Correio Braziliense
Treze ex-ministros do STF classificam o episódio
como a 'mais aguda crise' do tribunal; defendem apuração rigorosa dos fatos e
respeito ao devido processo legal
Antares, a estrela mais brilhante da
constelação de Escorpião, é uma supergigante vermelha situada a cerca de 550
anos-luz da Terra. Seu nome vem do grego e significa “rival de Ares”, devido à
semelhança de sua coloração com a de Marte, o planeta associado ao deus da
guerra. Tem massa estimada entre 11 e 16 vezes a do Sol, raio centenas de vezes
maior e luminosidade próxima de 100 mil sóis.
Entretanto, Antares está consumindo rapidamente o combustível que ainda sustenta seu equilíbrio. Quando esse processo terminar, seu núcleo entrará em colapso e a estrela explodirá como uma supernova, provavelmente dentro de alguns milhões de anos. Na literatura brasileira, é o nome da cidade fictícia criada por Erico Verissimo em seu último romance, “Incidente em Antares”, publicado em 1971. O autor recorre ao realismo fantástico, ao humor macabro e à sátira política para fazer a autópsia de uma sociedade dominada pela hipocrisia e pelos acordos entre seus poderosos.
Na fronteira com a Argentina, desde o século 19, a cidade gaúcha é controlada
por duas oligarquias, os Vacariano e os Campolargo, adversárias durante
gerações, mas capazes de se unir quando seus privilégios são ameaçados. O
verdadeiro incidente ocorre em 13 de dezembro de 1963, quando uma greve geral
paralisa a cidade, com adesão dos coveiros.
A matriarca Quitéria Campolargo, o advogado Cícero Branco, o sapateiro
anarquista Barcelona, o pianista Menandro Olinda, o operário João Paz, o bêbado
Pudim de Cachaça e a prostituta Erotildes ficam sem sepultura. Diante disso,
levantam-se dos caixões, marcham até a praça e ocupam o coreto. Como já
morreram, não temem processos, ameaças, perda de emprego nem retaliações
sociais. Do alto do coreto, revelam adultérios, negociatas, corrupção,
exploração, covardia e violência.
A elite antarense desacredita os denunciantes, tenta interditar a praça,
mobiliza a polícia e procura apagar o acontecimento. Depois que os mortos
finalmente são enterrados, começa a “Operação Borracha”, destinada a eliminar
documentos, fotografias e testemunhos do episódio. A ordem é converter um fato
presenciado por toda a cidade numa alucinação coletiva. A podridão revelada
pelos defuntos precisa ser apagada para que tudo volte à normalidade.
O Brasil vive um espécie de “Incidente em Antares”. Às vésperas das eleições
gerais, o Supremo Tribunal Federal (STF), instituição fiadora da Constituição,
que deveria ser o ponto de equilíbrio entre os Poderes, enfrenta uma crise
intestina sem precedentes. O caso Banco Master deixou de ser apenas uma
investigação sobre fraudes financeiras bilionárias. Transformou-se numa disputa
aberta entre ministros, Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República.
Togas em transe
O relatório encaminhado por André Mendonça ao presidente do STF, Edson Fachin,
aponta indícios de proximidade entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro,
antigo controlador do Banco Master. Moraes reagiu pedindo que Mendonça fosse
investigado por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de
responsabilidade. Para fundamentar a acusação, apresentou um relatório de
inteligência da Polícia Federal que atribuía ao colega possíveis
direcionamentos na condução do inquérito.
O documento, porém, não tinha assinatura e trazia a ressalva de conter
conjecturas “sem valor probatório”. Diante disso, Mendonça trucou: nesta
terça-feira, determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal,
Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. A Segunda Turma
formou maioria para referendar a decisão e só não concluiu o julgamento porque
o ministro Gilmar Mendes, aliado de Moraes, pediu vista do processo. A crise,
antes restrita aos gabinetes, alcançou o comando da PF e provocou uma reação em
cadeia dentro da instituição.
Como no romance de Veríssimo, já não se discute somente o conteúdo das
denúncias, mas quem pode investigá-las, quem controla os documentos e quem tem
competência para tornar públicos os fatos. A PGR pediu a anulação do relatório
liberado por Mendonça, sob o argumento de que apenas o plenário poderia
autorizar uma investigação contra integrante da Corte. O problema é que o
próprio procurador-geral Paulo Gonet aparece citado no material, o que amplia a
percepção de conflito de interesses.
Fachin concentrou em procedimento próprio os documentos e as manifestações dos
envolvidos. Pode levar o conflito ao plenário, convocar uma reunião reservada
ou decidir sobre a abertura das investigações. O risco é que uma solução
interna concebida apenas para pacificar os gabinetes seja interpretada pela
sociedade como uma Operação Borracha, como em Antares. Ou seja, uma marmelada.
Treze ex-ministros e ex-presidentes do STF já classificaram o episódio como a “mais aguda crise” da história do tribunal, defenderam apuração rigorosa dos fatos e respeito ao devido processo legal. As acusações precisam ser provadas. A presunção de inocência vale para todos, porém, o devido processo legal não é pretexto para o silêncio corporativo do Supremo. A autoridade da Corte depende da confiança pública, da sua coerência e do respeito às regras que aplicam aos demais

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