domingo, 27 de setembro de 2026

Falta uma carta nesta campanha, por Míriam Leitão

O Globo

Não é exigido de Flávio Bolsonaro o compromisso com a democracia, como em 2002 se exigiu de Lula uma carta garantindo a estabilização econômica

O senador Flávio Bolsonaro nunca assinou uma carta compromisso com a democracia, nem dele foi exigido. Devia ter sido. Estamos a uma semana do primeiro turno. Ele tem chances reais de ser eleito e carrega um enorme passivo autoritário, decorrente dos atos e palavras dele e da família toda. Em 2002, o país exigiu do então candidato Lula da Silva que se comprometesse com as bases econômicas do Plano Real. Havia dúvidas razoáveis sobre o programa econômico do PT. Lula escreveu a “Carta aos Brasileiros” e a cumpriu.

Há dúvidas razoáveis sobre o candidato do PL. O senador teve relações com integrantes da facção criminosa conhecida como milícia, está sendo investigado pelo dinheiro recebido do ex-banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, teve uma loja de chocolate com faturamento atípico, nunca ficou claro como conseguiu comprar uma mansão em Brasília. Sua amizade estreita com o advogado Willer Tomaz é outro foco de incerteza. Willer é reincidente em casos de corrupção. Chegou a ser preso por envolvimento na Operação Greenfield, em 2017, que apurou fraudes com fundos de pensão, e agora é investigado no caso do INSS.

Esse currículo de dúvidas sobre o senador já seria suficiente para ele ser escrutinado com mais objetividade. No entanto, Flávio Bolsonaro foge das explicações necessárias, com a velha artimanha de atacar como se não tivesse enorme telhado de vidro.

De todas as questões que pesam sobre o senador Flávio Bolsonaro, a maior é o seu déficit democrático. Ele professa o mesmo ideário autoritário do pai e dos irmãos. Nisso, a família é bem unida. O Brasil não pode alegar desconhecimento desse risco, porque viu o projeto em ação. Foram anos de ataques sistemáticos às instituições, de defesa da ditadura militar, de demanda pela volta do AI-5, de tentativa de sedução das lideranças militares, de mobilização dos seus seguidores para não respeitar o resultado das urnas de 2022. A investigação da tentativa de golpe de 8 de janeiro revelou que a conspiração havia ido mais longe do que se pensara. Não cabe o benefício da dúvida quando os fatos são tão sólidos.

A pátria caminha para as urnas distraída. A extrema direita sempre foi muito competente em usar as ferramentas digitais para criar realidades paralelas. Em 2018, houve a onda das fake news. A partir de 2019, o chamado “gabinete do ódio” instalou-se no Palácio do Planalto e disparou contra todos os que via como adversários. Os jornalistas, principalmente as mulheres, foram alvo preferencial. Na pandemia, as mentiras contra a ciência elevaram o número de mortes e reduziram a cobertura vacinal de várias doenças. Até hoje o país luta contra as sequelas do atentado à confiança no programa de imunização. A urna eletrônica sobreviveu a um bombardeio, cujo objetivo era minar o processo eleitoral. Sabedor de tudo isso, o Brasil não pode subestimar o risco.

Em 2002, o medo principal era o retrocesso na economia. O país havia vencido a hiperinflação depois de uma luta muito árdua, de anos. O programa econômico do PT tinha propostas que poderiam abalar as bases da política econômica que mantinha a inflação sob controle. Era chamado de risco Lula. O mercado financeiro, então, exigiu um compromisso com a estabilização da moeda e Lula fez algo mais amplo. Falou para o país como um todo, na “Carta aos Brasileiros”. Acertou. O medo de perder o Real era da população em geral e não apenas dos gestores de investimento.

O risco democrático nunca preocupou o mercado financeiro. Deveria. Não há liberdade econômica, sem liberdade política. O poder sem limites, sem o sistema de freios e contrapesos, é um risco econômico também.

O senador Flávio Bolsonaro disse em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, que o eleito em 2026 tinha que se comprometer com o “uso da força” contra o Supremo, caso o STF considerasse inconstitucional o indulto aos condenados pelo 8 de janeiro. Ele não falava de impeachment de ministros dentro de um processo constitucional. Queria algo mais forte. “A gente está falando do uso da força. A gente está falando de interferência direta entre os poderes”. O senador Bolsonaro sempre negou ter havido tentativa de golpe, trata de forma anedótica o ataque físico e institucional aos poderes, promete subir a rampa com o pai. Nunca fez qualquer esforço para aplacar essas dúvidas. Esse é o risco Flávio Bolsonaro.

 

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