Dino faz uso político da Justiça
Por O Globo
Autorização para fake news sobre Nossa
Senhora e decisão de Gilmar sobre Bolsa Família atropelam TSE
Tem sido preocupante a politização das decisões eleitorais da Justiça. Na semana passada, espalhou-se a notícia falsa de que Flávio Bolsonaro, se eleito, tiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Era uma especulação descabida, que Flávio desmentiu de imediato. Ele entrou com representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, no mesmo dia, o ministro André Mendonça, vice-presidente da Corte, determinou a remoção de conteúdos das redes sociais. O ator e humorista Antonio Tabet recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), quando o caminho institucional correto teria sido acionar o plenário do TSE. Já no domingo, o ministro Flávio Dino anulou decisão de Mendonça e, por motivação nitidamente política, liberou as publicações com a mentira, favorecendo a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Desconsiderando os fatos, a legislação e toda
a jurisprudência, Dino argumentou que a determinação de Mendonça violava as
liberdades de expressão e religiosa. Mais chocante foi o atropelo ao TSE.
Também chamou a atenção o mecanismo jurídico esdrúxulo. Dino analisou o
requerimento de Tabet num processo sem conexão com a disputa presidencial.
Submeteu ontem a decisão ao plenário do Supremo, no contexto de uma discussão
sobre “censura em massa”. Mas isso em nada diminui a gravidade da intromissão.
Mesmo que a decisão de Mendonça pudesse ter
sido exagerada — mais de mil posts foram removidos com base em critérios
obscuros —, o caminho para revê-la era o plenário do TSE, e não uma artimanha
para que caísse nas mãos de um ministro de simpatias políticas conhecidas. Em
reação, Flávio Bolsonaro lançou mão do mesmo expediente: entrou com um pedido
para que, numa ação relativa ao Marco Civil que tramita no Supremo, o ministro
Luiz Fux voltasse a suspender os posts com a desinformação. Outro disparate.
A decisão de Dino não foi a primeira em que o
Supremo atropelou a Justiça Eleitoral. No último dia 18, o ministro Gilmar
Mendes lançou mão de uma manobra heterodoxa e desarquivou um processo já
encerrado para autorizar o reajuste no Bolsa Família — apesar de o plenário do
próprio STF ter declarado ilegal em 2024 o aumento de benefícios sociais em ano
eleitoral.
O ministro Kassio Nunes Marques, presidente
do TSE, solicitou ao presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, que criasse
uma espécie de filtro para evitar que os pedidos de natureza eleitoral sejam
encaminhados automaticamente a ações no STF. De acordo com Nunes Marques, esse
mecanismo contribui para “erosão democrática, mediante o progressivo
enfraquecimento das instituições incumbidas de assegurar a integridade do
pleito”.
É triste constatar que, depois da sessão
patética em que fizeram de tudo para livrar Moraes de investigação por suas
relações suspeitas com o Banco Master, os ministros da mais alta Corte do país
tenham se engajado num Fla-Flu eleitoral sem cabimento. A erosão da
credibilidade da Justiça já é a pior novidade das eleições de 2026. Quando os
brasileiros se preparam para ir às urnas, os responsáveis pelos tribunais devem
se manter imunes a ingerências políticas, sob pena de minar a confiança
eleitoral. Juízes movidos por qualquer outra motivação que não o cumprimento da
lei contaminam a própria isenção e acabam ferindo a ideia de Estado de Direito.
É uma irresponsabilidade com as instituições.
Cortes do governo Trump põem em risco
monitoramento do clima global
Por O Globo
Felizmente, Congresso americano tem
conseguido barrar propostas mais nocivas para futuro do planeta
Está em curso em Washington um embate entre o
governo Trump e uma bancada bipartidária no Congresso de que dependem as
estruturas de monitoramento vitais para o acompanhamento das mudanças
climáticas no mundo todo. A Casa Branca tem proposto cortes orçamentários
profundos, mas cientistas temem que eles possam comprometer a coleta de dados
na atmosfera e nos oceanos.
Está em jogo uma extensa rede de coleta de
dados formada por satélites, boias oceânicas, sensores no fundo do mar,
radares, estações meteorológicas e balões atmosféricos que funcionam 24 horas
por dia. As informações dessa rede são compartilhadas pela Organização
Meteorológica Mundial (WMO) e alimentam modelos matemáticos que simulam o
comportamento do clima e dos oceanos. Com os cortes de Trump, tudo está sob
risco.
Um exemplo dos danos potenciais foram os
cortes propostos nos recursos do observatório de Mauna Loa. Desde 1958, o
centro havaiano coleta dados sobre gases do efeito estufa na atmosfera, em
especial o dióxido de carbono (CO₂), principal causa do aquecimento global. Ao
lado de três outras estações no planeta, Mauna Loa mede o efeito das emissões.
