets no país. Além
de confrontar o Congresso em plena batalha eleitoral, o presidente é conhecido
pela lentidão nas decisões.
Desde o ano passado, ele havia sido alertado
de que a “taxa das blusinhas” influenciava na queda de popularidade. No segundo
ano de governo, Lula foi convencido a instituir a cobrança de 20% sobre compras
internacionais de até US$ 50, em meio à pressão dos varejistas. Dois anos
depois, para tentar reverter o quadro, somente em maio, ele assinou a MP
extinguindo a taxa.
Mas o Congresso impôs obstáculos à instalação da comissão para analisar a proposta, e a votação ficou para setembro, quando a MP perde a validade. O pior dos mundos para Lula será a volta da “taxa das blusinhas” a um mês do primeiro turno.

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