segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Via negociada, Frente Ampla e projeto de nação, por Ivan Alves Filho

Diante do perigo fascista, em ascensão na Itália no início dos anos 20 do século passado, o fundador do Estado soviético, Vladimir Lenin, lançou, no quadro da Internacional Comunista fundada em 1919, a chamada Frente Única. Por intermédio dela, ele propôs uma aliança com a social-democracia europeia.   

Para isso, não hesitou em criticar posturas que considerava "esquerdistas" ou irresponsáveis entre alguns setores se reivindicando do marxismo na Alemanha, por exemplo. A crítica não era tanto dirigida ao Partido Comunista recém-formado, mas a grupos que dele se afastaram, recusando-se a participar do Parlamento e dos sindicatos controlados pelos social-democratas.

Em todo caso, o entendimento com a social-democracia era muito difícil. Houve a traição durante a Guerra, a qual custou 15 milhões de mortos, sem aludir aos feridos e mutilados. Além do que, os social-democratas assassinaram Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Mesmo assim, Lenin lançou a sua proposta.

Com o advento do fascismo na Alemanha, do hitlerismo, em janeiro de 1933, o operário comunista búlgaro Georgi Dimitrov, líder dos sovietes em seu país dez anos antes, vai ainda mais longe, defendendo que o movimento comunista estendesse a mão aos setores liberais. Surgiu então a noção de Frente Ampla, com reflexos quase imediatos no Brasil, na França e no Chile. Este o grande mérito da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que teve em Luiz Carlos Prestes o seu símbolo maior.

Hoje, penso que deveríamos ir além de Georgi Dimitrov, atualizar em suma as suas proposições. Em que sentido, exatamente? No sentido de levar a Frente Ampla também para o terreno social e econômico, entendendo a Democracia como uma totalidade. O médico sanitarista Sérgio Arouca se valia do termo radicalidade democrática para definir esta situação. Assim sendo, a Democracia tem que atuar para modificar as condições de vida das pessoas. Não pode haver um corte entre a esfera institucional e o cotidiano delas.

A lógica do lucro atinge toda a sociedade. Os embates contra o grande capital têm que mobilizar a esmagadora maioria da população, composta por trabalhadores manuais e intelectuais, muitos deles ocupando-se hoje por conta própria. E esses embates englobam ao mesmo tempo a defesa dos interesses da classe trabalhadora e a afirmação dos direitos da cidadania, a luta contra a exploração e a luta contra a opressão estando irmanadas. Tudo é parte da luta e não existe luta à parte. Com pouco mais de uma centena de empresas, em todo o mundo, controlando 40% do mercado, fica patente que precisamos construir um mercado que corresponda aos interesses das pessoas e não dos oligopólios. Tudo indica que a luta contra o capital será extremamente longa, possibilitando que a estratégia do convencimento e da persuasão faça plenamente seu caminho.

Em outras palavras; a Frente Ampla de hoje não pode ser a mesma de um século atrás. O que importa, na realidade, é darmos continuidade, com outras ferramentas, à luta por uma sociedade igualitária já presente no movimento anarquista na passagem do século XIX para o século XX, quando a indústria ainda se encontrava em uma fase artesanal. O Anarquismo foi, precisamente, a expressão política dessa fase do movimento material do capitalismo, com o trabalhador operando muitas vezes como o patrão e o operário dele mesmo. Da mesma forma, os comunistas da III Internacional sonharam com uma sociedade mais justa e solidária, só que em uma época onde predominava o chamado chão da fábrica. O comunismo de Marx, Engels e Lenin foi a expressão política, por sua vez, de uma era industrial marcada por uma maior separação entre o capital, de um lado, e o trabalho, de outro. 

No período atual, carimbado pela automação, robótica, inteligência artificial e pelas plataformas digitais, faz-se necessário estabelecer uma política de novo tipo, correspondendo a uma realidade distinta daquela dos dois períodos anteriores do modo de produção capitalista. Há uma tendência cada vez mais acentuada para o deslocamento da atividade produtiva para as máquinas, em detrimento da intervenção do trabalho humano direto. Isso posto, a exploração da força de trabalho não se limita apenas à ao trabalho imediatamente produtivo. É possível que a própria noção de trabalho produtivo precise ser repensada. Com efeito, muitas atividades laborais na atualidade possuem uma relação mais estreita com a distribuição de valor do que com a criação de valor propriamente, isto é, com a produção direta. As fronteiras do trabalho vão se modificando consideravelmente, e o capitalismo vai tentar reinventar suas formas de obtenção de lucro, uma vez que não existe extração de mais-valia a partir de um robô.