A proposta orçamentária trumpista interromperia a longa série histórica de
dados essenciais para tais medições. Felizmente, parlamentares republicanos se
uniram à bancada democrata para evitar o pior.
A Fundação Nacional de Ciência (NSF) preparou-se
para desmantelar uma rede submersa de mais de 900 instrumentos instalados há
uma década, ao custo de US$ 386 milhões, para monitorar áreas costeiras e
correntes marinhas. Eles se espalham pelas costas de Alasca, Oregon,
Washington, Carolina do Norte e pela área entre Groenlândia e Islândia. Os
instrumentos enviam dados a partir do leito do fundo do mar, a até 2.800 metros
de profundidade. São ferramenta essencial para acompanhar a Circulação
Meridional de Revolvimento do Atlântico (Amoc), corrente marinha cuja lentidão
recente preocupa, pelos reflexos drásticos que poderá ter no padrão do clima
global. Senadores democratas e um republicano enviaram mensagem formal ao
governo para suspender o plano de desmontar a rede, mas foi preciso a aprovação
no Senado de um projeto bipartidário, assinado por um democrata do Oregon e uma
republicana do Alasca, para que Trump voltasse atrás.
Os cortes que têm sido propostos pelo governo Trump podem deixar a comunidade científica mundial numa espécie de voo cego no monitoramento do clima. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), que opera satélites e recebe informações de boias e aviões, anunciou que um banco de dados com informações acumuladas desde 1980 não será mais atualizado por falta de recursos. Ele é usado por agências e companhias de seguros para estimar perdas em desastres naturais. O temor da comunidade científica é justificado diante das ameaças e investidas trumpistas. Espera-se que o novo Congresso eleito em novembro continue se mantendo vigilante e evite cortes em verbas tão essenciais.
Flávio Dino abusa da toga para reeleger Lula
Por Folha de S. Paulo
Ministro indicado pelo petista intervém
individualmente no TSE e revoga veto a notícia falsa contra Flávio
Aberração mina autoridade do órgão eleitoral
e acelera corrosão do STF; Fachin precisa agir para conter mixórdia de decisões
contraditórias
Se restava dúvida de que a degradação do
Supremo Tribunal Federal descambaria para a atuação francamente partidária de
seus ministros, ela foi dissipada no domingo (27), com a aberrante
intervenção monocrática de Flávio Dino
no Tribunal Superior Eleitoral.
Investido das atribuições típicas desta corte
eleitoral, o ministro André
Mendonça havia vetado
uma série de manifestações em redes sociais que promoviam direta ou
indiretamente a notícia falsa de que Flávio
Bolsonaro (PL)
trabalharia para derrubar o status de Nossa Senhora Aparecida de santa
padroeira do Brasil.
Pode-se criticar, como o faz esta Folha, a
opção de legisladores e magistrados brasileiros de tratarem o cidadão e o
eleitor como incapazes de discernimento. Partindo dessa falácia, a tutela sobre
as expressões, mesmo as mentirosas, dá poderes extraordinários a quem tem o
papel de julgar.
Apesar disso, as leis e a jurisprudência para
a censura em período eleitoral estão postas há décadas, e o tribunal competente
para decidir sobre elas é o TSE.
Em 2022, presidido por Alexandre de Moraes, o
órgão proibiu a falsa associação do então candidato Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
com o crime organizado. Também suspendeu manifestações que o ligavam à defesa
do aborto, conectavam-no a corrupção ou diziam que ele proscreveria as igrejas
evangélicas se eleito.
Nenhum ministro do Supremo, onde havia dois
indicados pelo presidente Jair
Bolsonaro (PL), valeu-se da toga para atalhar a corte eleitoral e
favorecer o então postulante à reeleição. A primazia descarada, quatro anos
depois, coube a Flávio Dino para beneficiar seu padrinho, Lula.
O episódio acelera o esboroamento da
autoridade do STF
porque o atira de vez na arena partidária e amplia o arsenal da guerra entre
facções internas. Ministros que não haviam descoberto o caminho das pedras para
mandar individualmente em tudo o que quiserem agora o encontrarão.
A vítima imediata da metralha de Dino é a
centralidade da Justiça
Eleitoral no Brasil. Sem esse árbitro imparcial e distanciado da
política partidária, o pleito de 2022 teria corrido mais riscos em virtude do assédio
de um presidente da República autoritário. Agora a ameaça parte de quem tem o
dever de defender a Carta.
