O Estado de S. Paulo
Crise atual envolvendo Moraes coloca a
Suprema Corte numa situação irreversível
Os donos imediatos do poder estão hoje na cúpula do Judiciário e do Legislativo. São, ao mesmo tempo, os que constrangem e funcionam como fiadores do chefe do Executivo, cuja reeleição é vista como essencial para que as coisas continuem mais ou menos como estão – daí a aliança que consagraram em público. O erro de cálculo político até aqui é o tamanho da crise do STF. Ela se precipitou não apenas pelo que a Polícia Federal encontrou nos celulares de Daniel Vorcaro sobre a promíscua relação com Alexandre de Moraes, que surge dali como uma espécie de advogado do banqueiro chefe de um esquema criminoso.
Mas, sobretudo, pelo fato de a “ala de força”
dentro do Supremo (Flávio Dino, Gilmar Mendes e o próprio Moraes) ter ignorado
o que acontece com uma instituição, como o topo do Judiciário, quando ela passa
a ser vista por grande parte da sociedade como sequestrada pelos interesses
pessoais, políticos e pecuniários de alguns integrantes.
Ela perde legitimidade, e isso é gravíssimo.
Esse processo já vem de longe e a crise atual envolvendo Moraes a colocou numa
situação irreversível. O STF não dispõe mais de boas opções. Aprofunda a crise
institucional se nada fizer em relação ao ministro (como se comportou no início
do escândalo). E aprofunda também se fizer.
A razão imediata foi o mergulho dado pela ala
de força da Corte no processo político-eleitoral, que calculou poder controlar
pelos meios que tradicionalmente empregou. Ou seja, controle do ritmo e direção
de investigações, processos e pressão direta sobre personagens políticos,
incluindo ofertas de proteção e ameaças.
Na mais recente delas, ao entorno de Lula foi
transmitido recado de que não tem cabimento curvar-se às pesquisas qualitativas
que indicam impacto negativo da imagem da Corte no esforço de reeleição. Foi
lembrado o quanto Lula deve ao Supremo para poder governar, e quanto seu
partido está enrolado na ala baiana do escândalo Master.
Esse é o problema dos homens fortes quando se
tornam vulneráveis – caso de Moraes. O conjunto da obra desaba rapidamente. E
produz a passagem da condição de “salvador” da instituição para a condição de
passivo do qual a instituição precisa se livrar para se salvar.
É o momento atual. Não significa que Moraes
corre risco imediato e inevitável de subir ao cadafalso. O que condiciona seu
destino não é um tipo de arranjo, não importa a natureza, no Supremo. É o grau
de dissociação da sociedade em relação à instituição que ele vem dominando com
alguns colegas. Não é algo que os donos do poder resolvam reelegendo Lula. Ou
salvando Moraes de uma investigação.

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