Folha de S. Paulo
Bocas-livres, putas, surubas, charutos,
uísques, jatinhos, comissões e contratos
Só provincianos, cafonas e deslumbrados se
deixam vender por tão pouco
Ninguém precisa acreditar, mas, há pouco mais de cem anos, ministros de Estado, parlamentares da pesada e juízes superiores iam de bonde para o trabalho. Aguardavam na fila, subiam pelo estribo e sentavam-se ao lado de pessoas como você e eu. Todos moravam no Rio, em casa comprada com seus recursos ou alugada de particulares. Suas mulheres organizavam chás de caridade, lanchavam na Colombo e participavam de saraus literários. Seus filhos estudavam em escolas públicas, remavam no Flamengo e trabalhavam no comércio. O Rio era a capital federal e, em torno do poder, situado no centro da cidade, havia uma coisa chamada povo.
A mudança da
capital para Brasília, promovida por JK em 1960, criou um problema:
ninguém queria ir para lá. O Executivo, o Legislativo e o Judiciário eram
obrigados, mas seus membros, individualmente, precisaram ser subornados para
aceitar a transferência. E dá-lhe de salários duplicados, bônus por
comparecimento, casas à beira do lago construídas para eles, carro com
motorista e, mais importante, passagens aéreas para o Rio ou para seus estados.
O mesmo, em escala menor, se fez com os funcionários públicos. O que era
descarado suborno cristalizou-se no que hoje se chama mordomia. E a cornucópia
nunca estancou.
Até por isso, o material humano de que se
compõe o poder piorou muito nesses 66 anos. Provincianizou-se, acafonou-se.
Nossos maiores são uns deslumbrados que dão expediente em palácios na praça dos
Três Poderes, a 300 metros um do outro e a um infinito de distância de um
brasileiro normal. Como não têm de ir à esquina nem para comprar um retrós (não
há mais retroses e, esquinas, nunca houve), não sentem o bafo do povo e acham
natural ser movidos a agrados.
Daí, tome-lhe também de bocas-livres, putas,
surubas, charutos, uísques, jatinhos, desconto em hotéis de luxo, temporadas de
esqui, ingressos para a Fórmula 1, camarote na Sapucaí, contratos em nome de
terceiros, comissões.
Só provincianos, cafonas e deslumbrados se
deixam vender por tão pouco.

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