O fato de o assediador vestir uma toga do
Supremo Tribunal Federal não deveria deixar mais tranquilos os brasileiros
ciosos das práticas institucionais consagradas. Dino, vale lembrar, também foi
escolhido a dedo pelo PT —numa ação que versa originalmente sobre mineração
(!)— em petição para investigar interferência estrangeira na eleição.
Se o presidente do Supremo Tribunal Federal,
Edson Fachin, não intervier logo na balbúrdia, em pouco tempo o Brasil
testemunhará uma mixórdia de decisões contraditórias de ministros que se acham
plenipotenciários, cenário em que será crescente o risco de desobediência, com
o colapso da confiança na corte.
Benesse sem compensação
Por Folha de S. Paulo
Tributação de dividendos, que deveria bancar
isenção do IR, já tem arrecadação esperada reduzida
As empresas se planejaram para minimizar os
custos do novo tributo neste ano; cálculo do governo Lula seguia pressa
eleitoral
A tributação de dividendos pagos aos
que o governo chamou de super-ricos deveria render, neste ano, mais
que o suficiente para compensar a renúncia de R$ 28 bilhões com a isenção do Imposto de
Renda para ganhos até R$ 5.000 mensais, outrora a principal aposta
eleitoral de Luiz Inácio Lula
da Silva (PT).
Sabe-se hoje que a arrecadação ficará muito aquém disso.
Diante da coleta de apenas R$ 4 bilhões até
agosto, a estimativa oficial para o ano foi reduzida pela segunda vez. Está agora
em R$ 10,5 bilhões, depois da queda para R$ 17,2 bilhões em julho.
A regra principal é a retenção de 10% na
fonte quando uma empresa paga a uma pessoa física mais de R$ 50 mil no mês,
além de 10% sobre remessas ao exterior e do imposto mínimo para rendas acima de
R$ 600 mil ao ano.
A revisão indica que a conta original seguiu
a pressão do calendário político, já que Lula queria que sua benesse estivesse
em vigor neste ano eleitoral.
Boa parte da frustração decorre do fato óbvio
de que dividendos não são uma obrigação periódica. A própria regra de transição
levou as empresas a planejar, ainda em 2025, a distribuição de lucros
acumulados até aquele exercício, com desembolso diluído em até três anos, sem a
incidência do tributo novo.
Na prática, a retenção deste ano passou a
incidir sobre uma base menor do que a usada na previsão inicial —e não é claro
que os valores originais se confirmem mesmo no médio prazo.
A nova cobrança, afinal, gera mudanças de
comportamento. É possível fracionar pagamentos abaixo dos R$ 50 mil por empresa
e por beneficiário, por exemplo. Empresas de maior porte também podem optar por
outras formas de pagamento ou mesmo retardar a distribuição.
Não por acaso, o Tribunal de Contas da União
(TCU)
pediu à Receita
Federal os memoriais de cálculo da projeção original e registrou que
não era possível reproduzir nem validar de forma independente as estimativas.
A revisão baixista da coleta com dividendos
tem como contraponto o crescimento de outras fontes de recursos, que sustentam
alta de 7,12% acima da inflação na arrecadação federal acumulada até agosto,
ante o período correspondente de 2025.
Tal desempenho, no entanto, não anula o
ditame legal de que a maior isenção do IR deveria ter sido totalmente
compensada pela tributação dos mais ricos.
O episódio é ilustrativo do padrão da política fiscal petista: expansão contínua de gastos e isenções tributárias apoiada em receitas de materialização incerta.
Por uma reforma contra a casta política
Por O Estado de S. Paulo
Mudança deve acabar com vantagens que ajudam
a perpetuar quem já está no poder. Além disso, é preciso recuperar o debate
parlamentar, hoje desnecessário ante o acerto de bastidores
O Brasil já fez muitas reformas políticas.
Acabaram as coligações proporcionais, a cláusula de barreira começou a reduzir
a barafunda de partidos e o financiamento empresarial de campanhas foi
proibido. Mas o principal defeito ficou de pé. Quem chega ao poder encontra uma
engrenagem cada vez mais eficiente para continuar nele, e não necessariamente
porque atuou bem. E é essa engrenagem que uma nova reforma política precisa
desmontar. O sistema deve voltar a fazer o político depender mais do eleitor do
que das vantagens acumuladas por quem já está no poder.
Candidatos disputam esta eleição abastecidos
por quase R$ 5 bilhões do Fundo Eleitoral. No Congresso, têm à disposição
dezenas de bilhões de reais em emendas para irrigar suas bases. Emendas são
legítimas, mas a dimensão que alcançaram é uma deformação. Dinheiro que deveria
financiar políticas públicas passou ao controle de 594 parlamentares, dando a
cada um meios para montar sua própria máquina política. Essa cornucópia, que
distorce o processo eleitoral e a distribuição dos suados recursos tomados do
contribuinte, precisa ser desmontada.
