O Globo
A maneira como estão sendo conduzidos os
vários inquéritos nas mãos de André Mendonça provoca uma distorção
institucional
A tensão entre o relator dos processos do INSS e do Caso Master, ministro André Mendonça, e a Polícia Federal é maior do que a que houve entre a PF e o ministro Dias Toffoli. O ministro Mendonça está exigindo despachar diretamente com os delegados e agentes, sem passar pela direção da Polícia e, pior, requereu todo o material bruto e indexado. E esse indexado não é um detalhe. É o que permite fazer busca específica. Basta colocar um nome que será possível encontrar todas as citações àquela pessoa. É possível direcionar a investigação.
A Polícia Federal levou o caso à
Advocacia-Geral da União no dia 23 de julho pedindo que o órgão recorra dessa
decisão de André Mendonça, mas a AGU nada fez até agora. Da mesma forma que
nada fez quando, em janeiro, a Polícia Federal pediu que recorresse de decisões
de Dias Toffoli. A maneira como estão sendo conduzidos os vários inquéritos nas
mãos de André Mendonça está provocando uma distorção institucional. O juiz não
pode ser o policial, o investigador, o diretor da polícia, a instituição que
faz o controle externo, e a autoridade que julga, tudo ao mesmo tempo.
O temor entre autoridades em Brasília é que
tudo isso acabe levando à nulidade dos processos, porque está difícil hoje
fazer a cadeia de custódia dos documentos e dados para garantir a qualidade do
processo. Foi exatamente essa suspeita que pairou sobre a Operação Lava
Jato. E foi também o acúmulo de papéis e a tentativa de assumir
funções policiais que produziram a tensão na época em que o relator era Dias
Toffoli. Com o agravante de que ele estava citado nas investigações, o que não
é o caso agora.
O juiz tem que ser equidistante, tem que
ouvir a polícia, o Ministério Público e a defesa para tomar suas decisões de
magistrado. Se ele concentra tudo, até o material bruto sobre seus cuidados,
que distanciamento terá para julgar?
A Polícia Federal fica na estranha situação
de mobilizar todos os recursos para as equipes funcionarem, mas as informações
são levadas para o gabinete do ministro relator, às vezes diretamente pelos
agentes, sem sequer a supervisão do delegado que preside o inquérito. A
preocupação do ministro Mendonça, segundo interlocutores, é que a investigação
seja isenta. Mas quem faz esse tipo de controle é o Ministério Público e não é
desta forma que se garante a isenção.
Esse acúmulo de papéis produz distorções como
a de tratar investigados de maneira diferente. A decisão sobre o senador Jaques
Wagner demorou nove dias, a do ex-governador Cláudio Castro, dois meses e meio.
O ministro retirou o sigilo da sua decisão no caso de Wagner, o que fez bem,
mas não retirou de Castro ou do senador Ciro Nogueira.
No pedido à AGU, para recorrer das decisões
de André Mendonça, a Polícia Federal alega que elas violam suas competências e
mostrou que a inadequação da decisão pode viciar o processo.
O que se ouve entre investigadores é que até
agora ficou provado que a Polícia Federal não escolhe politicamente seus alvos,
tanto que as investigações atingem o filho do presidente, o líder do governo no
Senado, e agora o vice-líder do Senado. Portanto, a desconfiança sobre a PF não
se justifica.
Os próximos dois meses serão intensos, há
operações que podem acontecer, novos desdobramentos, requerimentos pendentes. O
pior que poderia acontecer a essa altura é a paralisia da Polícia Federal por
excessiva e arbitrária centralização de informações no STF e pela captura das
funções da Polícia Federal.
Os casos Master e INSS são graves demais, se
espalharam no meio político, e para chegarem a um bom resultado é preciso que
cada instituição faça o seu papel com autonomia e sem invasão de prerrogativas.
A confiança na higidez do processo virá da distribuição dos papéis entre as
instituições e não do acúmulo de tudo nas mãos de um ministro do STF.
Banco Central reduz juros e manda recados ao
governo
O Banco Central reduziu ontem a taxa de juros, pela quarta vez, levando a Selic a 14%. O mercado espera pelo menos mais um corte este ano, mas o BC apenas deixou a porta aberta. Decidirá conforme as informações. Houve recados para o governo. O BC avisou que os estímulos à demanda podem alimentar a inflação e disse que continua acompanhando a política fiscal e seu impacto nos ativos financeiros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário