O Globo
Desde a Operação Lava-Jato, que teve no
decano, ministro Gilmar Mendes, seu principal defensor durante anos, e depois
seu algoz, a guerra no STF teve início.
A noite era de confraternização, embora não saísse da cabeça de todos à mesa a crise em que vivemos. A ameaça era evidente: éramos 13 à mesa. Um dos convivas, talvez notando a inconveniência, passou mal e se retirou. Uma festa familiar, diga-se de passagem, nada parecida com a das Astronautas, ou aquela em que havia 120 mulheres para 20 homens, onde o futuro do país era discutido entre vinhos caros, charutos mais ainda e só entre os homens, porque as mulheres eram estrangeiras, suíças, escandinavas, não poliglotas, para não entenderem o que os homens tramavam. Meio cafona, mas era assim que funcionava.
Inevitável, porém, que a conversa acabasse no
assunto que todos preferiam esquecer: a guerra instalada no plenário do Supremo
Tribunal Federal (STF), latente há anos, uma briga de poder sem trégua entre
dois grupos. Estranho que haja grupos no plenário da mais alta Corte do país?
Desde a Operação Lava-Jato, que teve no decano, ministro Gilmar Mendes, seu
principal defensor durante anos, e depois seu algoz, a guerra teve início. Da
guerra interna, passamos a outra guerra, entre gregos e troianos, do filme sensação
do momento, Odisseia, de Christopher Nolan.
Imagine-se que os nossos ministros do Supremo
fossem os combatentes da Guerra de Tróia – uma “Brasilíada”, criação de um
poeta presente. Uma guerra que se inicia por uma causa supostamente nobre –
recapturar uma mulher raptada –, mas, em seguida, perde seu sentido original,
transformando-se num banho de sangue. Alguma coincidência com nossa guerra, que
começou com a defesa da democracia e terminou no escândalo do Banco Master?
Do lado grego teríamos o líder Agamenon,
avatar do decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes. Poderoso, arrogante,
soberbo. Não morre na guerra, mas acaba perecendo quando acredita que encontrou
a paz. O ministro Alexandre de Moraes, que nos tempos de glória era aclamado
por Xandão, compara-se a Aquiles: irascível, destemido, mercurial. Age
emocionalmente, sem se preocupar com seu enorme e suscetível calcanhar. Também
do lado grego encontra-se o ministro Flavio Dino, ou melhor, Ulisses. Esperto,
ensaboado com as palavras, um guerreiro que, na verdade, se preocupa acima de
tudo com a sua terra natal, Ítaca (ou Maranhão).
O ministro Dias Toffoli seria Nestor, outro
rei grego, de um estado menor, que, por conta do exagero no vinho, não se
engaja tanto nos combates. Há ainda um personagem de pouco destaque no texto de
Homero, Estêmulo, um escudeiro – desempenhado na nossa epopeia pelo ministro
Cristiano Zanin. Um comandado, que não expressa suas próprias opiniões. Do lado
dos troianos, seu grande herói é Heitor – o ministro André Mendonça. Sempre com
discursos bonitos e moralistas, acaba morrendo pelas mãos de Aquiles (ou
Xandão). Os dois se digladiam, um para confirmar a epopeia, outro para mudar
seu final.
Há também Paris, outro príncipe troiano, que
se mete em confusões e recusa o embate direto. Papel para o ministro Kassio
Nunes Marques. O Presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, seria o rei
troiano Príamo, bem intencionado, mas que não é levado em conta pelos que
deveria comandar. Na nossa guerra interna, Facchin tenta reverter este papel,
veremos na terça-feira se terá força para levar adiante sua tentativa de
recuperar a credibilidade do plenário que preside. O ministro Luiz Fux seria
Eneias, o filho de Afrodite, deusa do amor. Um nobre troiano, cioso na proteção
de sua própria família. Consegue escapar quando, ao fim, Troia é invadida.
Finalmente, a ministra Carmen Lúcia assume o
papel de Helena, todos lutam por ela, embora por motivos diferentes, na epopeia
de Homero ou na nossa. O enredo não merecia uma epopeia, há um elemento trágico:
todos sabem o que há de errado. O vício se coloca claro bem na frente de todos
nós. Contudo, o Brasil não reage. Estamos paralisados. Esqueçam a epopeia. O
que vivemos é uma tragédia.

Que comparação bonita mas não tem nada a ver com a realidade estamos vivendo um circo de horrores a sociedade já traumatizada com tanto desmando e opressão já normaliza
ResponderExcluirter uma guerra política dentro da Suprema corte Nacional, a corte que tem como função guardar a Constituição e as leis e hoje é quem governa decide e disputa o poder no Brasil
Merval você quis pintar de dourado a pílula fazendo esse esforço de comparação com a epopeia grega mas não tem nada a ver meu amigo é século XXI e nós brasileiros fomos dominados por essa corja com ajuda fundamental de vocês jornalistas que avalizaram anos e anos toda truculência e ilegalidade dos ministros principalmente do Alexandre de Moraes
Agora começam a ver as consequências e alguns ainda se negam a ver , todos serão cobrados no futuro pela sua conivência com esse plano perverso de dominação do ST F
Será que o Alexandre de Moraes tem consciência do tamanho do desgaste que ele provocou a si próprio? Nada que ele possa fazer vai consertar isso, nem a renúncia. Isso me faz lembrar da estátua do Sadam Hussein sendo arrastada numa empoeirada rua do Iraque. Isso é o destino dos tiranos.
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