terça-feira, 29 de setembro de 2026

Nossa Senhora, salve o Brasil! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo.

Só falta ministros irem para o STF de vermelho ou enrolados nas bandeiras de Brasil, EUA e Israel

A contagem regressiva do primeiro turno já começou, num cenário estável e com o presidente Lula cinco pontos à frente do senador Flávio Bolsonaro na Quaest, mas só se fala sobre o STF, onde a polarização eleitoral domina tudo e todos e corrói ainda mais a imagem da Corte. É como se só os seus dez votos fossem eleger o novo presidente.

Nas ruas, não se veem bandeiras, cartazes ou carros paramentados, sejam pró-Lula, sejam a favor de Flávio, numa das eleições mais frias e desanimadas de que se tem notícia. Mas, no Supremo, a equipe da campanha de Lula só falta se vestir de vermelho, com estrela no peito, e a de Flávio, a qualquer hora, aparece enrolada nas bandeiras de Brasil, EUA e Israel.

O ministro André Mendonça, relator do caso Master, mandou retirar das redes sociais tudo a respeito de Nossa Senhora Aparecida, depois de viralizar a fake news de que Flávio tiraria dela o título de padroeira do Brasil. Mendonça acertou em combater fake news, mas exagerou ao proteger seu candidato.

Flávio Dino, que disputa com Gilmar e Moraes quem é mais audacioso, reagiu, dando uma canetada para suspender a decisão de Mendonça e deixar rolar tudo, inclusive a fake news contrária a Flávio. Logo, Dino também exagerou e não teve pruridos ao proteger seu próprio candidato.

Flávio, que se exibiu com uma boneca de crochê simulando a padroeira, botou em campo mais um “dos seus” no STF, Luiz Fux, para neutralizar Dino. Mas fez o que não deveria ter feito: bateu de frente com a CNBB.

Circulam na internet manifestações e cantorias de bispos católicos, sem citar Lula ou Flávio, mas defendendo soberania nacional, democracia, combate à pobreza, preservação da Amazônia... Alguém tem dúvida sobre de quem são essas bandeiras? E de que é uma retaliação à cooptação dos evangélicos pelos bolsonaristas?

Na semana decisiva da eleição, o mais conveniente para Flávio seria se assumir vítima de mensagens veladas e de uma evidente fake news, mas ele quis potencializar a questão e acusou a principal entidade católica do Brasil de conluio com o PT para difundir a versão falsa.

A CNBB reagiu: “Não se combate uma mentira com outra mentira”. Desmentiu tanto as duas acusações, de Flávio e a Flávio, mas a crise já tinha caído em cheio no STF, que, com a imunidade baixa, se contagia facilmente.

Difícil dizer se foram bets e canetas emagrecedoras, ou se a história sobre a padroeira tem a ver, mas a Quaest captou que a diferença de Lula para Flávio entre os católicos subiu de 16 para 19 pontos: 48% a 29%. Numa disputa tão apertada, pode fazer diferença no final.

 

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