sábado, 12 de setembro de 2026

O Auto da Compadecida americano, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Donald Trump sobe ao palco e promete US$ 5 mil a cada americano. A plateia aplaude

Não sei, só sei que são US$ 5.000! Diria Chicó, que estaria feliz com a oferta de Trump. Ariano Suassuna talvez tivesse dificuldade para imaginar uma cena melhor. Donald Trump sobe ao palco e promete US$ 5.000 a cada americano adulto se os republicanos mantiverem o controle do Congresso. A plateia aplaude. Alguém pergunta quanto vai custar. Cerca de US$ 1,2 trilhão.

De onde virá o dinheiro? Das tarifas, dizem seus defensores. Mas elas estão arrecadando algo próximo de um décimo do necessário.

Quem exatamente receberá? Inicialmente, todos os adultos. Depois, talvez apenas trabalhadores e classe média.

Como será aprovado? O Congresso ainda terá de decidir. Uma promessa eleitoral que deixa de ser política econômica e passa a ser apenas a distribuição de uma conta que ainda não existe.

A comparação chega a ser injusta com Ariano Suassuna. João Grilo e Chicó precisavam da esperteza para sobreviver à pobreza do sertão. Os Estados Unidos são a maior economia do mundo e emitem a principal moeda de reserva internacional. Ainda assim, a lógica da promessa é de quiproquó: distribuem-se US$ 5.000 antes de se explicar quem pagará a conta. Chamar de “dividendo” não resolve o problema. Dividendo pressupõe algo para distribuir. Essa história deixa de ser engraçada.

No teatro, a esperteza termina quando cai o pano. Na política fiscal, a conta continua depois da eleição. Essa proposta deixou de ser apenas uma frase espetacular de Trump. A resistência começou a aparecer dentro do próprio Partido Republicano e entre economistas conservadores. Eleitores de Trump começaram a repetir: “Não precisamos de US$ 5.000, precisamos que o custo das coisas caia”.

É um verdadeiro paradoxo: o governo pretende combater a insatisfação com o custo de vida colocando mais de US$ 1 trilhão de demanda numa economia sem grande capacidade ociosa – correndo o risco de pressionar novamente os preços que pretende tornar mais suportáveis. A promessa deu margem a ironia dos adversários que lançaram a ideia de se os democratas ganharem Câmara e Senado, todos receberão US$ 10.000, um pônei e sorvete grátis pelo resto da vida.

É engraçado, mas economicamente contém uma pergunta séria: por que US$ 5.000? A melhor reposta ainda é de Chicó que só sabe que são US$5.000. Keynes talvez ficasse arrepiado. Não por ver o governo gastando – disso dificilmente poderia acusá-lo, mas por gastar trilhão de dólares sem que haja uma depressão para combater.

No Auto da Compadecida, as histórias mais improváveis de Chicó sempre terminavam da mesma maneira: “Não sei, só sei que foi assim”. Talvez nem Ariano Suassuna achasse graça. Uma coisa é fazer do absurdo uma obra-prima. Outra é transformar a realidade em um absurdo.

 

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