O Estado de S. Paulo
Em uma crônica publicada em 13 de maio, eu
assinalei que, por um triz, Daniel Vorcaro não teria comprado o Brasil.
Infelizmente, o meu palpite se tornou uma obscena realidade. O que vemos hoje,
em relação ao Banco Master e ao seu criminoso e malandro presidente, é uma
generosidade intencional para alguns personagens dos Poderes Judiciário e
Legislativo e, de resto, para uma elite cujo projeto de vida é ficar rica com o
uso pervertido de cargos públicos.
O que tachamos de “corrupção” tem como base o abuso da ética que comanda papéis sociais atribuídos, impostos quando nascemos na esfera da casa e do parentesco. Tais papéis contrastam com os papéis adquiridos que fazem parte do espaço público da rua.
Essa esfera social – que escapa da obediência
como dever –, em sociedades com uma frágil compreensão da vida republicana,
mistura-se aos papéis da casa, impedindo a isenção e a imparcialidade – como
estamos testemunhando nesses escândalos cujo foco é uma rede de amizades
instrumentais que rompe com o decoro dos cargos públicos, cuja função é a de conter
a simpatia pessoal e a parcialidade das amizades e dos presentes.
A diferença essencial entre os laços amorosos
do “tamo junto” e da fraternidade da casa está no fato crucial de que os papéis
adquiridos pertencem a uma estrutura administrativa de caráter burocrático,
impessoal e imparcial. O sistema dos papéis atribuídos é hierarquizado, mas o
dos papéis adquiridos é republicano: igualitário e competitivo.
Sem observar essa distinção crítica entre
aquilo que é um direito da pessoa como membro de uma casa e de uma rede de
relações de amizade e aquilo que pertence a uma administração pública, como um
“cargo” ou um papel adquirido, e faz parte do universo da rua – como chamei a
atenção no livro A Casa & a Rua –, comete-se a infâmia de realizar o que tipifica
sistemas autoritários ou, pior do que isso, sujeitar um país como o nosso a uma
disfuncional hipocrisia. Nele, cargos públicos são canibalizados pelo familismo
e pelas simpatias que transcendem partidarismos. Interesses financeiros se
confundem com salvacionismos ideológicos, como revelam os laços entre
políticos, magistrados e banqueiros, em uma costumeira legalização que dispensa
o rigor da ética igualitária e os limites da amizade.
Essa ponte, que tipifica a nossa corrupção,
encontra sua zona de conforto no nosso hiper-realismo legal, no qual o processo
vale tanto ou mais do que o Direito. A confusão entre a ética da casa e a da
rua impede o trânsito do particularismo das relações pessoais para o
universalismo das normas burocráticas.
Relembro o axioma: “Tenho coragem para tudo,
menos a coragem de negar o pedido de um amigo”. Essa ambígua coragem permanece
neste Brasil que se autoderrota, desmoralizando o seu sistema bancário e o seu
Judiciário, ao lado de uma paralisante polarização.

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