O Globo
Com terras-raras e soberania, Lula arrisca
perder a eleição
A pesquisa Quaest de
segunda-feira caiu como uma bomba na campanha de Lula.
Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassou-o na simulação de um segundo
turno (42% x 40%). A seco, esse número quer dizer pouca coisa. Está dentro da
margem de erro, e eleição se ganha na urna. Flávio cresceu absorvendo o apoio
de eleitores que, havia tempo, avaliavam negativamente Lula 3.0.
Era inevitável que a avaliação negativa migrasse para um adversário. Lula faz uma campanha chique, fala em terras-raras, soberania e escala 5x2. Ulysses Guimarães dizia que política externa só dá votos no Burundi. Quanto à escala, é uma promessa de uma vida melhor, mas é promessa.
A mesma pesquisa Quaest tentou saber para
onde iriam os votos de quem preferia Ronaldo
Caiado, Renan Santos, Augusto Cury ou Romeu Zema.
Juntos, eles somam 16% dos entrevistados. Num segundo turno, a maior fatia iria
para Flávio.
Como era de esperar, na busca de responsáveis
apontou-se para o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio
Palmeira. Contem outra, companheiros. Desde a fundação do PT, em 1980, o
maestro dessa orquestra chama-se Lula.
Com o Supremo Tribunal Federal em chamas,
Lula decidiu ficar fora das brigas e limitou-se a falar da necessidade de
reformas na política e no Judiciário, o que não quer dizer coisa nenhuma.
Não se diga que Flávio eleva o nível do
debate. Seu único capital é o sobrenome, encrencado por um filme milionário
bafejado pelo dinheiro de Daniel
Vorcaro. A abulia de Lula alimenta o antipetismo.
O historiador francês Claude Manceron (1923-1999)
escreveu cinco magníficos volumes sobre a Revolução Francesa. No primeiro,
tratou do ocaso do reino de Luís XV. Tendo reinado de 1715 a 1774, ele morreu
de varíola, quando, segundo Manceron, havia saído de moda. Aquele Lula que
passeia pelos palanques dominando plateias saiu de moda.
Lula 1.0 ou 2.0 poderia ter aberto as portas
do Brasil para a jogatina (para arrecadar), mas, colocado diante das
consequências, enfrentaria os problemas. No seu desenho original, o Bolsa
Família era um monstrengo burocrático. Em poucas semanas Lula 1.0 deu-lhe uma
nova cara, que está aí até hoje. Lula 3.0 limita-se a condenar a facilidade
para quem aposta, e mais nada.
Isso não quer dizer que colocarão coisa
melhor no lugar dele.
A melhor previsão do resultado da próxima eleição
presidencial veio do banqueiro André (BTG Pactual) Esteves:
— A eleição será 51% a 49%, só não sabemos
para quem.
A ideia de que Lula passaria um trator em
Flávio virou fumaça, e ele está diante de um adversário favorecido pela
indefinição.
A volta de Lula ao Planalto foi uma coisa tão
espetacular que a aritmética ficou esquecida. Ele ganhou a eleição por uma
margem de 0,9% (pouco mais de 2 milhões de votos de diferença). Dois anos
depois, o candidato de Lula à Prefeitura de São Paulo foi batido por uma margem
de mais de 1 milhão de votos. O eleitor mandava sinais, mas os poderosos de
Brasília não ouviam.

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