Estou consciente dos efeitos embaraçosos que o atual processo eleitoral tem provocado em mentes como a minha, treinadas para através do pensamento procurarem soluções políticas, por mais opaco que o cenário possa parecer ao escrutínio de suas nuances. Suponho, contudo, que essa reação mental encapsulada não é algo meu ou de mentes afins. Reflete até sentimentos públicos compartilhados por um número de pessoas que não sei mensurar, incluindo outros profissionais da ciência política.
Em busca de uma diagonal
Lembro passagem de Hannah Arendt no seu
“Entre o passado e o futuro”, em que ela comenta uma parábola de Kafka cujo
sugestivo título é “Ele”. Noutros tempos seria possível ler e entender como “lá
ele”, mas no atual tempo de mutação da política, creio que não apenas eu, mas
muitos de nós sentimo-nos identificados com a mente e a pele dessa terceira
pessoa. Explicando melhor, Arendt refere-se à parábola de Kafka que aqui
reproduzo, como traduzida por Enio Silveira:
Ele tem dois antagonistas: o primeiro
empurra-o por detrás, desde o seu nascimento; o segundo bloqueia o caminho
diante dele. Ele luta com ambos. A bem da verdade, no entanto, o primeiro o
apoia em sua luta com o segundo, pois quer empurrá-lo para a frente. Da mesma
maneira, o segundo o apoia em sua luta com o primeiro pois, obviamente, quer forçá-lo
para trás. Tudo isso, porém, só é verdadeiro em teoria, pois não são apenas
esses dois os protagonistas que ali se encontram, mas ele também, e quem saberá
realmente de suas intenções? Seja como for, ele sonha que algum dia, num
momento de descuido - que requererá uma noite mais escura do que qualquer outra
tenha sido - possa escapar da linha de combate e, pela sua experiência nessa
luta, ser promovido a juiz da contenda entre os dois antagonistas (KAFKA,1993:
89-90).
O comentário de Arendt sobre essa parábola é
coerente com sua visão do passado e do futuro como agentes de dupla pressão
balizadora e potencialmente inibidora da criatividade humana. O efeito
sincrônico das forças do passado e do futuro anula o papel do indivíduo se este
não se puser em perspectiva diagonal, de intervenção verdadeiramente política.
Segundo a interpretação da autora, as três lutas aludidas na parábola - a que
se trava entre o passado e o futuro e as que Ele trava contra cada um dos dois
antagonistas - só existem pela presença do homem, sem a qual - suspeita-se - as
forças do passado e do futuro ter-se-iam de há muito neutralizado ou destruído
mutuamente. Segue-se que o fluxo entre passado, presente e futuro só é partido
em razão da inserção do homem no tempo. Os homens criam, mentalmente, a
situação do presente ao se postarem na lacuna entre passado e futuro e
tornam-se conscientes de um intervalo de tempo totalmente determinado por
coisas que não são mais e por coisas que não são ainda. Esses intervalos mais
de uma vez mostraram poder conter o momento da verdade.
Para ser veraz, a verdade que posso lhes
dizer sobre o que penso essas eleições é que os quarenta dias até sua conclusão
anunciam-se como quaresma incompleta, após a qual, aconteça o que acontecer,
ficarão a cruz e os pregos, mas não haverá Aleluia, nem Páscoa. Se queremos
alegria e/ou ressureição, pensemos em como buscá-las, pois não se pode esperar
que venham das penas ou da graça da paixão.
Rememorando 2022
No dia 20 de agosto de 2022 publiquei, nesta
coluna, um artigo intitulado Virtude e risco da ambiguidade em política. Texto
e áudio podem ser visitados através do mesmo link que dá acesso ao presente
artigo. Mesmo assim peço licença para seguir na autorreferência, o que não é
muto simpático.
Iniciei aquele artigo lembrando que a força
de ambiguidades políticas várias na nossa história política fizeram Werneck
Vianna dizer que o Brasil “é o lugar, por excelência, da revolução passiva”.
Dentre as ambiguidades, a que envolve e tensiona populismo e democracia.
Inaugurada no final da Era Vargas e difundida durante a democracia de 46 a 64,
ela encontrava reedição dramática naquelas eleições de 2022, não mais como
atitude política de um dos polos - como no segundo turno de 2018 - mas como um
padrão de conduta que se tornava premissa de competitividade para qualquer
deles. Era ainda relativamente fácil à oposição apontar na campanha de Jair
Bolsonaro uma contradição em termos entre populismo e democracia, pois o primeiro
negava enfaticamente a segunda, como nos tempos do milagre brasileiro do gal.
