O Globo
Lula ‘porreta’ atrapalha o candidato
No ocaso de um governo sem marca, Lula falou
demais (62 minutos numa reunião do PT) e disse pouco. Anunciou cinco
compromissos: “resolver definitivamente o papel da educação”; criar um programa
para idosos; fortalecer a indústria militar; manter a riqueza das terras-raras
“para os brasileiros”; programas para a transição energética.
É muito mais do que Flávio Bolsonaro defende, mas é fala de palanque. Dos cinco compromissos, um — “resolver definitivamente o papel da educação” — não quer dizer nada, pois o problema da educação não é de “papel” mal resolvido. Os outros quatro são vagas generalidades. Podem dar certo, errado, ou mesmo em nada.
A Embraer deu certo. A fabricação do tanque
Osório deu errado. Acabou com a falência da Engesa, queridinha de alguns
generais. Dois protótipos foram para museus. (Em 1993, Saddam Hussein, então
ditador do Iraque, disse a um embaixador brasileiro, referindo-se ao dono da
empresa: “Diga a ele para não nos oferecer o que não tem”. Era a fabricação de
uma bomba atômica.)
Lula só fala com a alma improvisando enquanto
caminha no palanque. Insultou os advogados: “Criminalista não sabe defender
inocente, só sabe defender bandido”. Sem os criminalistas, ele não teria
passado de ex-dirigente sindical. E, sem o advogado Cristiano Zanin, não teria
anulado as sentenças do juiz Sergio Moro. Noutro lance, Lula anunciou que,
depois dele, Fernando Haddad será o próximo presidente. Partiu de um
pressuposto, provável, de que se reelege pela terceira vez e de outro, apenas
possível, de que o ex-ministro da Fazenda ganha em São Paulo.
Haddad elegeu-se prefeito de São Paulo em
2012 e perdeu a reeleição em 2016. Foi para o sacrifício como candidato à
Presidência e perdeu para Bolsonaro em 2018. Em 2022, Tarcísio de Freitas
bateu-o elegendo-se governador de São Paulo. Em outubro, os dois disputarão
novamente o cargo. Ganhou só a primeira.
Lula começou sua campanha com seu próprio
script. Ele é repetitivo, muitas vezes inoportuno e quase sempre estranho à
agenda da campanha, a começar pela duração. Na reunião dos petistas, ele não
combinou com os ônibus que haviam trazido a plateia, e muitos foram embora para
não perder a condução.
A campanha de 2026 é inédita. Seu principal
adversário coleciona crises, enquanto os presidentes dos Estados Unidos e da
Argentina fustigam-no com o objetivo expresso de interferir na eleição
brasileira. Nunca se viu isso, nem com tarifas (no caso de Donald Trump), nem
com baixarias (no caso de Javier Milei).
A própria campanha de Lula reconhece que pode
enfrentar problemas num segundo turno, dada sua dificuldade para atrair
indecisos e para virar votos de outros candidatos. A última pesquisa BTG/Nexus,
divulgada na segunda-feira, informou que a diferença entre ele e Flávio
Bolsonaro no primeiro turno caiu de 9 para 4 pontos. No segundo turno, estão
tecnicamente empatados.
As barreiras que o desafiam não serão
rompidas repetindo o que disse aos petistas:
— No quarto mandato, eu não quero Lulinha paz
e amor, quero Lulinha porreta.

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