CartaCapital
Entre a erosão interna e a coerção externa
Desde o pós-Guerra, os Estados Unidos reivindicaram um papel central na defesa internacional da democracia e dos direitos humanos. Ao longo das décadas, combinaram a participação na construção de instituições multilaterais com instrumentos próprios de avaliação e de pressão sobre outros países, como os relatórios de direitos humanos do Departamento de Estado. A esse repertório somaram-se as sanções da Lei Magnitsky e, em outra frente, as designações de organizações estrangeiras como terroristas, com efeitos para além das fronteiras norte-americanas.
Essa trajetória nunca esteve isenta de
seletividade e de contradições entre os princípios proclamados e os interesses
de Washington. Sob Donald Trump, o problema assume uma dimensão adicional: a
erosão democrática articula-se à instrumentalização de recursos diplomáticos,
econômicos, para constranger instituições e decisões soberanas de outros
países. Instrumentos apresentados como proteção dos direitos e da segurança
internacional são mobilizados para fragilizar a própria democracia. Não se
trata, portanto, apenas da perda de credibilidade de uma potência que defendeu
a democracia e se apresenta como sua guardiã, mas da conversão de seu poder em
vetor de erosão democrática. É essa convergência entre regressão interna e
coerção externa que torna o caso norte-americano relevante para a América
Latina e para o Brasil.
Os indicadores recentes dimensionam esse
processo. O relatório The Global State of Democracy 2026, de The International
Institute for Democracy and Electoral Assistance, descreve esse momento: 98
países, 57% de todos os analisados, recuaram, entre 2020 e 2025, em ao menos
um fator que mede a democracia. A liberdade de expressão caiu em 42 e a liberdade
de imprensa, em 39. Em 2025, pelo décimo primeiro ano consecutivo, houve mais
retrocessos do que avanços. O dado mais inquietante encontra-se no lugar de
onde a regressão agora se irradia em uma escala nunca vista na história: os
Estados Unidos, centro excepcional de poder econômico, tecnológico e narrativo.
A deterioração norte-americana é explícita e
multidimensional, e envolve quedas significativas no acesso à justiça,
igualdade econômica, Parlamento efetivo, imprensa, partidos livres e
independência judicial. Portanto, não se trata de uma transgressão democrática
isolada nem de uma oscilação trivial. A regressão democrática nos EUA tem
cruzado fronteiras e registra tentativas de influência na Argentina,
Colômbia e Honduras. O Brasil chega a esse teste em condições mais favoráveis
do que seus vizinhos, embora ainda seja vulnerável. O International IDEA
registra avanços em oito fatores entre 2020 e 2025, enquanto o V-Dem classifica
o Brasil como um caso de “U-turn” democrático, caracterizado pela interrupção e
reversão do processo anterior de autocratização, iniciadas em 2022. Apesar
disso, o V-Dem situa o País numa zona cinzenta entre a democracia eleitoral e a
liberal. A melhora revela que a regressão, embora interrompida, não foi
plenamente superada.
O processo brasileiro resistirá se nenhuma
potência puder transformar o voto em instrumento de barganha ou de dominação
O componente igualitário brasileiro ocupa
apenas a 81ª posição no V-Dem. Igualdade política, bem-estar, segurança pessoal
e expressão seguem como intermediários no IDEA. Violência política, ataques a
defensores de direitos, racismo e desigualdades de gênero e de território
restringem quem consegue falar, ser ouvido na disputa pública. Nesta
perspectiva, a democracia também é violada quando a pobreza, o medo e a
ausência de serviços reduzem a liberdade. SUS, educação, proteção social,
ciência e política ambiental são, por isso, infraestrutura democrática central
para o Brasil.
Nas eleições deste ano, 13 candidaturas foram
registradas, embora a disputa esteja concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O que é preciso perguntar a todos(as) os(as) candidatos(as): que limites
aceitam quando governam e que garantias reconhecem quando perdem?
O presidente Lula propõe um Estado social e
desenvolvimentista, com foco na redução das desigualdades, no fortalecimento do
SUS e da educação pública, na reindustrialização, na transição ecológica e na
política externa multilateral. Sua potência democrática reside na reconstrução
das capacidades públicas e dos canais participativos. Para ele, a
governabilidade não significa opacidade orçamentária, tolerância a velhas
práticas de coalizão ou dependência excessiva do Judiciário. Portanto, democracia
social, controle institucional e devido processo precisam avançar juntos, para
que o Brasil melhore ainda mais seus indicadores de democracia liberal no V-Dem
e possa servir de exemplo em uma das regiões nas quais a democracia está sob
ataque.
O senador Flávio Bolsonaro oferece
continuidade renovada do bolsonarismo, com ênfase no endurecimento penal, na
redução da maioridade penal para crimes graves, em escolas cívico-militares, em
cortes de gastos sociais, na revisão fiscal e em limites ao STF. Reformar
decisões monocráticas ou acabar com privilégios são pautas consideradas
legítimas no espectro político-ideológico em que se apoia. É alto o risco de
combiná-las com hostilidade à imprensa, ambiguidade quanto à derrota eleitoral,
segurança de exceção e apoio a pressões estrangeiras sobre as instituições
brasileiras. O teste objetivo inclui, como questões: Reconhecerá o resultado
auditado? Recusará violência e tutela militar? Concederá ao adversário as
garantias que reclama para si? E, principalmente, aceitará a posição de
intermediário nos interesses dos Estados Unidos na região?
A democracia exige compromisso com o
resultado, transparência nos contatos externos, proteção a jornalistas,
rastreabilidade da publicidade digital, controle civil das forças armadas e
devido processo legal. Exige também soberania democrática e digital, o direito
da sociedade de decidir sem coerção e regulando as formas de comunicação
pública independentemente dos interesses das grandes plataformas defendidas
pelo governo Trump. Protegê-la demanda multilateralismo, diversificação
comercial e redução das desigualdades que expõem as pessoas ao medo e à
desinformação. Esta é a principal questão em jogo hoje. Os Estados Unidos,
em sua crise de hegemonia, mudaram a forma como eles se relacionam com seus
aliados. A democracia brasileira resistirá se nenhuma potência puder
transformar o voto brasileiro em instrumento de barganha ou de dominação.
*Leonardo Avritzer é professor titular
aposentado da UFMG. Carmem Leitão é professora da Universidade Federal do
Ceará e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

Nenhum comentário:
Postar um comentário