sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Confusão, silêncio e gargalhadas, por Vera Magalhães

O Globo

Tática dos enredados na teia de Vorcaro é fazer um fogo de encontro que iguale as suspeitas e evite qualquer apuração célere

A tática dos enredados na teia cada vez mais ampla de Daniel Vorcaro para evitar que suas relações com autoridades sejam investigadas a fundo e gerem consequências está clara: apostar na confusão embalada por um silêncio que só não é mais aviltante do que as sonoras gargalhadas, daquelas de sacudir o corpo todo, em que ministros do Supremo Tribunal Federal foram flagrados pelo repórter fotográfico Brenno Carvalho, do GLOBO.

A refrega se deu na saída de uma sessão em que Suas Excelências fizeram um esforço claramente teatral para afetar cordialidade enquanto fingiam não haver um elefante de tamanho Master sentado no meio do plenário. Horas antes, o presidente da Corte, Edson Fachin, havia mandado recados a todos os envolvidos de que estava disposto a, uma vez mais, contemporizar, parar a bola enquanto estudam, sempre a portas fechadas, uma maneira de reduzir danos para si mesmos.

Só essa atitude foi capaz de evitar que os ministros extravasassem no plenário a ira que cultivam uns em relação aos outros. Entre alinhamentos mais ou menos definidos e aqueles cuja posição hoje parece mais difícil de cravar, a unanimidade triste é a aquiescência de todos, enredados ou não, com esse pacto de silêncio em público — e a galhofa quando imaginam estar preservados atrás das cortinas.

A revolta, ontem, daqueles que não se dignam a vir a público prestar contas à sociedade de que são servidores, era com o fotógrafo. Que injustiça, uma vez que estavam rindo de uma engraçadíssima piada sobre PIS/Cofins contada por Flávio Dino, e não fazendo graça com a crise que arrasta a instituição de que são parte para a lama.

É sempre assim. Quando foram flagrados ensaiando votos e trocando impressões pelo aplicativo interno de mensagens nas sessões de recebimento da denúncia do mensalão, em 2007, os ministros tomaram como providência tirar repórteres e fotógrafos dos lugares localizados atrás de suas próprias cadeiras. Só falta quererem repetir a dose agora, eliminando os jornalistas, e não o bode Vorcaro, da sala.

Fachin alimentou muita expectativa de que faria uma gestão inovadora em termos de transparência e prestação de contas no Judiciário. Demonstrou não ter força sequer para dar a largada. Agora, aceita de bom grado a função de armar a retranca para os colegas e representantes máximos do Ministério Público e da Polícia Federal, que beberam uísque e fumaram charuto em festas além-mar para as quais ele não foi convidado. Triste papel.

Desde que o relatório da PF centrado em Alexandre de Moraes e sua relação umbilical com Daniel Vorcaro vieram à tona, a barafunda criada com vazamentos em todas as direções e andanças de aliados do ministro por gabinetes na Praça dos Três Poderes só tem um objetivo: criar uma cacofonia tal que faça com que não se distinga o que de mais grave existe num cenário de corrupção generalizada, promovida por alguém que imaginava poder comprar inimputabilidade — e quase conseguiu. O auge desse diversionismo foi o anúncio, por parte de Moraes, de pedido para investigar o colega André Mendonça no inquérito das fake news. A inação de Fachin fez com que Moraes se sentasse na cadeira dele.

Nesse cenário em que se sacrificam as instituições para salvar o que resta da imagem de alguns, chama a atenção a disposição de políticos e até intelectuais em fechar os olhos e praticar contorcionismo para relevar o injustificável, quando quem mete a mão na cumbuca está no seu “lado” do cada vez mais burro alinhamento ideológico.

Nessa toada, o mais surreal é ver a esquerda dando a vida para defender Moraes, nomeado pelo “golpista” Michel Temer, só pelo “papel em salvar a democracia”. Preservar a Constituição e a democracia, quando se é um magistrado da Corte constitucional, não é favor, é dever inescapável. Julgar e condenar golpistas não é heroísmo, é função precípua do STF.

Fazer isso para, em seguida, se valer das garantias conferidas à função para se blindar de qualquer investigação é conspurcar a mesma democracia, de outra forma. Já passou da hora de deixar de lado esse papo de “dívida de gratidão”.

 

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