domingo, 27 de setembro de 2026

Crença em razões razoáveis para o voto democrático, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Volto hoje a usar como referência, nesta coluna, agora com mais ênfase, avaliações recentes do quadro das eleições presidenciais, feitas pelo cientista político Antônio Lavareda. O resumo de entrevista sua aos jornalistas Matheus Leitão, Rafael Campos e Maria Carolina Brito foi publicado na coluna do primeiro no site Metrópoles, na quarta-feira, 23.09. Lavareda avaliou, nessa entrevista, que se a eleição fosse hoje Flávio Bolsonaro seria favorito. E usou, por outro lado, a imagem da "eternidade" para se referir ao tempo hábil que ainda resta à campanha de Lula para alterar a situação que lhe seria adversa.

A imagem da eternidade foi metáfora um tanto vaga, talvez por cuidado profissional de quem tem a justa reputação de ser dos mais sólidos e experientes realizadores e analistas de pesquisas eleitorais do país. Um profissional desse ramo não deve abrir espaço, numa entrevista jornalística, para ser interpretado, pelo grande público, como conselheiro de uma das campanhas. Mas dias antes - como comentei semana passada - ele fora muito mais específico numa discussão virtual de que participou com o movimento Derrubando Muros. Em vez de uma metáfora, emitiu um conceito que, a meu ver, seria, caso considerado, muito útil à campanha de Lula para aproveitar de modo politicamente positivo essa lacuna de tempo restante: o conceito de mudança, que Lavareda entende como o sentimento predominante no eleitorado, cuja consideração é condição para um candidato ter chance de vitória.

Mudança na pauta e no tom da campanha para veicular uma noção de mudança política. Novo conceito na comunicação que, por sua vez, requer, para ser veraz e ter credibilidade, uma nova estratégia política, admitindo que mudanças importantes, não apenas táticas, são necessárias na atitude do incumbente.

Lavareda não está descobrindo a pólvora. Nem o diagnóstico do humor do eleitorado é novo nem são novas as críticas à atitude de Lula. Nada disso pode ser novidade principalmente para quem está discutindo a campanha com o candidato. É o que o noticiário sobre bastidores da política já registra, a ponto de se cogitar uma divisão na campanha. A boa notícia é que não há ignorância ou desaviso, nem falta reflexão. A má notícia é que, apesar disso, predomina a inércia e a busca de uma “bala de prata”.

Penso ser um equívoco deixar passar batido o toque de Lavareda - que não foi conselho profissional a vigário, mas reflexão responsável de um intelectual público, que ele também é - e suas implicações na comunicação e na política, Na data da discussão com Lavareda, acima referida (18.09), a bola já estava há algum tempo com o incumbente. Faltavam dezessete dias até o início da campanha do segundo turno, momento em que é razoável esperar que haja uma virada de chave. Já se passaram oito dias, restam nove e não há sinal de preparação dessa virada, mesmo que fora dos holofotes principais da campanha. É invisível até aqui um movimento que desafie a inércia da polarização com viés moral, do personalismo narcisista e da falta de aceno ao futuro. Deixo claro que uso aqui a palavra futuro no estrito sentido de compromissos de conduta do próximo governo. Sentido imediato e modesto, como pede o contexto. 

Ao contrário do que aqui se postula como "razão razoável", ambas as campanhas seguem, como bem assinalou a colunista de política Vera Magalhães, em seu artigo "Debate pode tirar eleição do escuro" (O Globo, 25.09.26), opacas em suas retrancas, a de Bolsonaro no modo ideia fixa e a de Lula no modo aleatório. Há, de fato, grande chance de, quando a luz se acender, no dia do debate da Globo, o país ver dois gladiadores ensanguentados numa cena de luta livre. Especialistas em comunicação política podem opinar (e não tenho como negar suas razões), que a essa altura é necessário um derradeiro esforço de reiteração desse varejo rude e agressivo para Lula conseguir manter sua margem exígua de vantagem numérica no primeiro turno e, com isso, evitar desabamento precoce do ânimo moral da sua tropa. Esse efeito negativo é cogitado por Lavareda na hipótese de Lula ser ultrapassado ainda no primeiro turno.

Com ou sem ultrapassagem, se um novo script de campanha (de moderação e cuidado com potenciais aliados, revisão de condutas do Lula 3 e compromissos concretos de partilha de poder num Lula 4) não for adotado para o segundo turno e não puder ser ao menos esboçado já no debate da próxima quinta-feira (mesmo que ao lado dos impropérios de varejo), o desabamento do moral da tropa poderá ser só questão de tempo. E aí as três semanas do segundo turno parecerão mesmo uma eternidade, no sentido de serem penosas, ainda que entremeadas por imagens espetaculares de engajamento e animação.

Tem sido difícil preservar a vida ativa da razão razoável na hora em que a definição se aproxima. Mesmo as emoções mais ilhadas e intimidadas tendem a ser fustigadas para se fazerem presentes ao juízo final. Por encanto, o ceticismo que predomina há meses poderá ser invisibilizado e banido como argumento, por força de cenas controladas pelas campanhas oficiais e pela obstinação de militâncias. Impossível descartar chances de sucesso na mobilização de certos segmentos sociais e até mesmo que essas cenas venham, de algum modo, a influir no resultado eleitoral. Ou não. Certo é que a palavra tomara será uma das mais acionadas do dicionário dos atores políticos e dos eleitores engajados durante esses dias.

Interessante (não por ser espantoso, ou misterioso, mas pedagógico sobre nosso "normal") acompanhar a dança de dois tipos de narrativa que tendem a ficar mais presentes nas duas campanhas, até ou além da conclusão do processo. A partir de ambas as campanhas prosperam tanto narrativas focadas em engajamento otimista de vontades e voltado à conquista da vitória eleitoral, quanto narrativas-vacina, que antecipam discursos explicativos de uma eventual derrota, para minimizá-la ou, até mesmo, não a reconhecer.

O senso comum percebe intuitivamente e a inteligência artificial cataloga facilmente os dois tipos de narrativa. Basta consultar, um ou outra. Por isso não me ocuparei do trabalho supérfluo de "revelá-las".  O que tem sentido numa coluna sobre política é alertar, a quem quer preservar suas próprias razões como razões razoáveis, para a presença de traços de várias narrativas desses dois tipos em palavras e obras (não tenho o dom de ler "pensamentos") dos atores concretos envolvidos no espetáculo em exibição. Quem quiser procurar não terá dificuldade de achar. Diante da revelação do desde sempre percebido, a pessoa de boa-fé não precisa ter que escolher entre ficar chocada, decepcionada, ou magoada e, daí, revoltada, apática ou indiferente. Todas essas são reações emocionais próprias de nossa humanidade desejante. Mas votar, sim, é um ato de vontade, logo racional, seja qual for o seu gatilho emocional. Um ato de escolha para o cidadão ou cidadã cometer com mente prevenida e olhos abertos.

*Cientista político e professor da UFBa

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