Médici. Já a de Lula, aludia a Carta de 88 como algo bem mais que meras “quatro
linhas” constrangedoras da política. Era ferramenta republicana e política.
Porém, uma tensão entre democracia e populismo era ali também visível, não como
negação, mas ambiguidade.
A tentação de entrar no túnel do tempo para uma revisita ao populismo incomodava, mas diante do perigo do regresso autocrático, esse anacronismo era mal menor, ou mesmo benigno. Reconhecia-se que a ambiguidade não deixava de ter o lado virtuoso de reabrir uma chance de continuidade da vida em comum, então em perigo. Na boa tradição da revolução passiva, de preferir analgesia, fitoterapia e fisioterapia às consequências de uma cirurgia invasiva, a conciliação liberal-democrática com a atitude populista limitava horizontes, mas, ao menos, detinha dores da tempestade destrutiva. Em agosto de 22, Lula aparecia como um sereno tio da pátria, em alguns vídeos feitos para desarmar e prometer.
Para ser promissor sem ambiguidades seria
preciso mais do que isso. O líder e candidato teria que fazer do perdão o ponto
de partida para a confiabilidade da promessa. Mas se a alma de quem propunha
conciliar o país admitia relevar agravos que sofrera em passado recente e
recusar a trilha da vingança, esse aceno aparecia como concessão, intenção de
bondade, não gesto de perdão político, a si e aos demais, por agravos
recíprocos. Privado desse ato inaugural, o unguento conciliador atuou, mas com
fraco poder de promissão. Ouvia-se Lula ambiguamente, como consolo, com alívio,
mas sem a esperança sugerida. O nascimento, condição que compõe, no pensamento
de H. Arendt, a dignidade da política, depende de se cumprir todo o circuito
iniciado pelo perdão. Esse bem público não estava disponível no momento.
Convinha não desdenhar a ambiguidade. Ficamos com ela. Nós e a maioria
eleitoral.
Ao mesmo tempo em que me somava aos que se
dispunham a aceitar o que se tinha ali para o desjejum, o almoço e o jantar,
também aludia, com as cerimônias necessárias, mas com clareza, a riscos nada
pequenos de aceitação acrítica e cultivo imoderado daquela ambiguidade
virtualmente benigna. Reescrever agora o texto de agosto de 2022 teria mais
sentido de resumo do que de revisão. Tratava-se, já naquele momento, de
desatenção da oposição principal para a necessidade de garantir, ao campo
plural dos defensores da democracia, o comando moral do processo eleitoral. Sem
esse delicado zelo, virtudes políticas práticas da ambiguidade dissipam-se e
viríamos, como vimos, a um pântano.
Em 11.08.22, fora lida, sob as arcadas do
Largo de São Francisco, uma Carta às Brasileiras e aos Brasileiros, já
ostentando, no momento da publicação da coluna, pouco mais de um milhão de
assinaturas. O ato as potencializou sem dar motivo lógico para que a coleta se
encerrasse ali. A recepção mostrava que parte da sociedade civil achara o eixo
em torno do qual a unidade democrática se forjaria. Com isso não se resolvia o
embate eleitoral, mas dava-se cobertura em sentido político a esse embate.
Se não fosse o lapso de tempo de uma semana
entre o ato e o artigo, a imaginação do articulista viajaria alto na maionese
da popularização da carta. O saldo seria um documento político servir de liame
entre a sociedade civil e o cidadão comum. O delírio ficou na intenção porque o
colunista foi trazido ao chão pelo silêncio obsequioso que logo se instalou em
torno daquele processo promissor de mobilização cívica. Foi tratado como mero
evento. O choque abrupto de silêncio começou com a iniciativa dos próprios
organizadores de paralisarem o mecanismo eletrônico da coleta com a
justificativa de que a campanha eleitoral oficial começara. A coluna, já
transitando da imaginação ao repto, perguntava: e daí? Um equívoco essa autocontenção
de atores da sociedade civil, assim como a distância que o conjunto das forças
políticas tomou de possíveis desdobramentos daquele ato. Incluindo partidos e
candidaturas que haviam feito pregação contínua sobre a necessidade de busca de
convergências ao centro.
Duplamente desconcertante, foi algo insólito
(no sentido de surpreender) e desmobilizador do que deu trabalho para juntar. A
neutralização desse eixo agregador deu asas à ambiguidade na campanha mais
relevante e no seu entorno. O tio da pátria permaneceu em cena, mas o
pluralismo da Carta de 88 e do ato das arcadas passou a ser gradativamente
tratado em chave populista, insinuando-se a pecha de elitista. Coisa boa, mas
do passado. Agora o que mais contava era a voz direta do povo. No calor do bom
combate democrático daquela hora, onde só os contrastes brilham, passava quase
despercebida a similitude (certamente parcial, mas não nula) dessa percepção
com o modo bolsonarista de ver as coisas. Ainda em plena campanha, a
ambiguidade populista expandia seu espaço em direções discutíveis, o que no
governo viraria hábito. Dei exemplos no texto. Reitero-os, seguindo no resumo.
