O Globo
O comum é adotar uma posição dogmática e
assumir que nossas crenças, por serem nossas, são melhores e verdadeiras
Esta é a questão: somos, de fato, capazes de
conversar com quem discordamos? Não me refiro às conversas cotidianas, quando
trocamos informações, falamos sobre tempo e futebol. Essas conversas exigem que
compartilhemos, uns com os outros, um terreno simbólico comum relativamente
estável, tenhamos alguma confiança nas pessoas e a propensão a cooperar de
acordo com expectativas convergentes.
Estou me referindo às situações em que “terreno comum”, “confiança” e “cooperação” podem estar momentânea ou duradouramente suspensos ou ameaçados. Chamo isso de “conversas difíceis”. Surgem quando, entre interlocutores, há desacordo, dúvida persistente ou incertezas diante de uma questão para a qual ninguém tem resposta adequada para além das próprias convicções e crenças pessoais. Em geral, esses são casos em que o objeto da disputa é crucial para a vida civil, quando o tema é política, moral, economia, educação... enfim, sobre como devemos conduzir nossas vidas. Em sociedades abertas e plurais, esses são assuntos inescapáveis, mas as divergências acerca deles também são inevitáveis.
Que tenhamos crenças e valores conflitantes
não é o problema. O problema é se estamos dispostos a conversar nessas
condições. Isso é um problema porque uma conversa difícil obriga a imaginar que
nossos opositores, aqueles de quem discordamos, são pessoas como nós e, por
isso, têm o direito legítimo de defender suas posições. Mais que isso, somos
obrigados a imaginar, mesmo que remotamente, que podem apresentar boas razões a
favor do que acreditam e nós, não.
Uma conversa difícil não é uma conversa entre
pessoas que já confiam umas nas outras e cooperam perfeitamente. É o oposto
disso. Confiar em nosso oponente político e moral, admitir que ele pode ter
razões, não é algo trivial, pois envolveria uma disposição honesta à
possibilidade de mudar de opinião. O comum é adotar uma posição dogmática e assumir
que nossas crenças, por serem nossas, são melhores e verdadeiras, e qualquer um
que siga noutra direção deve ser combatido.
Conversar pode ser uma forma de suspender
nossas próprias crenças, manter uma questão aberta, procurar novas razões,
examinar as evidências e os argumentos apresentados por nossos oponentes e
reconhecer que ainda não sabemos o suficiente para encerrar um assunto. A
prudência diz que, diante da incerteza natural da vida, não deveríamos ser
precipitados.
Nada disso significa que as conversas
difíceis sejam possíveis ou desejáveis. Existem assimetrias de poder,
injustiças, intolerância e situações em que alguém não quer conversar, mas
apenas vencer. Uma conversa difícil pode fracassar (estão fadadas a fracassar,
talvez), pode se tornar um simples jogo de cena ou terminar sem resultado
algum. Ela exige qualidades pouco espetaculares e talvez escassas: moderação intelectual,
curiosidade, coragem para expor convicções ao exame alheio, disciplina
argumentativa, escuta e disposição para reconhecer o oponente cognitivo,
político e moral como um semelhante.
É justamente essa fragilidade que torna a
conversa difícil importante. Seu valor está em oferecer a possibilidade, sempre
precária, de transformar conflito, dúvida e incerteza num meio de compreender
melhor o mundo e tomar melhores decisões.
Não importa se temos uma resposta filosófica
sobre se é possível conversar com quem discordamos. O caso é que, em
democracias, conversas difíceis ocorrem todo dia, gostemos ou não, e a
resolução do conflito não pode ser adiada. Uma sociedade democrática não é
aquela em que conseguimos eliminar nossos desacordos. Talvez seja aquela em
que, apesar deles, ainda nos interessemos em compreender as razões dos outros e
em cooperar. A outra opção, você sabe, é a força e a violência.
*Waldomiro J. Silva Filho é professor titular de filosofia da Universidade Federal da Bahia, pesquisador do CNPq e autor do livro “Um homem bom” (Companhia das Letras)

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