sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Tesouro dos EUA piscou, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Na quarta-feira, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou a recompra inesperada de seus títulos (treasuries) de longo prazo com o dobro de recursos, coisa de no mínimo US$ 4 bilhões, e divulgou a posição recorde da dívida pública do país, de US$ 40 trilhões, esta já mais ou menos prevista.

O mercado financeiro global foi tomado pela ansiedade. Os preços do ouro saltaram 2,82% num único dia, as cotações do dólar caíram, as Bolsas comemoraram e, como não podia deixar de ser, caiu a remuneração (yield) dos treasuries de longo prazo. Esta manobra do Tesouro diz muita coisa e terá consequências.

A recompra de US$ 4 bi em títulos cujo estoque soma US$ 40 tri é insignificante. Mais significante é a operação em si mesma e o que há por trás dela.

O objetivo da recompra é aumentar a demanda por treasuries de longo prazo. Há meses, vinha se acentuando o processo de rejeição dos treasuries de longo prazo. Ou seja, a procura vinha enfraquecendo. Isso implicou certa desvalorização dos títulos. Como passaram a ser negociados abaixo do valor de face, subiu a remuneração prevista nos contratos dos títulos em comparação com o novo valor. Isto é, os juros de longo prazo começaram a aumentar. Essa alta passou a contaminar a confiança do investidor na condução das finanças públicas dos Estados Unidos. Por trás desse aumento de rejeição de longo prazo está o medo já disseminado de que o governo dos Estados Unidos corre o risco de perder o controle da dívida e, assim, de aceitar mais inflação, fato que implica certo calote da dívida. Mais do que o tamanho da operação, contou a piscada dada pelo Tesouro: é o recibo de que há algo errado.

Os recursos a serem usados pelo Tesouro para recomprar os títulos virão da venda de euros e não de emissão de moeda. Ainda assim, espera-se mais inflação nos Estados Unidos, o que vai na contramão da política do Fed (banco central), que vinha evitando nova rodada de alta dos juros. Como essa decisão não deve parar por aí, falta saber com que recursos voltará às compras. Pode emitir títulos de prazo mais curto e, nesse caso, estará apenas alterando o perfil de vencimentos da dívida. E pode emitir moeda.

O problema de fundo continua intocado. E ele tem a ver com a perda de hegemonia dos Estados Unidos e com a redução da capacidade de obter demanda para sua moeda e para seus títulos de dívida.

A persistirem essas condições, algum nível de turbulência parece contratada. Para que o Brasil não apanhe, o que há a fazer é reequilibrar a economia, e isso implica derrubar o rombo fiscal, o que exige ação política. 

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