sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O ócio próprio e o trabalho alheio: 6/1, por José de Souza Martins

Valor Econômico

O Brasil está profunda e descabidamente atrasado em relação à modernização da concepção de jornada de trabalho e do que é o próprio trabalho

A descabida celeuma sobre as implicações da inteligência artificial expressa nosso atraso social em vários campos da realidade. Especialmente o atraso da vida em relação ao avanço rápido e multiplicativo do conhecimento, embora não seja esse o único nem o mais grave dos nossos descompassos.

O Brasil tem universidades de ponta, como a USP, que está entre as 100 melhores do mundo e é a melhor da América Latina. Uma universidade inventada na cadeia pelo jornalista Júlio de Mesquita Filho, um dos derrotados na Revolução Constitucionalista de 1932, como universidade pública, laica e gratuita. Ele inventou o regime de cotas: para todos os vocacionados.

Ao mesmo tempo, o Brasil está profunda e descabidamente atrasado em relação à modernização da concepção de jornada de trabalho e do que é o próprio trabalho.

A resistência à superação da jornada de 6 dias de trabalho para 1 de descanso é uma resistência sociologicamente reacionária e anticapitalista. Politicamente é oportunista apesar de antissocial. Coloca o trabalhador sob suspeita de vagabundagem e não os negociantes sob suspeita de lucro extraordinário com a superexploração do trabalho.

Há, no próprio Congresso Nacional, setores barulhentos na defesa de retrocessos sociais. Os que não trabalham mais representados do que os que trabalham. Os que entendem ser a motivação oculta do trabalhador que carece da redução da jornada de trabalho para viver a vida, a de cair na gandaia do não trabalho. Redução que compatibilize a jornada de trabalho com o ritmo de crescimento da riqueza. A chamada justiça social.

Os que não trabalham querem impor aos que trabalham a punição corretiva da ideologia do cativeiro educativo que herdamos da escravidão.

Independentemente da vinculação política e ideológica, os membros do Congresso Nacional e os políticos em geral não trabalham. O que fazem não é trabalho. Há uma distinção sociológica consolidada entre trabalho e ocupação. Trabalho é a atividade produtiva de riqueza, de conversão de capital variável em capital constante. Capitalismo é isso.

Há uma multidão crescente de pessoas ocupadas, até mesmo atarefadas, cuja atividade não é produtiva, não cria riqueza nem individual nem social.

É a categoria dos consumidores de riqueza social, os que vivem à custa da riqueza criada por quem trabalha, na roça e na fábrica. A categoria dos que ficam cansados de não trabalhar, o tipo de ocupação que pede o dedicar-se a atividades cansativas não laborais para consumir a gordura acumulada pelo não trabalhar.

A moderna economia teve que inventar sucedâneos de cansaço laboral para o não trabalho, os esportes, as academias, os exercícios programados, a indústria do cansaço provocado.

Os políticos que negam aos trabalhadores o direito social ao tempo livre deveriam dar o exemplo e aprovar em relação a eles próprios previamente uma lei que os libertasse do privilégio de viver à custa de quem trabalha, a imensa maioria do povo brasileiro.

A ideologia dos poderosos sobre a função educativa do castigo de trabalhar sem ganhar o que vale o trabalho na riqueza que cria se dissemina em vez de encolher.

Até hoje os indígenas são tratados por muitos como preguiçosos. As mulheres é que vão trabalhar na roça, enquanto os homens vão à caça, supostamente “se divertir”, que é o que fazem os brancos.

Coisas da minúscula mentalidade de classe média urbana, em que as mulheres vão à caça no supermercado e os homens é que vão penar no trabalho pesado do computador, do balcão de comércio ou outras atividades insalubres.

Nos países capitalistas desenvolvidos, a tendência é a jornada ser definida pelo tempo médio de trabalho de todos, o trabalho social. Em países civilizados a relação entre conhecimento e realidade social e política se processa com cauteloso respeito à tradição e às prioridades sociais da vida.

Além do que, os diferentes níveis da realidade e da desigualdade do desenvolvimento histórico são monitorados e regulados politicamente. Para isso serve a política e para isso deveriam servir os políticos. Aqui, os políticos não têm da função política uma compreensão política.

A estrutura política do país e as funções do Estado, definidas pela Constituição, com base na democrática possibilidade da alternância de poder, é que deve reinar nas normas e nas decisões políticas.

Aqui, nossa política é regulada pelo antidemocrático poder pessoal ou condominial. Aqui o político faz política como se fosse o feitor de seu latifúndio.

Temos a Constituição, mas temos também as maliciosas normas infralegais que permitem contorná-la e violá-la. Assim, nunca sairemos do labirinto do crescimento econômico sem desenvolvimento social.

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