Correio Braziliense
O presidente da CNBB, cardeal Jaime Spengler,
também defendeu a formação da consciência dos eleitores. O alto clero católico
pretende protagonizar o julgamento moral da eleição
Ao pedir que os fiéis votem pela democracia,
o alto clero católico entrou na campanha eleitoral. Não declarou apoio à
reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva nem pediu votos contra Flávio Bolsonaro. Mas a orientação é um divisor de águas
num país em que o candidato do PL herda a aliança do bolsonarismo com
lideranças evangélicas. A opção dos bispos é disputar os critérios do voto: a
defesa das instituições, dos pobres e da liberdade de consciência diante da
tentativa de transformar a autoridade religiosa em cabo eleitoral.
O recado mais recente veio da Amazônia: "Nós não temos partido. Mas temos uma causa: o Evangelho e os pobres. Vote pela democracia", disse o cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, em vídeo divulgado nesta semana. Dom Guilherme Werlang, bispo de Lages (SC), advertiu contra a manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus: "As igrejas não são currais eleitorais". Ao lado de outros bispos, eles também trouxeram para a escolha eleitoral duas bandeiras de Lula: a soberania nacional e a proteção da Amazônia. Entretanto, nenhum candidato foi citado, apesar de as declarações confrontarem práticas e discursos associados à campanha bolsonarista.
A manifestação regional é o desdobramento
prático de prolonga uma posição nacional. Em junho, a Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil reafirmou que não indica candidatos ou partidos, mas pediu
respeito à Constituição, às instituições, ao resultado das urnas e à verdade no
debate público. O presidente da CNBB, cardeal Jaime Spengler, também defendeu a
formação da consciência dos eleitores. O alto clero católico pretende
protagonizar discussão moral da eleição sem converter a Igreja em legenda
partidária.
Essa posição responde a uma mudança profunda
na sociedade brasileira. Segundo o Censo de 2022, os católicos passaram de 65%
da população com 10 anos ou mais, em 2010, para 56,7%; os evangélicos
cresceram de 21,7% para 26,9%. O catolicismo continua majoritário, mas perdeu
presença relativa, sobretudo diante de igrejas que multiplicaram templos, redes
de assistência e vínculos cotidianos nas periferias.
Levantamento do Ipea sobre estabelecimentos
religiosos registrados em 2021 apontou 52% ligados a denominações pentecostais
ou neopentecostais, 19% a evangélicas tradicionais e 11% a católicas. Templos cadastrados
não equivalem ao número de fiéis, mas ajudam a medir a capilaridade dessa
presença. O contraste aparece nas urnas. Na pesquisa nacional Quaest de abril,
Lula tinha 43% das intenções de voto entre católicos, ante 28% de Flávio; entre
evangélicos, a relação se invertia: 43% para Flávio e 23% para Lula.
É preciso levar em conta que são preferências
medidas em um momento da campanha, não votos determinados pela religião. Ainda
assim, mostram porque uma orientação episcopal sobre democracia e justiça
social repercute na disputa presidencial, mesmo sem mencionar o nome dos
candidatos. Há uma história por trás dessa diferença.
Diálogo e valores
Durante a ditadura militar, a Igreja Católica
não falava com uma só voz. Parte de sua hierarquia acolheu o golpe de 1964.
Porém, a repressão a religiosos e leigos ampliou a resistência católica. Bispos
como dom Paulo Evaristo Arns e dom Hélder Câmara tornaram-se referências na
defesa dos direitos humanos. Ao mesmo tempo, representantes oficiais da Igreja
e das Forças Armadas mantiveram a chamada Comissão Bipartite, canal reservado
para discutir prisões, tortura e conflitos institucionais.
Dom Eugênio Sales, arcebispo do Rio de
Janeiro, e o general Antônio Carlos da Silva Muricy, quando chefe do
estado-maior do Exército, foram os dois principais protagonistas e
articuladores das negociações secretas descritas pelo brasilianista Kenneth
Serbin em Diálogos na Sombra (Arte e Ciência). Eles foram a base da Comissão
Bipartite, ponte institucional entre a Igreja Católica e o regime militar no
período mais violento da repressão (1970-1974). Diálogos secretos, denúncia
pública e negociação coexistiram. A Igreja procurava proteger pessoas e seu
espaço de atuação; os militares buscavam evitar a ruptura com uma instituição
influente.
Foi também nas comunidades eclesiais de base
que a presença católica ganhou força popular, articulando fé, vida comunitária
e reivindicações sociais. Seu enfraquecimento, favorecido pela contenção
vaticana das correntes ligadas à Teologia da Libertação e por mudanças mais
amplas na Igreja e na sociedade, deixou os espaços que muitas congregações
evangélicas ocuparam.
O fato político é que a Igreja Católica
perdeu o protagonismo que havia alcançado nas periferias, onde muitas igrejas
pentecostais oferecem pertencimento, ajuda imediata e uma voz pública a quem
raramente é ouvido pelo Estado. Pastores passaram, também, a disputar mandatos
e a apoiar candidatos diretamente.
Essa atuação não define todos os evangélicos,
assim como a posição da CNBB não transforma todos os católicos em eleitores de
Lula. A própria Igreja Católica abriga correntes conservadoras e progressistas.
A novidade agora está na reação explícita de bispos influentes ao uso eleitoral
da fé.
Ao dizer que as igrejas não são currais, os
bispos defendem a autonomia do fiel e tentam recuperar uma presença pública que
o catolicismo viu diminuir. O efeito pode favorecer Lula onde Flávio Bolsonaro
depende da mobilização religiosa. Entretanto, é algo maior que a preferência
por um presidente: a Igreja Católica busca manter sua capacidade de influenciar
os valores que servirão de paradigma para a escolha dos candidatos.

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