Assim, este trabalho inclui desde as ações
daqueles que recolhem metais utilizados na fabricação de nióbio até as de
operários que fabricam computadores, atuando no interior das fábricas. Isso,
sem esquecer o trabalhador que produz fibras óticas, cabos, torres de
comunicação. No setor mais afeito aos serviços, temos uma ocupação como o uber.
E esse setor de serviços, por sinal, se faz cada vez mais presente nas
plataformas, marcando a rotina das pessoas. Ou seja, o algoritmo interliga o
mundo do trabalho, em todas as suas facetas.
O capital que se apresenta sob a forma de
algoritmo tem, portanto, uma base material bem determinada. E isso não tem sido
observado. Tomemos um exemplo. Na cidade de Shenzhen, na China, hoje com 17
milhões de habitantes, há complexos de produção de aparelhos eletrônicos
empregando mais de 430 mil pessoas, formando uma cidade dentro da cidade, com
recurso a jornadas de até 72 horas semanais de trabalho. De sentir saudade dos
primeiros tempos da Revolução Industrial na Inglaterra. A burocracia chinesa
não está para brincadeiras. Mais: na visão de alguns estudiosos do
capitalismo contemporâneo, como os canadenses Jonathan Martineau e Jonathan
Durand Folco, “o trabalho algorítmico compreende múltiplas formas de trabalho
material: forçado, assalariado, precário, por tarefa, infantil etc.” Essa é a
infraestrutura dessas relações de produção. Há uma massa considerável de
trabalho que lhe dá sustentação, e os fatores material e imaterial
caminham juntos. É verdade que as máquinas têm todo um trabalho embutido nelas,
mas isso não implica que andem sozinhas.
A proletarização é sempre uma
perda. Desde o início da Revolução Industrial o trabalhador foi sendo
despossuído do seu saber, em detrimento das máquinas. Hoje, com a
inteligência artificial, não é muito diferente. Tal como as primeiras
máquinas adotadas na Inglaterra no último quartel do século XVIII, ela também
toma partido do trabalho humano acumulado - esta é a sua base.
Estamos entrando na era do fim do emprego, pelo menos daquele emprego verificado no interior das sociedades capitalistas clássicas. Mas, paralelamente, estamos adentrando também uma era onde desponta um novo tipo de trabalho, ligado cada vez mais ao conhecimento, à criatividade e ao prazer, recolocando o homem no centro de sua própria vida. Ou seja, possibilitando o desenvolvimento daquilo que o pensador indiano Amartya Sen denominou " abordagem das (nossas) capacidades".
A desorientação diante do novo é real, e até certo ponto normal. Mas o fato é que isto se reflete na ausência de uma política para os novos tempos. Como avançar sem buscar compreender esses quatro grandes pilares da vida atual, que concerne, de forma conectada, a prática e o alargamento da Democracia, o entendimento das mudanças na esfera produtiva, o estabelecimento de propostas para a questão ambiental e as demandas relativas ao desenvolvimento da identidade cultural da população. É fato que as classes sociais estão em plena mutação – mas ao lado disso se produz um verdadeiro abandono do discurso de classe, como se não existisse mais exploração do trabalho. O problema também está aí, nessa falta de rumo e de diálogo com a realidade objetiva.
*Ivan Alves Filho, historiador

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