O Estado de S. Paulo
Na quarta-feira, o Tesouro dos Estados Unidos
anunciou a recompra inesperada de seus títulos (treasuries) de longo prazo com
o dobro de recursos, coisa de no mínimo US$ 4 bilhões, e divulgou a posição
recorde da dívida pública do país, de US$ 40 trilhões, esta já mais ou menos
prevista.
O mercado financeiro global foi tomado pela
ansiedade. Os preços do ouro saltaram 2,82% num único dia, as cotações do dólar
caíram, as Bolsas comemoraram e, como não podia deixar de ser, caiu a
remuneração (yield) dos treasuries de longo prazo. Esta manobra do Tesouro diz
muita coisa e terá consequências.
A recompra de US$ 4 bi em títulos cujo estoque soma US$ 40 tri é insignificante. Mais significante é a operação em si mesma e o que há por trás dela.
O objetivo da recompra é aumentar a demanda
por treasuries de longo prazo. Há meses, vinha se acentuando o processo de
rejeição dos treasuries de longo prazo. Ou seja, a procura vinha enfraquecendo.
Isso implicou certa desvalorização dos títulos. Como passaram a ser negociados
abaixo do valor de face, subiu a remuneração prevista nos contratos dos títulos
em comparação com o novo valor. Isto é, os juros de longo prazo começaram a
aumentar. Essa alta passou a contaminar a confiança do investidor na condução
das finanças públicas dos Estados Unidos. Por trás desse aumento de rejeição de
longo prazo está o medo já disseminado de que o governo dos Estados Unidos
corre o risco de perder o controle da dívida e, assim, de aceitar mais
inflação, fato que implica certo calote da dívida. Mais do que o tamanho da
operação, contou a piscada dada pelo Tesouro: é o recibo de que há algo errado.
Os recursos a serem usados pelo Tesouro para
recomprar os títulos virão da venda de euros e não de emissão de moeda. Ainda
assim, espera-se mais inflação nos Estados Unidos, o que vai na contramão da
política do Fed (banco central), que vinha evitando nova rodada de alta dos
juros. Como essa decisão não deve parar por aí, falta saber com que recursos
voltará às compras. Pode emitir títulos de prazo mais curto e, nesse caso,
estará apenas alterando o perfil de vencimentos da dívida. E pode emitir moeda.
O problema de fundo continua intocado. E ele
tem a ver com a perda de hegemonia dos Estados Unidos e com a redução da
capacidade de obter demanda para sua moeda e para seus títulos de dívida.
A persistirem essas condições, algum nível de turbulência parece contratada. Para que o Brasil não apanhe, o que há a fazer é reequilibrar a economia, e isso implica derrubar o rombo fiscal, o que exige ação política.

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