sábado, 5 de setembro de 2026

A República, em apuros, pede socorro, por Marcus Pestana

Vivemos uma longa noite de 21 anos sob o autoritarismo. Minha geração resgatou o fio da meada deixado pelos jovens de 68, na segunda metade dos anos 1970. “A UNE somos nós, nossa força e nossa voz!”. Não era legal, a ditaduras não queria, reconstruímos na marra, na coragem, na luta. Pulmões cheios de ar, energia e esperança. Corações de estudantes, cheios de sonhos juvenis e ousados objetivos para o país.

Tudo em torno de duas palavras mágicas: democracia e República. Do grego, demokratia, significando governo do povo. República, do latim, res publica, em outras palavras, coisa pública, bem comum. O sonho da geração da redemocratização era inicialmente muito simples: um governo do povo baseado no bem comum e no respeito à coisa pública.

O líder da transição foi o mineiro Tancredo Neves. Fui candidato a vereador em 1982, na cidade de Juiz de Fora, pelo MDB, voto vinculado, tendo Tancredo à frente, para o governo de Minas, e Itamar Franco para o Senado Federal. Os dois ensinaram, a nós jovens, a importância da liturgia do cargo. Aprendemos que os líderes da República, nos três poderes, não se ancoram apenas em suas prerrogativas constitucionais, mas, sobretudo, em seu comportamento moral, seu código de ética pessoal, na credibilidade e admiração que suas atitudes despertam. As instituições democráticas não podem ter pés de barro. Precisam estar solidamente enraizadas na confiança da sociedade. Foi um privilégio conviver de perto e nos espelhar em figuras como Ulysses Guimarães, Mário Covas, Teotônio Vilella, Fernando Henrique, Tancredo Neves, Itamar Franco, Franco Montoro.

Creio que eles estariam aqui estarrecidos e decepcionados. A República brasileira vive um duro momento e as suas instituições parecem gravemente doentes. Palavras como governo do povo, bem comum e coisa pública saíram do cardápio. Favores escusos, promiscuidade institucional, contratos misteriosos, conflitos de interesses flagrantes, falta de compostura e vergonha na cara, liturgia zero nos cargos, festas nababescas, Maccalans, charutos cubanos, acompanhantes de luxo, tudo sob os auspícios de futuros réus endinheirados.

Precisamos de saídas democráticas para recuperar a credibilidade política e a admiração do povo por nossas instituições. Nossos erros e desvios nos levaram a eleições marcadas por rejeições em patamares inéditos e apatia geral. Será que o professor Joaquim Falcão tem razão ao afirmar que o sistema de freios e contrapesos e controles cruzados entre os poderes foi substituído pelo conluio das elites e pelo compadrio para acobertar desvios de conduta generalizados?

De peito aberto, conquistamos nas ruas, nas campanhas pela anistia e pelas Diretas, a tão sonhada Nova República. Quarenta e um anos se passaram. Não podemos admitir que uns poucos arrivistas rasguem nossos sonhos. Na ditadura, tínhamos nossa trilha sonora, as nossas Marselhesas e Bellas Ciaos. Uma dizia “…. apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. A outra que “quem sabe, faz a hora, não espera acontecer”. Ou ainda “… a esperança equilibrista, sabe que o show de todo artista tem que continuar”.

Não é a primeira e não será a última crise de nossa tenra democracia. Certos de que amanhã será outro dia, sem pressa, mas fazendo a hora, saibamos que o nosso show tem que continuar.

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