sábado, 8 de agosto de 2026

Prudentinho*, por Ivan Alves Filho**

Sobre a Semana de Arte de 22, tenho uma ótima recordação de Prudente de Morais, neto, o organizador, ao lado de Sérgio Buarque de Holanda, da Revista Klaxon, o órgão modernista. Presenteei minha filha, Moema - historiadora da arte - com uma edição fac-similar da revista.  

Eu conheci o Prudente ainda na pré-adolescência, por volta de 1963-1964. Ele foi um querido amigo do meu pai. Prudentinho, como seu círculo mais próximo o chamava, participou do Modernismo como Pedro Dantas, seu pseudônimo literário. A meu conhecimento, nenhum crítico e/ou ensaísta literário reuniu, até o presente momento, seus escritos. 

Fica aqui a sugestão, se me permitem. Creio que Prudente publicou, em espanhol, um livro sobre a novela brasileira e nada mais. Prudente tinha uma grande admiração pelo Tropicalismo, movimento que considerava herdeiro da Semana de 22. Ele dizia que Caetano Veloso ainda seria reconhecido como uma figura ímpar da Cultura brasileira. 

O jornalista Mário da Cunha, ex-chefe da sucursal do Estadão no Rio de Janeiro, com quem tive a honra de trabalhar por quase dez anos no jornal Terceiro Tempo, sempre recordava isso. Modernistas e Tropicalistas equilibram esplendidamente pertencimento nacional e abertura para a arena internacional, fazendo com que a nossa cultura avançasse muito. O nacional também como atual e não apenas o que vinha de fora do país. 

O ensaísta e professor de filosofia Eduardo Jardim observou isso certa vez em um de seus escritos. E já que me referi ao Estadão, foi precisamente nas páginas deste jornal, a 6 de janeiro de 1917, que Monteiro Lobato defendeu que os artistas brasileiros fizessem o “nosso 7 de setembro estético”. Exatamente um ano antes, ele havia lançado a Revista do Brasil, com o objetivo declarado de debater as questões ligadas à nação brasileira. 

Uma publicação que ele não abandonava: “Dá prejuízo sim! Mas a revista é como a égua baia do sitiante. Você sabe, o sitiante, quando começa a vida compra sempre uma égua, porque a égua é mais barata do que um cavalo. Mas ele prospera, vai comprando cavalos e outros animais, vai enchendo o pasto – e não tem coragem de dispor da égua baia, que vai vivendo uma vidinha boa...”    

Em tempo: Lobato foi acusado de se posicionar contra o Modernismo, apesar de ter editado autores como Oswald de Andrade e Menotti del Picchia. Mas, em 1943, durante as comemorações pelos 25 anos da publicação de Urupês, o próprio Oswald de Andrade reconhecia o papel central de Monteiro Lobato e concluía: “Hoje, as comunhões são necessárias.” Uma observação suplementar sobre a Semana de 22: figura controvertida do Modernismo, Anita Malfatti foi criticada por Monteiro Lobato e depois reconhecida por ele como uma das artistas mais talentosas do país.

E talvez seja necessário introduzir aqui uma outra noção, vale dizer, aquela da dimensão democrática do Modernismo, resgatando as nossas mais caras tradições populares (do barroco de Aleijadinho ao “Tupi or not Tupi”). Isso, apesar de um observador abalizado como Ferreira Gullar ter apontado que os Modernistas foram mais à procura de um Brasil telúrico do que de um Brasil social. 

Mas a dimensão democrática também se manifestava, mesmo assim. Tanto que Di Cavalcanti, o idealizador da Semana de Arte de 22, aderiu ao Partido Comunista já em 1927, embalado pelos sonhos de mudança social. E eu lamento até hoje não ter guardado uma carta em que meu pai relatava sua visita a Di Cavalcanti, ao lado de Oscar Niemeyer, ao hospital onde o pintor estava internado. Houve uma grande confraternização naquele momento, e a visita agradou muito ao Di, pelo que meu pai me relatou. Muito adoentado, ele viria a falecer logo depois, em 1976.  