No Legislativo, não se debate mais nada.
Pinta-se e borda-se com o regimento. Requerimentos de urgência fazem projetos
importantes pularem comissões, onde costumam ser destrinchados, enquanto
votações simbólicas escondem a posição dos parlamentares. Até as sessões
remotas viraram rotina e afastam os congressistas do plenário. Para o eleitor,
acompanhar certas manobras e saber o que seu representante fez é tarefa quase
impossível. Uma reforma política precisa mexer também nessa caixa-preta e
recuperar o rito legislativo. O eleitor tem de conseguir saber o que seu
parlamentar faz ou deixa de fazer.
Mas a distância começa na própria eleição. O
brasileiro escolhe um candidato a deputado entre centenas espalhados pelo
Estado e quatro anos depois dificilmente saberá dizer quem o representa. A
reforma deveria adotar o voto distrital, puro ou combinado ao proporcional,
para criar um vínculo mais direto entre comunidade e seu deputado.
Partidos continuam indispensáveis. Donos de
partidos, não. O Brasil precisa de legendas com programa e democracia interna,
que tenham alguma identidade para o eleitor. A sub-representação de mulheres e
negros também precisa ser corrigida.
Quem pretende representar a sociedade deveria
buscar nela seu sustento. Os Fundos Eleitoral e Partidário devem acabar, sem
ressuscitar as doações empresariais, que o País fez bem ao proibir. O
financiamento deve vir de cidadãos dispostos a contribuir, com limites para as
doações individuais.
Outra aberração sobrevive no Senado. Um
senador recebe um mandato de oito anos e pode deixar em seu lugar alguém que
nunca recebeu um voto, às vezes um parente. A suplência virou atalho para
chegar ao mandato mais longo da República sem passar pelo eleitor e precisa ser
revista.
Vale discutir ainda uma eleição legislativa
no meio do mandato presidencial. Hoje, a disputa pelo Planalto engole a
parlamentar. Separar obrigaria o País a olhar para o Congresso e permitiria
julgá-lo pelo que fez. Faz mais sentido do que juntar eleições municipais e
nacionais ou acabar com a reeleição para criar mandatos de cinco anos. Se um
governante fez um bom trabalho, cabe ao eleitor decidir se quer mantê-lo.
O presidencialismo de coalizão também cobra
seu preço. O Congresso acumulou enorme poder sobre o Orçamento sem assumir a
responsabilidade de governar. Já o presidente depende de negociações
permanentes com esse Congresso. O Estadão
já defendeu o debate sobre o semipresidencialismo. Com menos partidos, essa
discussão hoje faz mais sentido.
Debate sobre reforma política não costuma
ganhar eleição. Parece distante da escola, do posto de saúde ou do medo de sair
à rua. Mas são os eleitos daqui a poucos dias que decidirão o destino do
dinheiro público e as políticas que podem mudar essa realidade. Convém saber
quem está disposto a mexer nas regras que criaram a casta política infensa ao
escrutínio público. É essa reforma que o País precisa fazer. Sem tirar nenhuma
facilidade de quem exerce o poder, não se reforma grande coisa.
Trump e Xi compram tempo
Por O Estado de S. Paulo
Washington e Pequim reduziram a temperatura
sem resolver a rivalidade. O valor da nova trégua dependerá de como cada lado
usará a pausa para reduzir vulnerabilidades e preservar poder
O presidente chinês, Xi Jinping, foi recebido
em Washington com deferência incomum: o presidente dos EUA, Donald Trump, foi
recepcioná-lo no aeroporto, cercou a visita de aparato militar e ofereceu-lhe
um jantar de Estado. Depois de tanta pompa, o principal resultado econômico
coube numa frase curta: mais dois meses de trégua comercial. Parece pouco.
Talvez não seja. Entre duas potências que descobriram o quanto podem machucar
uma à outra, comprar tempo já tem valor, sobretudo quando a alternativa é
reabrir uma batalha que ambas já provaram ser capazes de tornar dispendiosa. A
questão é o que cada uma pretende fazer com ele.
A escalada de 2025 ensinou lições
desconfortáveis a Washington. A dependência americana de terras raras,
sobretudo de seu processamento, deu a Pequim um poder de pressão que as tarifas
não neutralizaram. A China, por sua vez, continua exposta às vantagens dos EUA
e seus aliados em semicondutores avançados. Dessa vulnerabilidade recíproca
nasceu a calma atual. Ela se sustenta menos na confiança do que na consciência
dos estragos que uma nova escalada produziria.
A disputa, porém, continua sob o armistício.
