quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O Brasil foi comprado? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Em uma crônica publicada em 13 de maio, eu assinalei que, por um triz, Daniel Vorcaro não teria comprado o Brasil. Infelizmente, o meu palpite se tornou uma obscena realidade. O que vemos hoje, em relação ao Banco Master e ao seu criminoso e malandro presidente, é uma generosidade intencional para alguns personagens dos Poderes Judiciário e Legislativo e, de resto, para uma elite cujo projeto de vida é ficar rica com o uso pervertido de cargos públicos.

O que tachamos de “corrupção” tem como base o abuso da ética que comanda papéis sociais atribuídos, impostos quando nascemos na esfera da casa e do parentesco. Tais papéis contrastam com os papéis adquiridos que fazem parte do espaço público da rua.

Essa esfera social – que escapa da obediência como dever –, em sociedades com uma frágil compreensão da vida republicana, mistura-se aos papéis da casa, impedindo a isenção e a imparcialidade – como estamos testemunhando nesses escândalos cujo foco é uma rede de amizades instrumentais que rompe com o decoro dos cargos públicos, cuja função é a de conter a simpatia pessoal e a parcialidade das amizades e dos presentes.

A diferença essencial entre os laços amorosos do “tamo junto” e da fraternidade da casa está no fato crucial de que os papéis adquiridos pertencem a uma estrutura administrativa de caráter burocrático, impessoal e imparcial. O sistema dos papéis atribuídos é hierarquizado, mas o dos papéis adquiridos é republicano: igualitário e competitivo.

Sem observar essa distinção crítica entre aquilo que é um direito da pessoa como membro de uma casa e de uma rede de relações de amizade e aquilo que pertence a uma administração pública, como um “cargo” ou um papel adquirido, e faz parte do universo da rua – como chamei a atenção no livro A Casa & a Rua –, comete-se a infâmia de realizar o que tipifica sistemas autoritários ou, pior do que isso, sujeitar um país como o nosso a uma disfuncional hipocrisia. Nele, cargos públicos são canibalizados pelo familismo e pelas simpatias que transcendem partidarismos. Interesses financeiros se confundem com salvacionismos ideológicos, como revelam os laços entre políticos, magistrados e banqueiros, em uma costumeira legalização que dispensa o rigor da ética igualitária e os limites da amizade.

Essa ponte, que tipifica a nossa corrupção, encontra sua zona de conforto no nosso hiper-realismo legal, no qual o processo vale tanto ou mais do que o Direito. A confusão entre a ética da casa e a da rua impede o trânsito do particularismo das relações pessoais para o universalismo das normas burocráticas.

Relembro o axioma: “Tenho coragem para tudo, menos a coragem de negar o pedido de um amigo”. Essa ambígua coragem permanece neste Brasil que se autoderrota, desmoralizando o seu sistema bancário e o seu Judiciário, ao lado de uma paralisante polarização.

 

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