Valor Econômico
A motivação eleitoral da proibição das bets
no Brasil, decidida na sexta-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é
óbvia.
Pelo menos duas pesquisas mediram nos últimos
meses a adesão a uma proibição total das apostas online e a maioria absoluta se
mostrou favorável à interdição. Na mais detalhada delas, da Ideia, de julho,
56% dos entrevistados concordaram com a proibição.
Um sinal do apelo da medida é o fato de que o
principal rival do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL), tachou a medida
de “eleitoreira, hipócrita, populista”, mas ao mesmo tempo ponderou: “sempre
fui contra os jogos”.
Renan Santos (Missão), em vídeo, procurou desqualificar a iniciativa como pouco efetiva. “Vou dizer exatamente o que vai acontecer: a Medida Provisória vai caducar. É só uma medida eleitoreira.” Frisou ser contra jogos.
Ronaldo Caiado (PSD), em Goiás, lembrou que
votou contra o tema quando era senador e não permitiu loterias no estado,
quando governador. Romeu Zema (Novo) ainda não havia se pronunciado até o
começo da tarde de sábado, mas passou a campanha inteira criticando as bets.
O alcance da medida, contudo, parece
duvidoso. O governo justifica o fim do mercado de apostas online por um alegado
impacto desta atividade no aumento do endividamento e, em particular, da
inadimplência. A pesquisa de julho indicava que o eleitorado via baixa relação
entre uma coisa e outra. Quando os entrevistados foram perguntados sobre que
gastos mais contribuíam para o endividamento, 29% mencionaram gastos com
supermercado; 28%, contas de consumo; 14%, aluguel; 10%, gasolina; 8%,
educação; 7%, plano de saúde; 6%, transporte público; 5%, condomínio; e somente
2%, apostas online.
Ou seja: o eleitorado provavelmente não verá
o fim das bets como uma medida do governo para reduzir o aperto financeiro da
população.
Entre os entrevistados, 33% consideravam as
apostas um vício e 26%, uma fonte de perda de dinheiro. A reação maior vem das
mulheres, como o próprio Renan Santos indicou em seu vídeo. “O cálculo do Lula
é simples: quem usa mais as bets são homens. Homens não votam tanto nele. Esses
homens estão gerando vícios e gastos em endividamento que estão irritando
mulheres, tanto mães quanto esposas. Estas mulheres votam mais no Lula.”
Afora o fato de que há baixa percepção de
correlação entre aumento de endividamento e apostas, o resto do raciocínio de
Renan encontra lastro nas pesquisas. De acordo com a Ideia, 67% das mulheres e
50% dos homens eram a favor da proibição.
Tentar relacionar o aumento do endividamento
com as apostas online é crucial para a estrutura narrativa da campanha de Lula,
porque há pouco o que o governo possa apresentar como solução para contornar o
que o eleitorado de fato vê como comprometedor para sua renda.
O Desenrola 3, lançado também na sexta-feira,
novamente foca os consumidores que estão com dívidas em atraso, assim como foi
nas versões anteriores. Não contempla aqueles que têm renda cada vez mais
comprometida, mas que permanecem adimplentes. O universo de apostadores é amplo
- já houve registros de apostas feitas por 43,8 milhões de CPFs desde a
regulamentação da atividade, feita pelo próprio governo Lula -, mas estabelecer
uma relação de causalidade entre aumento de inadimplência e jogo é algo
complexo.
Nos próximos dias, a reação negativa à medida
que pode ter mais impacto na opinião pública é a do universo do futebol. As
casas de apostas online patrocinam 17 dos 20 clubes que estão na série A do
Campeonato Brasileiro e pelo menos dois deles - Flamengo e Fluminense -
divulgaram posicionamentos oficiais ainda na sexta-feira reclamando de
insegurança jurídica, uma sinalização de que podem judicializar a questão.
No anúncio da medida, o governo federal não
fez qualquer indicação de que compensará os atingidos de alguma forma.
“Qualquer decisão precisa considerar segurança jurídica e previsibilidade”,
reclamou o Fluminense. “Não se pode criar uma nova regra, levar empresas e
instituições a assumir compromissos com base nelas, e, de um dia para o outro,
mudar todo o marco regulatório”, afirmou o Flamengo.

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