As forças produtivas, naturalmente, não caminham sozinhas, e será preciso intervir politicamente para colocar ordem na casa, nos choques quase inevitáveis que virão. Eu indicaria que o confronto entre o estoque demográfico da revolução industrial anterior, iniciada ainda no final do século XVIII, e a realidade gerada pela nova revolução industrial, alterando em profundidade as características centrais do mundo do trabalho, pode ser algo devastador. As áreas mais ricas do globo estão envelhecendo rapidamente e as mais pobres, ao contrário, vivendo uma verdadeira explosão de nascimentos. O continente mais pobre, a África, já possui, em números atuais, pouco mais do dobro da população do continente mais rico, a Europa. Precisamos de um novo projeto, que rompa com essa velha ordem econômica mundial. 

E é aqui que entra a Frente Ampla, contribuindo para materializar um projeto político que corresponda aos tempos atuais. No caso brasileiro, mais particularmente, observa-se que esse modo de participação tem encontrado um terreno fértil. E isso certamente tem ligação com algumas singularidades do nosso processo histórico. 

De fato, o Brasil, como extremo-ocidente que é, possui especificidades muito acentuadas. Uma delas tem que ver com o caminho da transformação social entre nós. Historicamente, eu penso que o Estado brasileiro não tem força suficiente para barrar as mudanças, apesar de tudo, e a sociedade civil, devido à sua fraqueza, tampouco tem condições de mudar tudo de supetão. De virar a mesa, como se diz. Daí a opção por uma via negociada. Nesse meio tempo, ocorrem formas diferenciadas de luta, incluindo a própria luta armada. Mas a saída política acaba sendo dada pela negociação.

Acontece que essa via está presente nos momentos fundamentais do nosso país, a começar pela Independência de 1822, passando pela Abolição e desaguando no comparecimento ao Colégio Eleitoral, mais perto de nós. A nossa particularidade reside nisso, a meu juízo. 

Vale dizer, por aqui não houve revolução no sentido clássico, o que não é lá tão comum assim na História, a exemplo de 1789, na França, ou de 1917, na Rússia. O velho Marx chamava a isso révolution jusqu'au bout, isto é, um movimento que colocava o Estado abaixo. E também não prevaleceu por aqui a conciliação sem mudanças, acredito eu. Giocondo Dias referiu-se a essa trajetória singular com uma expressão lapidar: Negociar para mudar. Este o caminho brasileiro, e apontei isso há cerca de quarenta anos, em um texto publicado pelo jornal Voz da Unidade. Eu me recordo de ter conversado longamente a respeito disso com um querido amigo, o engenheiro e dirigente do PCB Sérgio Augusto de Moraes.

De certa forma, a via negociada é um fio de navalha e muitos oportunistas dela se servem para, na verdade, simplesmente conciliar e nada modificar. José Honório Rodrigues tinha plena consciência dessa situação. Mas, vida é risco e viver, como dizia Guimarães Rosa, é mesmo muito perigoso. 

Assim, tenho total consciência de que a Frente Ampla é uma das expressões desse processo de negociação. O Brasil só muda reunindo determinadas forças em torno de um programa voltado para reformar as estruturas, de um objetivo comum em suma. Nas últimas décadas, foram três os programas, a saber: o Plano de Metas, no governo JK; as Reformas de Base, no governo João Goulart e o Plano Real, no governo Itamar. Mais: esses foram os últimos projetos de nação que tivemos. O que tem preponderado desde então não pode ser denominado sequer de projetos de governo, mas, isto sim, de projetos meramente pessoais e de tentativas de perpetuação no poder. Nem é preciso dizer que o país merece muito mais do que isso.  

Sob essa ótica, é possível estabelecer uma convergência entre via negociada – conforme amplamente demonstrado pelo processo histórico nacional –, Frente Ampla – como estabelecido por seu turno pela experiência internacional contra a ascensão do fascismo – e projeto de nação – quando a contra elite cultural passa um conjunto de acordos com o povo organizado visando as mudanças de estrutura.

Vamos retomar o fio da meada, a partir da conjunção desses três elementos tão presentes e marcantes em graus e períodos diferentes da vida brasileira. Esta pode ser uma saída real para superar os impasses de hoje, evitando o próprio desmoronamento que ameaça a nossa existência social, impondo limites à mediocridade dominante e irracionalidade crescente.

*Ivan Alves Filho, historiador

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