Correio Braziliense
Ministro do STF também aponta indícios de
improbidade administrativa e abuso de autoridade do colega de Corte
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo
Tribunal Federal (STF), usou o inquérito das fake news para acusar o ministro
André Mendonça de crime de responsabilidade. A ofensiva do magistrado leva a
mais alta Corte do país a uma crise sem precedentes. Horas depois, o presidente
do STF, Edson Fachin, deu prazo de cinco dias úteis para que os dois se
manifestem sobre o caso.
A iniciativa de Moraes é uma reação à decisão
de Mendonça de derrubar o sigilo de um relatório da Polícia Federal contendo
diálogos do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em que Moraes é citado.
Na decisão dessa quinta-feira, Moraes aponta "indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade por parte de Mendonça na relatoria dos inquéritos sobre as fraudes do Banco Master e os descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS.
O magistrado citou Relatórios de Inteligência
produzidos pela PF. "Indicam que, na relatoria das PETs 15041 (Operação
Sem Desconto) e 15556 (Operação Compliance Zero), o Ministro André Mendonça
teria, em tese, praticado uma série de condutas tipificadas como improbidade
administrativa, Lei crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com
quebra da imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos
políticos".
Também conforme a decisão, o relatório da PF
apontou como má conduta de Mendonça "usurpação da direção das
investigações das autoridades policiais, inclusive com determinação de medidas
administrativas que afastaram a observância da cadeia de custódia prejudicando
a produção probatória; condução irregular das tratativas de eventual
colaboração premiada; direcionamento de determinados alvos para investigação
(ministro Alexandre de Moraes e senador Davi Alcolumbre), por motivos pessoais
e políticos, inclusive com a indicação prévia de medidas cautelares a serem
apresentadas pela Polícia Federal".
Moraes acrescenta que, conforme o Relatório
de Inteligência, Mendonça "determinou o direcionamento do ato de
investigação única e exclusivamente em relação ao Ministro Alexandre de
Moraes".
"Não bastasse o direcionamento da
investigação para determinado alvo que não estava sob sua competência
jurisdicional (...), o relator, Ministro André Mendonça determinou - DE OFÍCIO-
diligência investigatória policial para a produção ilegal de provas contra o
Ministro Alexandre de Moraes, com a agravante excepcional de ter determinado à
Polícia Federal a realização da diligência sem ter assinado a decisão judicial
e sem ter feito da comunicação pelas vias procedimentais legais, bem como ter
subtraído o conhecimento da mesma da Procuradoria-Geral da República".
Impeachment
Na prática, os crimes apontados por Moraes
contra o colega podem resultar em impeachment, além de abertura de ação penal.
O processo de impedimento é conduzido pelo Senado, com base na lei 1079/50,
citada no despacho. No entanto, para abertura de investigação criminal, é
necessário que ocorra aval do plenário da Suprema Corte, de acordo com previsão
no regimento interno. Por meio de um ofício, Moraes notificou Fachin sobre a
decisão tomada contra o colega de plenário.
Em resposta, o presidente do STF abriu prazo
de cinco dias úteis para que os envolvidos se manifestem. No documento, Fachin
pede explicações de Moraes e de Mendonça. Ele inclui, também, o
procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia
Federal, Andrei Rodrigues. O magistrado quer informações sobre a legalidade de
procedimentos adotados em relação a fatos relacionados aos inquéritos.
Fachin cita o cumprimento pela PF de
procedimentos relacionados a autoridades com foro, fala em "eventuais
indícios de que credenciais de acesso institucional tenham sido utilizadas para
avaliar documento estritamente particular e de que informações sujeitas ao
sigilo judicial foram reveladas a pessoa investigada". E questiona se
foram adotadas "medidas no exercício do controle externo da atividade
policial" para assegurar prerrogativas previstas na Lei da Magistratura.
O presidente do Supremo despachou em um
procedimento aberto para apurar o eventual envolvimento de Moraes no caso do
Master, após pedido de Mendonça. De acordo com fontes na Corte, quando redigiu
o despacho, Fachin ainda não tinha conhecimento da ação de Moraes no inquérito
das fake news.

Nenhum comentário:
Postar um comentário