O governo Trump quer usá-lo para reduzir a dependência das cadeias chinesas de
minerais críticos. Pequim sabe disso e tem interesse em conservar essa alavanca
enquanto procura diminuir sua própria exposição à tecnologia dos americanos e
aliados. Diversificar mineração, refino e processamento leva anos; desenvolver
alternativas a chips de última geração também. O intervalo diplomático dá aos
dois lados uma oportunidade para tentar alterar o equilíbrio de poder.
O cultivo ostensivo da relação pessoal entre
Trump e Xi tem importância estratégica. A cerimônia de Washington que projetou
Xi como interlocutor de igual estatura é uma imagem valiosa para Pequim.
Encontros frequentes também reduzem o risco de erro de cálculo. Mas a
perspectiva permanente de uma próxima cúpula cria outro incentivo: evitar
decisões que a coloquem em risco. A deferência americana sugere uma vantagem
diplomática chinesa no curto prazo, sem resolver a disputa de fundo, na qual os
EUA conservam enormes recursos financeiros, tecnológicos e militares, enquanto
a China enfrenta dificuldades de crescimento.
Taiwan oferece o primeiro teste concreto
dessa ambivalência. Trump chamou um pacote de cerca de US$ 14 bilhões em armas
para a ilha de “moeda de troca”. Pequim pressionou para retardá-lo, e
Washington adiou sua aprovação enquanto preparava a visita de Xi. Ao mesmo
tempo, o presidente chinês quer que os EUA troquem a fórmula tradicional de que
“não apoiam” a independência taiwanesa pela afirmação de que “se opõem” a ela.
Até agora, Trump não aceitou publicamente essa mudança, e o pacote foi adiado,
não cancelado. Ainda assim, o episódio mostra por que nem todas as barganhas
podem ser avaliadas pela mesma régua. Tarifas e compras agrícolas são
reversíveis com relativa facilidade; decisões que alterem a dissuasão de
adversários ou a confiança de aliados deixam marcas mais difíceis de apagar.
Se Taiwan revela o risco da acomodação, a
inteligência artificial expõe o custo da desconfiança. A rivalidade pode
bloquear a cooperação mesmo diante de perigos compartilhados. A cúpula não
produziu regras relevantes para administrar esses riscos. Pequim suspeita que
as salvaguardas propostas pelos americanos possam cimentar uma vantagem
tecnológica dos EUA; Washington teme que a ausência delas amplie ameaças de
segurança. Em certas frentes, portanto, a mesma desconfiança que sustenta a
competição torna mais difícil uma coordenação que interessa a ambos – e ao
mundo.
A visita de Xi oferece uma fotografia de uma
relação em transição. Trump e Xi conseguiram outra pausa, mas seu significado
dependerá do que acontecer antes da próxima reunião: se Washington reduzirá
vulnerabilidades sem corroer a dissuasão; se Pequim preservará suas alavancas
enquanto avança em tecnologia; e se os dois conseguirão manter canais de
diálogo sem transformar a própria conversa num fim em si mesmo. O saldo da
cúpula será medido, sobretudo, pelo que ambos fizerem até o próximo encontro.
A farra do Pé-de-Meia
Por O Estado de S. Paulo
Ministro diz que Lula quer universalizar
programa, o que pode, na prática, desvirtuá-lo
O ministro da Educação, Leonardo Barchini,
informou recentemente, em entrevista à Folha,
que recebeu de seu chefe, o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula
da Silva, a ordem de universalizar o programa Pé-de-Meia. A ideia é que, já no
ano que vem, mais 2,4 milhões de estudantes sejam atendidos pela poupança
criada pelo governo federal para combater a evasão escolar no ensino médio. Com
isso, o número de beneficiários saltaria dos atuais 4,6 milhões para 7 milhões
– ou seja, todos os alunos matriculados na última etapa de ensino da educação
básica da rede pública. Mais uma vez, o governo petista escolhe o caminho da
farra com dinheiro público na tentativa de angariar votos, sem nada que
justifique a ampliação de um programa que deveria ser focado em quem mais
precisa.
Barchini, que também falou na condição de
representante da campanha de Lula, afirmou que “o programa terá um investimento
muito maior” no próximo ano. E isso se justificaria, segundo ele, porque o
Pé-de-Meia “está dando resultado, está diminuindo o abandono escolar,
diminuindo a reprovação”. Trata-se de bravata típica de campanha: o Pé-de-Meia
foi criado há apenas dois anos e especialistas afirmam que ainda é cedo para
dimensionar o impacto do programa.
Como sempre, o representante do governo (e da
campanha de Lula) não soube dizer qual o potencial impacto financeiro da medida
sobre o Orçamento da União. E isso preocupa, porque, quando da criação do
Pé-de-Meia, o governo Lula recorreu à criatividade fiscal, usando recursos de
fundos para custear os depósitos. Houve críticas de especialistas em contas
públicas, e o Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a emitir alertas. Depois
disso, a gestão petista incluiu o programa no Orçamento, onde sempre deveria
ter estado.
