A imagem da eternidade foi metáfora um tanto
vaga, talvez por cuidado profissional de quem tem a justa reputação de ser dos
mais sólidos e experientes realizadores e analistas de pesquisas eleitorais do
país. Um profissional desse ramo não deve abrir espaço, numa entrevista
jornalística, para ser interpretado, pelo grande público, como conselheiro de
uma das campanhas. Mas dias antes - como comentei semana passada - ele fora
muito mais específico numa discussão virtual de que participou com o movimento Derrubando
Muros. Em vez de uma metáfora, emitiu um conceito que, a meu ver, seria, caso
considerado, muito útil à campanha de Lula para aproveitar de modo
politicamente positivo essa lacuna de tempo restante: o conceito de mudança,
que Lavareda entende como o sentimento predominante no eleitorado, cuja
consideração é condição para um candidato ter chance de vitória.
Mudança na pauta e no tom da campanha para
veicular uma noção de mudança política. Novo conceito na comunicação que, por
sua vez, requer, para ser veraz e ter credibilidade, uma nova estratégia
política, admitindo que mudanças importantes, não apenas táticas, são
necessárias na atitude do incumbente.
Lavareda não está descobrindo a pólvora. Nem
o diagnóstico do humor do eleitorado é novo nem são novas as críticas à atitude
de Lula. Nada disso pode ser novidade principalmente para quem está discutindo
a campanha com o candidato. É o que o noticiário sobre bastidores da política
já registra, a ponto de se cogitar uma divisão na campanha. A boa notícia é que
não há ignorância ou desaviso, nem falta reflexão. A má notícia é que, apesar
disso, predomina a inércia e a busca de uma “bala de prata”.
Penso ser um equívoco deixar passar batido o
toque de Lavareda - que não foi conselho profissional a vigário, mas reflexão responsável
de um intelectual público, que ele também é - e suas implicações na comunicação
e na política, Na data da discussão com Lavareda, acima referida (18.09), a
bola já estava há algum tempo com o incumbente. Faltavam dezessete dias até o
início da campanha do segundo turno, momento em que é razoável esperar que haja
uma virada de chave. Já se passaram oito dias, restam nove e não há sinal de
preparação dessa virada, mesmo que fora dos holofotes principais da campanha. É
invisível até aqui um movimento que desafie a inércia da polarização com viés
moral, do personalismo narcisista e da falta de aceno ao futuro. Deixo claro
que uso aqui a palavra futuro no estrito sentido de compromissos de conduta do
próximo governo. Sentido imediato e modesto, como pede o contexto.
Ao contrário do que aqui se postula como
"razão razoável", ambas as campanhas seguem, como bem assinalou a
colunista de política Vera Magalhães, em seu artigo "Debate pode tirar
eleição do escuro" (O Globo, 25.09.26), opacas em suas retrancas, a de
Bolsonaro no modo ideia fixa e a de Lula no modo aleatório. Há, de fato, grande
chance de, quando a luz se acender, no dia do debate da Globo, o país ver dois
gladiadores ensanguentados numa cena de luta livre. Especialistas em
comunicação política podem opinar (e não tenho como negar suas razões), que a
essa altura é necessário um derradeiro esforço de reiteração desse varejo rude
e agressivo para Lula conseguir manter sua margem exígua de vantagem numérica
no primeiro turno e, com isso, evitar desabamento precoce do ânimo moral da sua
tropa. Esse efeito negativo é cogitado por Lavareda na hipótese de Lula ser
ultrapassado ainda no primeiro turno.
Com ou sem ultrapassagem, se um novo script de
campanha (de moderação e cuidado com potenciais aliados, revisão de condutas do
Lula 3 e compromissos concretos de partilha de poder num Lula 4) não for adotado
para o segundo turno e não puder ser ao menos esboçado já no debate da próxima
quinta-feira (mesmo que ao lado dos impropérios de varejo), o desabamento do moral
da tropa poderá ser só questão de tempo. E aí as três semanas do segundo turno
parecerão mesmo uma eternidade, no sentido de serem penosas, ainda que
entremeadas por imagens espetaculares de engajamento e animação.
Tem sido difícil preservar a vida ativa da
razão razoável na hora em que a definição se aproxima. Mesmo as emoções mais
ilhadas e intimidadas tendem a ser fustigadas para se fazerem presentes ao
juízo final. Por encanto, o ceticismo que predomina há meses poderá ser
invisibilizado e banido como argumento, por força de cenas controladas pelas
campanhas oficiais e pela obstinação de militâncias. Impossível descartar
chances de sucesso na mobilização de certos segmentos sociais e até mesmo que
essas cenas venham, de algum modo, a influir no resultado eleitoral. Ou não.
Certo é que a palavra tomara será uma das mais acionadas do dicionário dos
atores políticos e dos eleitores engajados durante esses dias.
Interessante (não por ser espantoso, ou
misterioso, mas pedagógico sobre nosso "normal") acompanhar a dança
de dois tipos de narrativa que tendem a ficar mais presentes nas duas
campanhas, até ou além da conclusão do processo. A partir de ambas as campanhas
prosperam tanto narrativas focadas em engajamento otimista de vontades e
voltado à conquista da vitória eleitoral, quanto narrativas-vacina, que
antecipam discursos explicativos de uma eventual derrota, para minimizá-la ou,
até mesmo, não a reconhecer.
O senso comum percebe intuitivamente e a
inteligência artificial cataloga facilmente os dois tipos de narrativa. Basta
consultar, um ou outra. Por isso não me ocuparei do trabalho supérfluo de
"revelá-las". O que tem
sentido numa coluna sobre política é alertar, a quem quer preservar suas
próprias razões como razões razoáveis, para a presença de traços de várias
narrativas desses dois tipos em palavras e obras (não tenho o dom de ler
"pensamentos") dos atores concretos envolvidos no espetáculo em
exibição. Quem quiser procurar não terá dificuldade de achar. Diante da
revelação do desde sempre percebido, a pessoa de boa-fé não precisa ter que
escolher entre ficar chocada, decepcionada, ou magoada e, daí, revoltada,
apática ou indiferente. Todas essas são reações emocionais próprias de nossa
humanidade desejante. Mas votar, sim, é um ato de vontade, logo racional, seja
qual for o seu gatilho emocional. Um ato de escolha para o cidadão ou cidadã
cometer com mente prevenida e olhos abertos.
*Cientista político e
professor da UFBa

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