Folha de S. Paulo
A maioria dos professores brasileiros já
sofreu violência física ou verbal no ambiente escolar
'Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro, mas
quem cuida de nós?', pergunta uma das agredidas
Se quisermos fazer uma ideia do que espera o
Brasil no futuro, basta perguntar aos professores
do ensino público e particular. Ninguém como eles tem tantas
informações de primeira mão —não raro, na forma de uma arma portada por aquela
mão ou de um punho assestado contra o seu rosto. Eis alguns relatos recentes.
Em Planaltina (DF), um professor pediu a dois alunos de 17 anos que entregassem os celulares durante a aula. Os garotos se negaram e tiveram seus aparelhos recolhidos. Terminada a aula, seguiram o professor até o ponto de ônibus e o espancaram. Em Cuiabá, um professor idoso levou rasteiras e pescoções de dois alunos que se negavam a se sentar em seus lugares. Em João Pessoa, um professor foi agredido por um aluno com um martelo por ter-lhe dado nota baixa em um exame.
Em Curitiba, uma aluna investiu a palavrões,
socos e pontapés contra uma pedagoga, provocando-lhe inchaços e cortes no
rosto. A estudante foi contida e sua mãe se recusou a ir à escola para saber do
ato da filha. Em Araçatuba (SP), um estudante com canivete tentou avançar sobre
seus colegas. Foi desarmado pela segurança e suspenso por três dias. No dia
seguinte, sua mãe foi ao colégio para forçar a diretora a aceitá-lo em sala.
Como esta não cedesse, agarrou e bateu a cabeça da diretora contra uma janela.
Segundo pesquisa, 65,6% dos professores só do
estado de São Paulo já sofreram violência física
ou verbal no ambiente escolar. E no resto do país? Mesmo quem ainda não foi
vítima fica tenso —sabe que pode ser o próximo. Professores de cidades pequenas
têm medo de sair à rua e encontrar seus alunos.
Uma professora de São José dos Campos (SP)
resumiu o terror da situação. Depois de sobreviver a anos de balbúrdia,
desrespeito e xingamentos, um dia pediu água a um deles. O garoto lhe levou a
água num copo contendo vidro quebrado. "Ninguém merece passar por
isso", ela disse, chorando. "Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro,
mas quem cuida da gente? Quem cuida de quem cuida de nossas crianças?".

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