Não se trata de pouco dinheiro: os atuais
beneficiários recebem um depósito mensal de R$ 200; ao fim de cada ano, são
contemplados com mais R$ 1 mil; e, ao término do ensino médio, podem ter
acumulado na poupança até R$ 9,2 mil. Tudo isso consome R$ 12 bilhões do
orçamento do MEC por ano. Hoje, os critérios são objetivos. Os estudantes
atendidos pertencem a famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), que
reúne beneficiários de programas sociais, em tese os mais necessitados de
assistência.
O Pé-de-Meia é um legítimo estímulo para
manter os alunos no ensino médio, evitando que troquem os bancos das escolas
por um posto de trabalho precário e informal. Mas também é legítimo o
questionamento sobre a conveniência de estender o programa a todos os
estudantes. Estudar em escola pública não é necessariamente sinônimo de
vulnerabilidade social e econômica. E, sem essa condição, não é razoável a
proposta de depósito de dinheiro público em poupança de estudantes de famílias
de renda um pouco mais alta.
Sem a focalização do Pé-de-Meia nos estudantes mais necessitados, o governo fará distribuição de renda às avessas, o que intensifica as desigualdades. Enquanto isso, outras áreas da educação, como alfabetização, ensino integral e educação profissionalizante, que podem realmente ajudar os estudantes, ainda carecem de investimento.
Percalços na rota dos novos impostos antes da
estreia
Por Valor Econômico
Após um consenso difícil que levou anos, seria um enorme retrocesso interromper a reforma tributária
Aprovada pelo Congresso após mais de 40 anos
de debates, a reforma tributária, que finalmente modernizará e simplificará o
sistema de impostos do país, corre riscos em sua reta final. O governo Lula
precisa definir a alíquota do Imposto Seletivo (IS), que incidirá sobre bens
considerados danosos à saude e ao meio ambiente, até o fim desta semana. O IS
substituirá em 2027 o IPI, exceto no caso da Zona Franca de Manaus. Em plena
campanha eleitoral, o presidente Lula teme a exploração eleitoral negativa que
qualquer alíquota definida do imposto terá, em especial porque o candidato da
oposição mais bem posicionado nas pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), explora como um dos pontos principais de sua propaganda uma suposta
sanha arrecadadora do governo do PT.
O Planalto calcula que poderá enviar uma
Medida Provisória com a alíquota após o segundo turno, em 25 de outubro. Do
ponto de vista da arrecadação, não é o ideal. O imposto teria de ser definido
com 90 dias de antecedência, e o atraso de um mês significará também a perda de
um mês de receitas em 2027. No Projeto de Lei Orçamentária do ano que vem, a
arrecadação estimada com ele é de R$ 42 bilhões.
O risco principal não é o técnico-financeiro.
Ao demorar a enviar um projeto de lei fixando a alíquota do IS e jogá-lo para
depois das eleições, é toda a reforma tributária que corre o risco de sofrer
paralisia. Flávio Bolsonaro deixou claro em sua campanha que quer rever o que
já foi aprovado e um dos pontos que poderiam ser reformulados é o da carga
tributária, que ele considera abusiva. Cálculos de referência do Comitê Gestor
do Imposto de Bens e Serviços estimaram uma alíquota conjunta total do Imposto de
Bens e Serviços (Estados e municípios) e da Contribuição sobre Bens e Serviços
(União) de 27,91%. Será a maior alíquota cobrada entre todos os países do mesmo
porte econômico e talvez a mais alta do mundo.
Flávio Bolsonaro, ou o Comitê Gestor, ou
mesmo o governo, não tem a conta completa. A alíquota total poderá ser maior,
ou menor, dependendo exatamente do montante do IS. Sem isso, será difícil
calibrar a CBS, que substituirá PIS e Cofins e que passa a vigorar em 2027. A
Receita Federal enviou para o Tribunal de Contas da União os cálculos
necessários para que os novos impostos atendam à determinação da reforma de que
a carga tributária não seja superior à de hoje. O TCU tem de enviar o resultado
ao Senado até 30 de novembro, e os senadores terão de fixar os percentuais até
15 de dezembro.
