segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Dois litros por dia, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Nenhum jovem sai mais à rua sem uma garrafa d'água; seria como andar nu por aí

A pergunta é: onde ele despeja toda essa água que manda para dentro o dia todo?

O espetáculo salta aos olhos: o batalhão de jovens (jovens hoje são todos entre 10 e 40 anos) nas ruas com uma garrafa d’água. Ela pode estar num bolso da mochila, presa à alça da própria, levada na cintura ou mesmo nas mãos. O importante é ter o produto ao alcance de um gole. É como se sair de casa sem água fosse sair sem calças. Nenhum millennial será apanhado nessa condição.

Imaginei que essa nova devoção à água tivesse um fundo religioso, algo a ver com crenças alternativas, e, nesse caso, eu não estaria aqui palpitando. Ou com uma simples prevenção individual no caso de sede súbita e incontornável —mas como pode ser individual se toda uma geração parece de repente atracada a um bico de mamadeira? Fui pesquisar e vi que não é nada disso. Para as novas gerações, beber água o dia inteiro tem implicações éticas, morais, estéticas, políticas e de saúde física e mental.

O principal é o bem-estar —"wellness", em português. Os jovens se convenceram de que beber pelo menos dois litros de água por dia produz energia, pele bonita, organismo nos trinques, cabeça fresca e barriga de tanquinho. É também um símbolo de consciência social —a garrafa reutilizável prova que você não veio ao mundo para poluí-lo com porcarias de plástico.

A garrafa pode ser ainda um acessório de moda. Dependendo da marca, das cores ou do design, o status de seu portador subirá aos cumes da cotação social. Sem falar na garrafinha como um objeto de apelo emocional —agarrar-se a ela como se fosse um ursinho de pelúcia ajuda na sensação de controle e conforto.

Diante disso, penso em mim e na minha turma nos últimos 200 anos. Somos uma geração de desidratados, desenergizados, ecoinsensíveis, com pele de pergaminho e emoções em pandarecos. Afinal, sempre nos limitamos a um ou dois copos de Caxambu ou São Lourenço, que nos bastavam pelo resto do dia como se fôssemos camelos, no balcão de sórdidos e queridos botequins. O que me faz perguntar: onde na rua os garotos despejam toda essa água que bebem às catadupas?

 

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