segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Eleição vai para a prorrogação, por Preto Zezé

O Globo

Quem decide é quem ainda não vestiu a camisa de nenhum time: o eleitor cansado, desconfiado e ainda disponível

Rato de estádio como eu sabe que em jogo apertado ninguém comemora antes do apito final. Muita torcida já soltou foguete aos 44 do segundo tempo e voltou para casa calada. Pesquisa é placar de intervalo, não é taça. Na Quaest, Lula lidera o primeiro turno por 36% a 29% e empata o segundo em 41% a 41%. Os dois carregam uma rejeição enorme: 53% não votariam em Lula, 55% não votariam em Flávio. Flávio pode vencer, e Lula pode perder, mas nenhuma das duas frases é resultado consumado.

Eleitores de ambos fazem críticas parecidas sobre segurança, saúde, economia e corrupção, pagam pela mesma comida, enfrentam a mesma fila e conhecem alguém endividado. Sobre esses mesmos problemas, os dois lados oferecem instrumentos diferentes: proteção social, presença do Estado e salário, de um lado; autoridade, controle de gastos e liberdade econômica, do outro. Quando o diagnóstico é comum, a eleição muda de natureza. Deixa de ser sobre o que fazer e vira uma disputa sobre em quem confiar para fazer.

Lula sofre o desgaste de quem governa, mas não só. A crise do STF ajuda a direita a construir uma narrativa, porque credibilidade se perde por associação. Só que o buraco principal está mais perto da mesa que dos tribunais. Metade da população desaprova o trabalho do presidente, 49% dizem que a economia piorou, e 28% afirmam estar muito endividados. O indicador pode melhorar, mas a urna não pergunta pelo PIB. Pergunta, em silêncio, se o dinheiro chegou ao fim do mês.

Flávio precisa convencer quem rejeita Lula sem assustar quem também rejeita o bolsonarismo e mostrar que representa mudança sem significar uma nova temporada de conflito permanente. Sua candidatura cresce quando transforma indignação em alternativa e encontra teto quando parece continuação da guerra do pai. Lula precisa fazer o caminho contrário: mostrar que ainda pode ser mudança estando no governo, falar de segurança sem mudar de assunto, reconhecer a frustração econômica sem apresentar planilha e defender as instituições sem parecer defensor dos privilégios de quem as ocupa.

Nas favelas, o recado chega sem filtro e já tem trilha sonora há 30 anos. Em 1994, Cidinho e Doca lançaram o “Rap da Felicidade” e resumiram tudo numa linha que o país inteiro sabe cantar: Eu só quero é ser feliz. O que vinha em seguida era o pedido de andar em paz no lugar onde se nasceu. O refrão saiu do baile, entrou no estádio, virou jingle de campanha e continua sem resposta. O desejo mais citado hoje é o mesmo da música: poder ir e vir com tranquilidade, antes de moradia, saúde, saneamento, educação e renda. A esquerda traduz isso como política pública; a direita como punição. Nenhuma das duas traduz como o que é: um direito básico que o Estado nunca garantiu naqueles territórios, sob nenhum governo.

A eleição vai para a prorrogação porque os dois lados têm torcida, camisa, hino e adversário marcado. Só que prorrogação não se ganha na arquibancada, se ganha com perna cansada e cabeça fria, e quem decide é quem ainda não vestiu camisa nenhuma: o eleitor cansado, desconfiado e ainda disponível, que não procura um salvador, procura algum controle sobre a própria vida. Comida que caiba no orçamento, segurança sem espetáculo, serviço público que funcione e um governo que não transforme todo dia numa nova guerra. A torcida organizada faz mais barulho, mas gol se faz dentro de campo. Ganha quem conseguir diminuir o medo antes de tentar aumentar a esperança.

 

Um comentário:

  1. Saúde é o que interessa,mas aí depende do carma nosso de cada dia.

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