domingo, 13 de setembro de 2026

Brasíliada, por Merval Pereira

O Globo

Desde a Operação Lava-Jato, que teve no decano, ministro Gilmar Mendes, seu principal defensor durante anos, e depois seu algoz, a guerra no STF teve início.

A noite era de confraternização, embora não saísse da cabeça de todos à mesa a crise em que vivemos. A ameaça era evidente: éramos 13 à mesa. Um dos convivas, talvez notando a inconveniência, passou mal e se retirou. Uma festa familiar, diga-se de passagem, nada parecida com a das Astronautas, ou aquela em que havia 120 mulheres para 20 homens, onde o futuro do país era discutido entre vinhos caros, charutos mais ainda e só entre os homens, porque as mulheres eram estrangeiras, suíças, escandinavas, não poliglotas, para não entenderem o que os homens tramavam. Meio cafona, mas era assim que funcionava.

Inevitável, porém, que a conversa acabasse no assunto que todos preferiam esquecer: a guerra instalada no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), latente há anos, uma briga de poder sem trégua entre dois grupos. Estranho que haja grupos no plenário da mais alta Corte do país? Desde a Operação Lava-Jato, que teve no decano, ministro Gilmar Mendes, seu principal defensor durante anos, e depois seu algoz, a guerra teve início. Da guerra interna, passamos a outra guerra, entre gregos e troianos, do filme sensação do momento, Odisseia, de Christopher Nolan.

Imagine-se que os nossos ministros do Supremo fossem os combatentes da Guerra de Tróia – uma “Brasilíada”, criação de um poeta presente. Uma guerra que se inicia por uma causa supostamente nobre – recapturar uma mulher raptada –, mas, em seguida, perde seu sentido original, transformando-se num banho de sangue. Alguma coincidência com nossa guerra, que começou com a defesa da democracia e terminou no escândalo do Banco Master?

Do lado grego teríamos o líder Agamenon, avatar do decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes. Poderoso, arrogante, soberbo. Não morre na guerra, mas acaba perecendo quando acredita que encontrou a paz. O ministro Alexandre de Moraes, que nos tempos de glória era aclamado por Xandão, compara-se a Aquiles: irascível, destemido, mercurial. Age emocionalmente, sem se preocupar com seu enorme e suscetível calcanhar. Também do lado grego encontra-se o ministro Flavio Dino, ou melhor, Ulisses. Esperto, ensaboado com as palavras, um guerreiro que, na verdade, se preocupa acima de tudo com a sua terra natal, Ítaca (ou Maranhão).

O ministro Dias Toffoli seria Nestor, outro rei grego, de um estado menor, que, por conta do exagero no vinho, não se engaja tanto nos combates. Há ainda um personagem de pouco destaque no texto de Homero, Estêmulo, um escudeiro – desempenhado na nossa epopeia pelo ministro Cristiano Zanin. Um comandado, que não expressa suas próprias opiniões. Do lado dos troianos, seu grande herói é Heitor – o ministro André Mendonça. Sempre com discursos bonitos e moralistas, acaba morrendo pelas mãos de Aquiles (ou Xandão). Os dois se digladiam, um para confirmar a epopeia, outro para mudar seu final.

Há também Paris, outro príncipe troiano, que se mete em confusões e recusa o embate direto. Papel para o ministro Kassio Nunes Marques. O Presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, seria o rei troiano Príamo, bem intencionado, mas que não é levado em conta pelos que deveria comandar. Na nossa guerra interna, Facchin tenta reverter este papel, veremos na terça-feira se terá força para levar adiante sua tentativa de recuperar a credibilidade do plenário que preside. O ministro Luiz Fux seria Eneias, o filho de Afrodite, deusa do amor. Um nobre troiano, cioso na proteção de sua própria família. Consegue escapar quando, ao fim, Troia é invadida.

Finalmente, a ministra Carmen Lúcia assume o papel de Helena, todos lutam por ela, embora por motivos diferentes, na epopeia de Homero ou na nossa. O enredo não merecia uma epopeia, há um elemento trágico: todos sabem o que há de errado. O vício se coloca claro bem na frente de todos nós. Contudo, o Brasil não reage. Estamos paralisados. Esqueçam a epopeia. O que vivemos é uma tragédia.

 

2 comentários:

  1. Que comparação bonita mas não tem nada a ver com a realidade estamos vivendo um circo de horrores a sociedade já traumatizada com tanto desmando e opressão já normaliza
    ter uma guerra política dentro da Suprema corte Nacional, a corte que tem como função guardar a Constituição e as leis e hoje é quem governa decide e disputa o poder no Brasil
    Merval você quis pintar de dourado a pílula fazendo esse esforço de comparação com a epopeia grega mas não tem nada a ver meu amigo é século XXI e nós brasileiros fomos dominados por essa corja com ajuda fundamental de vocês jornalistas que avalizaram anos e anos toda truculência e ilegalidade dos ministros principalmente do Alexandre de Moraes
    Agora começam a ver as consequências e alguns ainda se negam a ver , todos serão cobrados no futuro pela sua conivência com esse plano perverso de dominação do ST F

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  2. Será que o Alexandre de Moraes tem consciência do tamanho do desgaste que ele provocou a si próprio? Nada que ele possa fazer vai consertar isso, nem a renúncia. Isso me faz lembrar da estátua do Sadam Hussein sendo arrastada numa empoeirada rua do Iraque. Isso é o destino dos tiranos.

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