O Globo
O regime parece ter perdido a capacidade de
se regenerar. De se aperfeiçoar
Entre novembro e dezembro de 2022, o pai do senador Flávio Bolsonaro (PL) dedicou boa parte de seu tempo a convencer os comandantes do Exército e da Aeronáutica a dar um golpe militar em seu nome. Não é uma hipótese. É um fato histórico documentado. Foi o que disseram em depoimento à Polícia Federal e ao Supremo o general Marco Antônio Freire Gomes, que estava no topo da hierarquia do Exército, e o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, seu par na Força Aérea. Baptista Junior é autor do livro “Eu disse não”, que conta justamente os detalhes daqueles dias, publicado neste mês pela Autêntica. E, no entanto, quando a pesquisa Meio/Ideia perguntou aos brasileiros em março sobre o tema, 39% disseram acreditar que o golpe fora tentado por Jair Bolsonaro; 54% falaram que não acreditam. Foi a última vez em que uma pesquisa nacional tratou do tema. Nesta semana, à medida que entramos na reta final do primeiro turno destas eleições, as pesquisas mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no que, essencialmente, é um empate com Flávio. Pode dar qualquer coisa.
Muitos de nós, da imprensa profissional,
temos recebido cobranças. No fundo, elas vêm principalmente numa só toada: não
damos peso correto às responsabilidades de um lado e do outro nas ameaças à
democracia brasileira. Pela massa de um noticiário cravejado de denúncias de
toda sorte, fazemos parecer que é tudo igual. Que não há diferença entre os
dois candidatos. Que, de certa forma, temos responsabilidade pelo problema de
desconhecimento dos brasileiros.
A vida do brasileiro que está na batalha de
acordar na madrugada e voltar para casa de noite é difícil. De escândalos em
curso, há três: do INSS, do lobby do filho do presidente e do Banco Master.
Cada um tem seu tamanho, e os tamanhos são muito distintos. O maior, do Master,
é particularmente complexo. Há pelo menos três ministros do Supremo envolvidos,
cada um da seu jeito. O dinheiro do banco tocou os presidentes do Senado e da
Câmara, o senador e candidato Flávio, inúmeros outros parlamentares, o líder do
governo no Senado, governadores. Cada um tem sua história particular. Para uns,
as evidências são indiretas. Os valores vão de um punhado às muitas centenas de
milhões. Há também as cortesias. De uma garrafa de uísque à farta distribuição
da bebida, festas com mulheres bonitas, orgias sexuais, empréstimo de aviões.
Cada uma dessas histórias foi devidamente
contada pela imprensa. Em detalhes. Em muito mais de uma reportagem, em todos
os grandes veículos. Depois, são recontadas também no YouTube e em redes
sociais. Muitas vezes, a recontagem se dá com viés. Não apenas os fatos,
somente os fatos, mas aquele jeito com um encaixe: “Não tem como comparar um
lado com o outro”. Ambos os lados dizem isso num tom convicto de que não há
mesmo.
Acesso a mais informação não é o mesmo que
ter boa informação que nos permita avaliar. Então quem escolhe sua versão? Para
o eleitor com poucos minutos por dia, a seleção é do algoritmo das redes. E o
algoritmo tende a oferecer a versão que, sabe, lhe agradará. Confirmará as
impressões gerais que já tem. E, nesse tiroteio, não faltarão ministros do
Supremo de seu time fazendo o que todos sabem ser certo e os do time oposto
cometendo absurdos. Que ninguém se iluda: no Brasil de hoje, quase todo
ministro do STF
tem partido.
Votaremos no próximo domingo de acordo com
nossas convicções. Para quem está realmente preocupado com a democracia, não
custa lembrar. Neste momento, o brasileiro assiste ao derretimento dos três
Poderes. Cada eleitor escolherá o lado que considera menos pior, mas a
impressão geral não muda. O regime parece ter perdido a capacidade de se
regenerar. De se aperfeiçoar. Está derretendo.
A cada atalho tomado, a cada cartada matadora
num eterno jogo de truco, a espiral acelera para baixo. Todos os golpes que
sofremos na História do Brasil nasceram de momentos como este. Em que os
agentes do poder atuam sempre no limite de suas prerrogativas em pequenas
rupturas crescentes e acumuladas das regras sobre as quais todos concordavam.
Como num redemoinho, tentar nadar contra só cansa e empurra mais pra baixo.
Sim, um dos candidatos líderes representa o
golpismo. Mas estamos novamente aqui, pela terceira eleição seguida, não porque
não se tenha gritado o suficiente que há um lobo na sala. Estamos aqui porque,
coletivamente, os agentes do poder constroem as condições para o lobo se
refestelar.

Perfeito.
ResponderExcluirO colunista é um dos editores de uma página no Facebook chamada Meio, na qual apresenta ótimas análises sobre a atual conjuntura política, reta final das eleições e afins. Ainda não acessei, mas, provavelmente, está também no Instagram.
Recomendo.