Correio Braziliense
O crime organizado virou uma patologia no
Brasil. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) já não
são somente quadrilhas dedicadas ao tráfico
O beabá da sociologia moderna começa com uma grande provocação de seu criador,
Émile Durkheim, sociólogo, antropólogo e filósofo francês, que forma a
santíssima trindade dos pensadores clássicos das ciências sociais com Karl Marx
e Max Weber. O seu principal mérito foi emancipar a sociologia como disciplina
autônoma, elaborando um método científico próprio e diferenciando-a da
psicologia e da filosofia. A provocação foi afirmar que o crime é um fato
social normal, em As Regras do Método Sociológico (Martins Fontes).
Durkheim não pretendia justificá-lo. Ao contrário, assinalava que nenhuma
sociedade conhecida havia eliminado as transgressões e que a reação a elas
reafirmava as regras coletivas. Para o sociólogo, o “normal” é todo fenômeno
recorrente em sociedades de um mesmo tipo e estágio de desenvolvimento. O
“patológico” aparece quando esse fenômeno ultrapassa certos limites e
compromete a vida coletiva. A fronteira, portanto, não separa sociedades com
crime daquelas sem crime, mas sociedades capazes de fazer valer suas regras
diante do crime daquelas em que o poder criminoso passa a disputá-las.
Onde uma facção decide quem pode circular, trabalhar ou abrir um comércio, o
problema deixa de ser somente policial. A autoridade do Estado foi substituída,
ainda que parcialmente. A dimensão da violência é o indicador que a coisa está
fora da ordem. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país
registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, mesmo considerando que
houve uma queda de 8,2% em relação ao ano anterior.
É uma redução relevante, mas significa mais de 110 mortos por dia, mais do que
as guerras da Ucrania, de Gaza e do Irã. O indicador também reúne crimes e
mortes decorrentes de intervenções policiais. Entretanto, mostra o custo humano
de uma ordem pública que continua frágil em vastas áreas do país.
Mas não é verdade que o governo federal esteja parado. Segundo o Ministério da
Justiça, ações integradas com as forças estaduais apreenderam 336,4 toneladas
de drogas e o prejuízo imposto às organizações criminosas é estimado em R$ 7,6
bilhões. O governo lançou o programa Brasil Contra o Crime Organizado e ampliou
a cooperação entre órgãos de segurança.
A ofensiva contra as finanças das facções inclui investigações sobre sua
presença na economia formal. Apreensões e operações demonstram capacidade de
reação, mas, isoladamente, não medem quanto poder territorial ou econômico o
crime perdeu. A criação do Sistema Único de Segurança Pública, e de um
ministério para operá-lo, enfrentou resistência dos governadores de oposição e
até hoje não foi aprovada pelo Congresso.
Divisor de águas
O fato é que a segurança pública tornou-se a maior vulnerabilidade da relação
entre Brasília e a Casa Branca. A disputa tarifária admite barganhas, exceções
e prazos. Entretanto, Donald Trump transformou o combate às organizações
criminosas em critério de alinhamento político na América Latina.
Em maio, seu governo classificou PCC e CV como organizações terroristas. Agora,
o Escudo das Américas, segundo o texto apresentado, propõe sanções a facções da
região e reúne 14 países, sem a participação brasileira, entre os quais
Argentina, Bolívia, Colômbia, Guiana, Paraguai e Peru, além do Chile.
Em alguns desses países, a vitória eleitoral de governantes alinhados aos
Estados Unidos teve como divisor de águas o endurecimento do combate às
organizações criminosas. A criação do Escudo das Américas, por si, não é uma
intervenção no Brasil. Ainda assim, oferece a Trump um instrumento de pressão
diplomática e um argumento eleitoral de forte apelo, que beneficia todos os
candidatos de oposição, em especial Flávio Bolsonaro (PL), aliado da Casa
Branca.
Lula tem razão ao afirmar que “o Brasil não
cabe no quintal de ninguém”. Ao defender a soberania do Brasil, porém, seria
mais convincente se apresentasse resultados verificáveis contra as facções e de
cooperação internacional sob regras aceitas pelo país. Washington pode explorar
a distância entre as estatísticas de apreensão e a experiência cotidiana de
brasileiros submetidos ao domínio criminoso. Essa distância pesa mais
eleitoralmente do que as tarifas impostas às exportações brasileiras.
Para complicar a situação, emergiu outra patologia, de natureza institucional.
As revelações sobre relações de integrantes do Supremo Tribunal Federal com o
banqueiro Daniel Vorcaro e a condução do caso Master atingem a confiança na
Corte. Contatos ou vínculos divulgados não equivalem, por si, à prova de crime.
Porém, exigem esclarecimento, exame de eventuais conflitos de interesse e
respeito ao devido processo.
Não são coisas normais, ainda que se tente escamoteá-las. Para Durkheim, a
patologia mais grave não é a existência do delito. É a perda da capacidade de
contê-lo e de cobrar responsabilidade de quem exerce o poder.

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