sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Conversar é difícil, por Waldomiro J. Silva Filho*

O Globo

O comum é adotar uma posição dogmática e assumir que nossas crenças, por serem nossas, são melhores e verdadeiras

Esta é a questão: somos, de fato, capazes de conversar com quem discordamos? Não me refiro às conversas cotidianas, quando trocamos informações, falamos sobre tempo e futebol. Essas conversas exigem que compartilhemos, uns com os outros, um terreno simbólico comum relativamente estável, tenhamos alguma confiança nas pessoas e a propensão a cooperar de acordo com expectativas convergentes.

Estou me referindo às situações em que “terreno comum”, “confiança” e “cooperação” podem estar momentânea ou duradouramente suspensos ou ameaçados. Chamo isso de “conversas difíceis”. Surgem quando, entre interlocutores, há desacordo, dúvida persistente ou incertezas diante de uma questão para a qual ninguém tem resposta adequada para além das próprias convicções e crenças pessoais. Em geral, esses são casos em que o objeto da disputa é crucial para a vida civil, quando o tema é política, moral, economia, educação... enfim, sobre como devemos conduzir nossas vidas. Em sociedades abertas e plurais, esses são assuntos inescapáveis, mas as divergências acerca deles também são inevitáveis.

Que tenhamos crenças e valores conflitantes não é o problema. O problema é se estamos dispostos a conversar nessas condições. Isso é um problema porque uma conversa difícil obriga a imaginar que nossos opositores, aqueles de quem discordamos, são pessoas como nós e, por isso, têm o direito legítimo de defender suas posições. Mais que isso, somos obrigados a imaginar, mesmo que remotamente, que podem apresentar boas razões a favor do que acreditam e nós, não.

Uma conversa difícil não é uma conversa entre pessoas que já confiam umas nas outras e cooperam perfeitamente. É o oposto disso. Confiar em nosso oponente político e moral, admitir que ele pode ter razões, não é algo trivial, pois envolveria uma disposição honesta à possibilidade de mudar de opinião. O comum é adotar uma posição dogmática e assumir que nossas crenças, por serem nossas, são melhores e verdadeiras, e qualquer um que siga noutra direção deve ser combatido.

Conversar pode ser uma forma de suspender nossas próprias crenças, manter uma questão aberta, procurar novas razões, examinar as evidências e os argumentos apresentados por nossos oponentes e reconhecer que ainda não sabemos o suficiente para encerrar um assunto. A prudência diz que, diante da incerteza natural da vida, não deveríamos ser precipitados.

Nada disso significa que as conversas difíceis sejam possíveis ou desejáveis. Existem assimetrias de poder, injustiças, intolerância e situações em que alguém não quer conversar, mas apenas vencer. Uma conversa difícil pode fracassar (estão fadadas a fracassar, talvez), pode se tornar um simples jogo de cena ou terminar sem resultado algum. Ela exige qualidades pouco espetaculares e talvez escassas: moderação intelectual, curiosidade, coragem para expor convicções ao exame alheio, disciplina argumentativa, escuta e disposição para reconhecer o oponente cognitivo, político e moral como um semelhante.

É justamente essa fragilidade que torna a conversa difícil importante. Seu valor está em oferecer a possibilidade, sempre precária, de transformar conflito, dúvida e incerteza num meio de compreender melhor o mundo e tomar melhores decisões.

Não importa se temos uma resposta filosófica sobre se é possível conversar com quem discordamos. O caso é que, em democracias, conversas difíceis ocorrem todo dia, gostemos ou não, e a resolução do conflito não pode ser adiada. Uma sociedade democrática não é aquela em que conseguimos eliminar nossos desacordos. Talvez seja aquela em que, apesar deles, ainda nos interessemos em compreender as razões dos outros e em cooperar. A outra opção, você sabe, é a força e a violência.

*Waldomiro J. Silva Filho é professor titular de filosofia da Universidade Federal da Bahia, pesquisador do CNPq e autor do livro “Um homem bom” (Companhia das Letras)

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