Na semana seguinte à Carta às brasileiras e
aos brasileiros (iniciativa nascida no próprio meio universitário), a esquerda universitária
produziu uma “Carta de Ex-Reitores e Ex-Reitoras de Universidades Federais pela
Democracia e em Apoio à eleição do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. Um
movimento que estreitava o original: ex-dirigentes de instituições que precisam
ser guardiãs do pluralismo diziam que ir ao centro não significava abrir mão de
uma hegemonia. Desde já estava demarcado o campo ideológico que, por suposto,
representa o espaço universitário. Neste os liberais (os da casa e os dos
partidos) são, no máximo, visitas recebidas com devida distância. Para evitar a
ambiguidade eleitoral, incidia-se em perigosa ambiguidade quanto à república e
à unidade democrática.
No mesmo contexto, Lula, em campanha, foi à
USP, instituição líder do antes citado movimento civil. Ladeado por Fernando
Haddad e figuras tradicionais do lulopetismo acadêmico, adotou sua noção de
debate eleitoral: não havia tempo a perder com concorrentes inexpressivos, seja
em debates pela TV ou no ambiente universitário. Seu alvo era o rival que ameaça
a democracia. Daí, em tom de blague, desafia-o a debater téte a téte na USP.
Bem poderia receber de volta, como virtual resposta do capitão, que poderia
ficar com “sua” USP, que ele ficaria no seu cercado, com o Exército que achava
ser seu.
Sob a mesma chave populista, também circulou
no nosso meio um texto cujo título (“Carta do povo”) era em si um contraponto à
“Carta às brasileiras e aos brasileiros”. Nesta o povo - conjunto de cidadãos e
cidadãs não previamente organizados - é destinatário, ainda que nada impeça
parte desses milhões de indivíduos tornar-se signatária. No título do texto
alternativo - que se difundiu em nichos da frente de esquerda e em redes mais
amplas, em aliança com o ativismo digital de André Janones, sintoma do tipo de
ambiguidade de que falo -, o povo é um coletivo magicamente convertido em
remetente pelas artes da retórica populista. Dos dezoito curtos parágrafos,
escritos com técnica comunicacional de quem trafega tanto em redes
contemporâneas quanto na tradição de panfletos, só um se referia,
genericamente, a instituições políticas capazes de distinguir democracia de
ditadura. Cumprido esse protocolo, os demais parágrafos pormenorizavam a
“substância social”, sem a qual a política seria, na visão dos escribas, um
nada.
A “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros”
dizia que nossa democracia cresceu e amadureceu, mas muito ainda há de ser
feito. Vivemos em país de profundas desigualdades sociais (...) Pleitos por
maior respeito e igualdade de condições em matéria de raça, gênero e orientação
sexual ainda estão longe de ser atendidos com a devida plenitude. Era um
comprometimento com a dimensão social da democracia num grau que o senso comum
poderia entender. Mas não bastava aos apóstolos da “substância”. Mais que a
fala, valia o lugar de fala que supunham ocupar para explicar ao povo uma
teoria simplista sobre a sua opressão. Esquerdismo e populismo aproximam-se em
coalizão tácita para limitar os cidadãos à condição de massa, ou de clientes.
Termina dando espaço, para que a campanha eleitoral prometa pão a partir de um
circo. Essa ambiguidade oferecia ao país um script de Benjamin Button,
regressão temerária pois, no itinerário desse regresso, outro páthos iliberal
saía à luz, pela direita, tentando dar ao passado autoritário vestes milicianas
e isso poderia vir a ser parada obrigatória nesse descaminho. Não foi, mas o
que se soube depois sobre bastidores do poder em 2022 deu razão àquela
conjectura. Batera na trave.
O andamento do Lula 3 confirmou o presságio.
O populismo em vez de ceder quando o palanque eleitoral saiu do calendário, foi
se tornando, gradativamente, um substitutivo retórico do discurso da frente
ampla. Se havia dúvida no articulista de 2022 sobre a atitude ético-política da
principal candidatura do campo democrático, elas se dissiparam com o que se
passou a fazer após a posse e especialmente após o 8 de janeiro de 2023. O
comando da política escorreu pelos dedos de atores voltados ao centro e
comprometidos com o estado democrático de direito ao seguir a trilha ambígua do
populismo do bem. Com isso, a liderança moral do embate com a oposição passou a
ser exercida pela gramática do adversário derrotado em 22. Uma cilada cuja
descrição cabal é a presente cena eleitoral.
