quinta-feira, 20 de agosto de 2026

W.O. em debate deveria custar voto, por Julia Duailibi

O Globo

A ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota

Ser candidato numa eleição significa cumprir algumas obrigações básicas, principalmente quando a candidatura é para inquilino da Presidência da República. Entre os deveres não previstos em lei, está participar de debates. Trata-se não só de demonstração de respeito, mas de evidente obrigação moral com o eleitor. Por isso a ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota para chegar ao poder.

Na eleição deste ano, a campanha de Lula anunciou que ele não deverá participar do primeiro debate na TV, promovido pela Band. Flávio Bolsonaro aproveitou para pegar carona e também não deverá ir. Alguns candidatos a governador, líderes em seus estados, seguiram a mesma receita. Uma vergonha do ponto de vista histórico — o debate televisionado entre os governadores, em 1982, ainda durante o regime militar, foi pioneiro, uma vez que os confrontos estavam até então suspensos pela Lei Falcão.

A lógica do Q.G. petista é a mesma que norteia o PL. No confronto com os demais candidatos, Lula é a principal vidraça. Está no poder, é o líder nas pesquisas, e os principais adversários são da direita. Na ausência de Lula, a vidraça é Flávio. Ele se torna alvo dos demais candidatos, que tentarão usá-lo como escada para ser mais conhecidos e abocanhar, assim, parte de seu eleitorado de direita.

O raciocínio não está errado. É fato que Lula ocupa a pole position dos alvos, e Flávio é o P2 (segunda posição no grid). O compromisso deles, no entanto, não deveria ser com a autopreservação, mas sim com o debate de ideias típico de democracias consolidadas, por mais duro e, muitas vezes, abaixo da linha da cintura que esses confrontos sejam — daí as regras e punições acordadas pelas equipes antes.

Os candidatos veem participar nos debates como principal risco — e não faltar a eles. Desde a redemocratização, todos os principais candidatos a presidente já deram cano nos confrontos televisivos, prática que não vem de agora. Na eleição de 1960, a TV Tupi tentou inovar com um debate entre os presidenciáveis, mas Jânio Quadros acabou arranjando um compromisso no Nordeste para faltar.

Nos Estados Unidos, que difundiram o confronto nacional na televisão, com Nixon versus Kennedy em 1960, faltar a um debate ainda é exceção. Os debates por lá só não ocorreram em 1964, 1968 e 1972. Tudo bem que, no geral, são apenas dois candidatos, republicanos e democratas (raramente entra um independente). Mas, mesmo correndo risco de ser engolidos pelos adversários, todos se submeteram ao confronto, em maior ou menor grau. Que o digam Nixon no embate contra Kennedy (e olha que o republicano foi a quatro debates), Carter versus Reagan (que jantou o democrata com a célebre pergunta sobre a vida estar melhor ou pior que quatro anos antes) e até Biden (cuja candidatura foi ceifada em 2024 depois de uma atuação constrangedora no debate contra Trump).

A participação em debates deveria ser parte inegociável da agenda dos candidatos numa eleição. Quer disputar, então tem de debater. O Brasil foi normalizando o W.O. nos confrontos, e os líderes nas pesquisas ficaram à vontade para dar o cano no eleitor — muitas vezes, sem nem se dar ao trabalho de fazer um R.S.V.P.

 

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