Folha de S. Paulo
A esta altura de 2022, vantagem de Lula era
maior, e rejeição, menor que a dos Bolsonaro
Pelas estatísticas das pesquisas, por ora,
decisão ainda vai para o segundo tempo
A eleição para presidente vai ser decidida no
primeiro turno? Na falta de debate com substância, a quase isso se reduz a
conversa. Há dois cavalos disparados na frente, disputando a
vitória cabeça a cabeça, enquanto parte dos espectadores mais
poderosos ou bem mais armados atira nos cavalos-candidatos. São, por exemplo,
balas de vazamentos de tantos escândalos, tiradas do arsenal dos porões das
polícias e da Justiça. Desde agosto, Luiz Inácio Lula
da Silva leva mais desses tiros.
Pelas pesquisas mais recentes, é possível que um candidato tenha agora mais de 50% dos votos? Na aritmética, não. Tudo mais constante, a migração de votos de outros candidatos para os líderes não seria suficiente para resolver a disputa na primeira volta. É o que se pode depreender com base no que diz o eleitorado sobre um possível voto alternativo no primeiro turno ou sobre sua preferência de transferência de voto no segundo turno, considerando os casos mais extremos de quantidade de mudança. No entanto, nessa aritmética mais extrema, as votações estão perto do limiar de 50%.
Quanto a estatísticas, margens de erro e
hipóteses de migração de votos, esse é o cenário. No entanto, para começar, pesquisa não
é previsão, é retrato. Para continuar, estão sujeitas a imprecisões
outras que não as estimadas pela estatística. Muito importante, o eleitor que
responde a pesquisas pode faltar no dia de votação ou, obviamente, mudar de
ideia.
A eleição para presidente de 2022 foi muito
apertada, como se recorda, mesmo no resultado do primeiro turno. Lula teve
46,3% dos votos totais; Jair
Bolsonaro, 41,3%. No Datafolha
concluído quando faltavam 17 dias para a eleição, Lula tinha 45%, Bolsonaro
33%. No mais recente Datafolha sobre a eleição deste ano de 2026, concluído
quando faltavam também 17 dias para o primeiro turno, Lula aparece com 39% dos
votos; Flávio
Bolsonaro, com 36%.
A "sobra" de votos, eleitores
indecisos ou que escolhiam outros candidatos, é parecida nas duas eleições.
No entanto, a rejeição a Jair Bolsonaro era de 53% em 2022. A de Lula, 38%.
Neste 2026, a rejeição a Lula e Flávio é no momento a mesma, de 47%.
Pelo retrospecto, a situação de Lula parece
pior. Retrospecto serve apenas para formular hipóteses de comportamento de
eleitorado, para chutes mais ou menos informados e para estratégias de retas
finais de campanha.
Ao menos a julgar pelo que diz agora o
eleitorado e pela aritmética da migração de votos, Lula está perto de um teto
eleitoral parecido com o de 2022. Não pode perder nada do seu eleitorado de
base e tem de convencê-lo a ir votar em massa. Flávio Bolsonaro pode recorrer
ao apelo do voto útil para repetir a atropelada antilulista de 2022.
Isso é corrida de cavalos, porém.
Politicamente, o que resta? De última hora, Lula baixa medidas a fim de atenuar
danos de imagem que ficaram de seu terceiro mandato. Vai levar algum tempo para
saber se funcionam. No caso do reajuste do Bolsa Família,
o dinheiro vai pingar apenas durante eventual campanha de segundo turno, por
exemplo. Não vai tentar nenhum gesto político maior?
Flávio Bolsonaro deve ter a colaboração de
todos os demais candidatos relevantes. Embora líderes e candidatos não tenham o
eleitor no cabresto, conta de início com mais boa vontade. Lula não terá essa
boa vontade. Não haverá uma Simone Tebet
nem o microcentro chocado com as tentativas bolsonaristas de golpe, em boa
parte decepcionado com Lula.
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