A oposição de Flávio Bolsonaro se baseia em
uma incompreensão do que a reforma fará. Apesar de a alíquota de 27,91% ser
alta, na verdade ela mantém o que hoje já é cobrado do consumidor, mas que não
aparece claramente no cipoal de regras que compunham o regime tributário
arcaico brasileiro. Nos cálculos dos autores da reforma, as alíquotas seriam de
20% a 22%, a depender das exceções previstas em sua tramitação. O Congresso as
encaminhou com generosidade, abrindo um leque de exceções e reduções de 60% e
30% (para os serviços das profissões regulamentadas, como advogados) e alíquota
zero (onde está enquadrada a cesta básica de alimentos). Com isso, a soma CBS e
IBS chegou a quase 28%.
Os grupos de pressão no Congresso foram em
boa parte atendidos, e as objeções históricas dos Estados às mudanças
tributárias foram vencidas depois que a União prometeu um mar de recursos ao
longo das próximas décadas, um compromisso que talvez não tenha condições de
cumprir.
Até 2032, terá de desembolsar R$ 160 bilhões
como compensação pelo fim das isenções de ICMS (muitas delas concedidas sem
base legal pelos Estados). Em 2027, a União terá de desembolsar R$ 24 bilhões,
montante que sobe a R$ 32 bilhões no ano seguinte, para regredir paulatinamente
para R$ 8 bilhões em 2032. A partir de 2029, terá que entregar R$ 8 bilhões a
mais por ano por conta de aportes aos Fundos de Desenvolvimento Regionais, uma
conta que atinge R$ 40 bilhões anuais a partir de 2033, quando se encerra a
transição, e a cobrança de IBS e CBS passa a ser integral.
Não será fácil desmontar a reforma, assim
como não está sendo fácil implantá-la. Com o atraso do IS, em 1 de janeiro o
IPI deixará de ser cobrado sobre os bens que o novo imposto abrange (bebidas
açucaradas e alcoólicas, veículos, aeronaves, fumo etc), sem que o IS tenha
entrado em vigor. Com isso, a CBS será maior por algum tempo, até ser
recalibrada depois. É importante que o novo regime siga em frente com o mínimo
possível de arestas, porque o Comitê Gestor, por sua composição, não tende a
produzir soluções rápidas. São 54 membros, divididos igualmente entre Estados e
municípios, com voto majoritário ponderado pela população até atingir metade
dela para decisão entre Estados e maioria simples para a decisão dos municípios.
Com toda a complexidade da reforma, eventuais problemas de concepção, como a longa transição, podem ser corrigidos ao longo do tempo. As mudanças tributárias são mais justas, equilibradas, racionais e muitas vezes mais funcionais que o regime que deixam para trás. Após um consenso difícil que levou anos, seria um enorme retrocesso interrompê-la.
Crise climática não chega às eleições
Por Correio Braziliense
91% dos brasileiros consideram importante que
os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. Se
não tem seus anseios atendidos, os eleitores podem — e devem — dar a resposta
nas urnas
Temperaturas acima de 40ºC devem ser
registradas em oito unidades da Federação nestes dias que antecedem o primeiro
turno das eleições gerais, estima o Inmet. São cerca de 102 milhões de pessoas,
quase metade da população brasileira, vivendo em estados com situação de alerta
devido ao calor intenso. Gente sentindo na pele e na rotina os efeitos do
fenômeno climático que já deixou de ser atípico, mas que pouco sabe sobre como
quem terá o nome exibido nas urnas eletrônicas pretende enfrentar esse
problema.
Levantamento divulgado, neste mês, pelo
Observatório do Clima (OC) mostra que os planos de governo de quase todos os
presidenciáveis não dão a importância devida à crise climática e ambiental.
Entre os seis melhores posicionados nas pesquisas de intenção de voto, Luiz
Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, tem a proposta considerada mais
"verde" pelo OC, com metas climáticas definidas — como aumento das
fontes renováveis e o plano de zerar o desmatamento —, mas uma gestão atual que
incentiva a exploração de novas fronteiras petrolíferas — a exemplo da Margem
Equatorial.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, traçou um
projeto de governo que não reconhece a existência da crise climática e, na
avaliação do OC, tem apenas uma proposta positiva em relação ao tema: a
universalização do saneamento básico. Os outros candidatos avaliados — Augusto
Cury, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado — trazem propostas vagas para
os oito grandes eixos estudados: mudanças climáticas; energia; desmatamento;
proteção de povos e comunidades tradicionais; agronegócio sustentável;
mineração e infraestrutura; governança ambiental e climática; e oceano e zona
costeira.
Seria cômico se não fosse trágico o fato de
nenhum dos presidenciáveis fazer referência a medidas de mitigação do El Niño,
justamente o responsável pela onda de calor que assola no momento parte
significativa do país e pelos temporais em municípios da Região Sul. É sempre
bom reforçar que se trata de um fenômeno climático natural antigo, mas
que tem sido anabolizado pelo aquecimento do planeta. Também não se pode perder
de vista o fato de que o Brasil é o quinto maior emissor de gases de efeito
estufa da Terra e, portanto, tem a obrigação civilizatória de enfrentar esse
problema com seriedade.