Seja como for, ao menos a trajetória pessoal de Prudente de Morais, neto, traduzia suas inclinações pelo povo, a meu ver. Morador dos nossos subúrbios, torcedor do Madureira, andando de ônibus, usando suspensórios, Prudentinho, apesar de politicamente conservador, sabia separar as instâncias, amigo pessoal que foi de Carlos Marighella, um dos mais importantes dirigentes da história do PCB. E ainda ajudou a salvar muitos jornalistas perseguidos pela ditadura militar. Prestou solidariedade, por exemplo, a um profissional da qualidade de Ancelmo Gois, em período particularmente conturbado da vida jornalística e política brasileira, isto é, por ocasião do assassinato de Vladimir Herzog, nas dependências do II Exército, em São Paulo.

Prudente de Morais, neto, então presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), ligou pessoalmente para o general Reynaldo Mello de Almeida, então na chefia do I Exército, no Rio de Janeiro. Homem honrado, de tendência liberal e contrário às torturas, Reynaldo Mello de Almeida, filho do escritor paraibano José Américo de Almeida, informou-se pessoalmente sobre a situação de Ancelmo, garantindo a ele que o jornalista não corria riscos. E, assim tranquilizado, Ancelmo Gois, militante do PCB, já pôde dormir em casa naquela mesma noite.  

E aqui eu não poderia deixar de destacar que Ancelmo Gois não somente é um dos jornalistas mais competentes de sua geração, o nosso maior colunista, como também um homem modesto, solidário e amigo de seus amigos. É uma alegria sempre que nos encontramos, seja em algum evento literário ou programa jornalístico. Ancelmo Góis é o que chamamos de um homem de bem. 

Ligado ao mundo do samba, Prudente de Morais, neto, foi advogado de Ismael Silva, conseguindo tirá-lo da cadeia, após o sambista ter se envolvido com umas tantas confusões na época áurea da malandragem e da vida boêmia carioca. Problemas com a Lei acontecem. Fora isso, ele era um amigo fraternal de ninguém menos do que João Francisco dos Santos, o Madame Satã. Símbolo maior do bairro da Lapa, de Madame Satã, podemos dizer ainda que exprimia sozinho, como no samba do seu amigo Noel Rosa, “dois terços do Rio de Janeiro.” 

Não sei se por intermédio de Prudentinho, mas tendo a acreditar que sim, meu pai, Ferreira Gullar e Teixeira Heizer também ficaram amigos de Madame Satã. Para alguém que era neto do primeiro presidente civil da nossa República, Prudente teve uma vivência popular para lá de incomum realmente. Sua atuação à frente da Associação Brasileira de Imprensa foi marcante, como marcante seria aquela de seu substituto, Barbosa Lima Sobrinho. Prudente de Morais, neto, deixou muitas saudades. Decididamente, as comunhões eram necessárias.  

Nota:  A passagem acima já estava quase pronta, quando eu a enviei ao Ancelmo. Isso se deu no dia 7 de agosto de 2026. Para mim, era importante que o nosso amigo o lesse antes de sua publicação. E a resposta do Ancelmo me emocionou muito:

Querido, grato, grato por suas palavras. Como dizia meu pai "este menino acaba ficando besta". Outra coisa: entre os jornalistas comunistas que o Dr. Prudente protegeu estava o nosso poeta Ferreira Gullar (que nos anos 60 trabalhou na sucursal do Estadão no Rio sob o comando dele). Gullar contou num artigo na Folha, em 2009, " que foi visitar "Doutor Prudente", era assim que nós o chamávamos, em sua casa pouco dias antes de sua morte, em dezembro de 1977: "Ao despedir-me, segredei-lhe ao ouvido: "Você é o melhor ser humano que conheci em minha vida". Ele me apertou o braço e sorriu entre encabulado e agradecido". Grato, grato.

*Este texto é parte de um livro inédito meu, intitulado História e vida - o Brasil como ponto de partida.

**Ivan Alves filho, historiador 

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