A ambiguidade é método político virtuoso,
saber prático para refratar, com prudência e habilidade, riscos do voluntarismo
e da doutrina. Mas torna-se o próprio perigo se for um disfarce que consagra e
congela particularismos. Espalha perversidade e autoengano, alimentando a tese
de que é possível vencer o adversário antidemocrático adotando suas premissas.
Não é. O que se logra, no máximo, é trocar de posição com ele em incessante
batalha frontal. Entendimentos consistentes entre democratas precisavam ter
ocorrido no tempo da política real, que não é o tempo largo de especulações
metafisicas nem o tempo sumário dos arrastões. Quem não tem tempo para pensar e
realizar isso, antecipadamente está derrotado. Uma pergunta de 2026 é saber se
em 2022, além de Lula, a democracia também venceu.
E agora?
A quem ainda não percebeu, digo que não se
trata de arrependimento. A crônica do que aconteceu no subsolo da política até
dezembro de 2022 é eloquente sobre o perigo que o país corria com Bolsonaro e
sua turma e do que ele escapou naquelas eleições. Exatamente por causa daquele
desfecho, a facção da elite política que saiu vencedora não poderia descuidar
da sua conexão com o corpo social real que lhe deu um mandato, mas não licença
para agir como seu guia. Eleições legislativas conexas não deixaram dúvidas
sobre o que nove entre dez estudos sérios de ciência política e de comunicação
política
apontam: na frase de Jairo Nicolau, o Brasil
dobrou a direita, ou melhor, já dobrara antes e confirmava essa direção. Uma
direção provisória, como tudo numa democracia, mas insofismável e não passível
de negação pela elite política de uma poliarquia. O prosseguimento do discurso
polarizador pela esquerda oficial e, de modo particular, o uso e abuso da
ambiguidade nesse terreno pelo presidente não sairão grátis, seja qual for o
resultado da eleição. Precisamos estar prontos para mais alguns anos no
pântano.
Com isso não quero dizer que considero
idênticas, a situação de hoje e a de 2022. Os riscos são de outra ordem e o mal
estar também. A guerra retornou, agora com menos consenso público sobre quem
está do lado da democracia ou contra ela. Todo mundo a defende e ao mesmo tempo
a interpreta de modo cada vez mais narcísico. A disputa é sobre quem é o dono
da verdade. O messianismo que antes era traço de uma turma virou padrão mais
generalizado. Assim, chances de episódios de intolerância aumentam. As
instituições não estão tão ameaçadas como em 2022, mas a conduta democrática
sim. Há campo livre para lógicas de faxina. Quem ganhar a eleição não terá
direito ao benefício da dúvida.
Se essa avaliação do quadro faz algum
sentido, segue sendo importante conversarmos sobre qual tipo de voto cada um e
cada uma de nós pretende dar nas diversas eleições para Executivo e
Legislativo. Porém, penso ser igualmente importante (talvez mais) entender por
que o cardápio na presidencial emagreceu em vez de se tornar mais farto do que
há 4 anos? por que nesta eleição a chamada sociedade civil fala menos do que
falou na eleição passada? por que, aos poucos, o medo do que poderia vir deste
ou daquele governo eleito vai sendo substituído por a) indiferença
comparativamente maior quanto ao resultado eleitoral e b) uma urgência e
impaciência cada vez maiores por soluções de problemas sociais que se agravam?
Se somarmos A e B, aonde isso dará? É nosso papel e interesse não pagar para
ver.
Os vencedores dessa eleição (no Executivo e
no Legislativo) receberão uma batata quente como merecido desafio. A atores
democráticos da sociedade civil cabe constante vigilância e para dialogar com
eles forças políticas precisarão se colocar, ativamente, em posição diagonal à
polarização extrema. Passou o tempo em que o STF podia ser visto como arrimo,
uma quase guardiania. Ele passou da quase à hiper guardiania, pela mesma via
ambiguamente destrutiva que desertificou a política. Também ele precisará ser
reformado, ressignificado e vigiado por um arco político-social fincado na
grande política.
*Este texto é adaptação de uma exposição feita em 26.08.2026, em mesa promovida pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), organizada por uma esquipe daquele instituto, coordenada pelo professor Samuel Barros. O debate sobre o tema “Eleições 2026: Bahia e Brasil em perspectiva” foi mediado pelo jornalista Victor Pinto e teve como expositores este colunista e o professor Wilson Gomes, da FACOM/UFBA, coordenador do INCT.DD
**Cientista político e professor da UFBa.

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