É evidente que o combate à crise climática e
ambiental não se resume a decisões e intenções de quem chega ao Planalto.
Espera-se uma resposta articulada, com comprometimento dos Três Poderes, nas
esferas federal, estadual e municipal, de empresas e da sociedade civil.
Governadores têm autonomia para conceder incentivos fiscais para empresas
poluentes ou ambientalmente sustentáveis, para investir em infraestruturas verdes
ou fazer vistas grossas à urbanização desordenada. Da mesma forma, a depender
da toada, deputados e senadores podem criar leis para proteger biomas e
destinar verbas públicas para prevenção de desastres ou flexibilizar
financiamentos ambientais e enfraquecer estruturas de fiscalização.
Parte importante dessa rede — ocupantes do Executivo e Legislativo federal e estadual — começa a ganhar nova forma a partir deste domingo. Ainda que a questão climática e ambiental não tenha tido o destaque merecido nas campanhas, ela é de interesse do povo. Outro estudo do OC divulgado também neste mês mostra que 91% dos brasileiros consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. Se não tem seus anseios atendidos, os eleitores podem — e devem — dar a resposta nas urnas.
A crise no STF e o papel de Edson Fachin
Por O Povo (CE)
O Supremo Tribunal Federal (STF) está em
evidência negativa, mais uma vez, devido à ação de alguns dos atuais
integrantes do seu colegiado. Decisões dos ministros André Mendonça e Flávio
Dino, o primeiro na condição de membro atual do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), colocaram em choque visões conflitantes diante de uma situação que
envolve o uso das redes sociais na perspectiva de uma disputa eleitoral que
está em curso.
Tratemos aqui, com a rapidez possível, o
conteúdo do que dá origem à nova crise entre os nossos ministros do STF. Em seu
perfil numa dada plataforma, o humorista Antonio Tabet faz menção a um tema que
está em evidência nos últimos dias, que indicaria uma ameaça à permanência de
Nossa Senhora de Aparecida como padroeira do Brasil e ligando o fato ao
interesse da "família miliciana".
Não há menção a candidato ou partido, mas,
Flávio Bolsonaro, do PL, aparentemente identificou-se como alvo possível da
mensagem e recorreu à justiça eleitoral, solicitando a retirada do post. Pedido
acolhido por André Mendonça, que foi além e determinou que fossem excluídos na
plataforma todos os conteúdos que fizessem referência ao tema.
Como resposta, numa espécie de manobra
jurídica, os advogados de Tabet localizaram ações relacionadas à liberdade de
expressão que tinham Flávio Dino como relator e recorreram ao STF para anulação
da decisão de Mendonça, deixando evidente a ideia de direcionamento. Foram
atendidos, prevalecendo a visão de que o humorista se valeu de um direito que a
Constituição lhe garante para publicação do post, já repostado, inclusive.
Sem juízo de valor quanto ao mérito do que
está em discussão, mas sempre entendendo que diante de qualquer circunstância
deve prevalecer a liberdade de informar e opinar, o que se deve lamentar é o
fato de a principal Corte do País estar, mais uma vez, envolvida em uma crise
gerada pelo comportamento dos seus ministros. De novo, temos o STF incapaz de
funcionar como instância de solução de crises que começam em outras instâncias
e deveriam ter ali um espaço de solução. Infelizmente, isso não
acontecerá em mais uma oportunidade.
O atual presidente do Supremo, Edson Fachin,
está chamado a agir com o sentido de reequilibrar as coisas. Precisa chamar os
colegas para conversas que indiquem um caminho de saída para uma crise que tem
sido retroalimentada pelo comportamento inadequado dos próprios integrantes da
Corte, a partir de exemplos recorrentes de atropelos que poderiam ser evitados
se houvesse diálogo mínimo entre eles.
É hora dele, Fachin, fazer valer a condição atual que tem de responsável principal pela credibilidade de um poder fundamental ao melhor funcionamento da nossa democracia. Tê-lo fragilizado, como acontece nestes dias, é fator de intranquilidade para toda a sociedade brasileira.

Infelizmente o ministro Édson Fac é a própria fragilidade esse esse jeito dele manso sem atitude fez o Dino e o Morais abusarem Da sua autoridadena última reunião plenária
ResponderExcluirNunca podemos que esquecer que ele era advogado do MST E foi indicado pela então Presidente Dilma PT
Não podemos esquecer também que partiu dele a manobra jurídica pra tirar o Lula da cadeia
Ele tem uma postura de passividade mas na hora H está com a esquerda sempre
Vamos ver pra onde ele vai caminhar