segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Mendonça também deve explicações

Por O Globo

E a razão para isso não tem nada a ver com o pedido para investigar Moraes

O Brasil não tem mais dúvidas de que o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado. Há contra ele mais de cinco dezenas de mensagens em que Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master, pede ajuda e conselhos. Justamente a ele, cuja mulher assinou um contrato, editado pelo próprio ministro, de R$ 130 milhões para “consultoria estratégica” diante de órgãos públicos fiscalizadores. Ainda não se sabe se Moraes é culpado, mas apenas uma investigação poderá levar a um processo judicial e, eventualmente, a julgamento. Para se defender, ele terá a seu dispor todas as garantias que nosso ordenamento jurídico prevê.

A análise dos fatos demonstra que o ministro André Mendonça fez o que tinha de fazer. Descobrir oficialmente — e não por meio da imprensa — quem era o interlocutor de Vorcaro. Como pedir a investigação de um colega sem um mínimo de indícios? Era preciso esperar a Polícia Federal (PF) revelar o destinatário das mensagens para, então, levar o caso ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin.

O que se estranha é a cronologia . Em 6 de março de 2026, Mendonça ao que parece tomou conhecimento de que um perito, em 1° de dezembro de 2025, havia acessado o laudo pericial com dados extraídos do celular de Vorcaro e produzido, três dias depois, os arquivos “Moraes.pdf” e “Toffoli.pdf”. Mandou abrir inquérito e decretou sigilo. Hoje alega que não abriu os arquivos, pois o alvo era o perito, e não esses aquivos.

Somente em 24 de agosto deste ano, indagou da PF quem eram os interlocutores de Vorcaro citados num relatório anterior. No dia 27, a PF respondeu, revelando a identidade de Moraes. Em 1° de setembro, em plena campanha eleitoral, Mendonça tornou público o relatório e o remeteu a Fachin. A pergunta que fica é: por que Mendonça esperou de março a agosto para perguntar oficialmente o nome daqueles com quem Vorcaro conversava? É evidente que precisava da informação, mas por que não perguntou antes?

Embora só quem vive da impunidade queira falar em nulidades, Mendonça tem de provar que não houve intenção eleitoral nas decisões quanto aos sigilos. A pergunta se torna mais necessária diante do inquérito que apura se o candidato Flávio Bolsonaro cometeu crimes de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas ao pedir R$ 130 milhões para produzir a cinebiografia de seu pai. Mendonça instaurou inquérito sigiloso a respeito em 22 de julho, e a providência só veio à tona em 11 de setembro por decisão de Fachin. Por quê? Notícias recentes revelam que também na PF um racha pode ter criado obstáculos às investigações. Seja qual for o motivo da disparidade de tratamento às duas situações, Mendonça deve satisfações à sociedade.

O STF só tem uma saída para recobrar a credibilidade hoje em xeque: primeiro, autorizar a investigação sobre Moraes e, depois, decidir se Mendonça abusou de seu poder ao esconder um procedimento e divulgar o outro. Se, no decorrer das investigações, e com fundamentação, os nomes de outros ministros surgirem ligados a Vorcaro, que sejam investigados a seu tempo.

O caminho será duro e espinhoso. Mas ou o Supremo decide percorrê-lo com coragem, ou a instância responsável por zelar pelo decoro de seus ministros — o Senado — tomará as providências necessárias. É uma exigência do povo brasileiro e da Constituição.

Retrocesso do comércio global terá custo elevado para todo o planeta

Por O Globo

Recuo na globalização poderá reduzir trocas em 29% e PIB mundial em 7% até 2050, segundo estudo da OMC

Até o Brexit e a chegada de Donald Trump à Casa Branca, parecia alucinação cogitar que a globalização sofreria retrocesso. Logo depois da Segunda Guerra, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt) abriu caminho à queda progressiva das barreiras comerciais, foi sucedido por tratados regionais e deu origem nos anos 1990 à Organização Mundial do Comércio (OMC). A adesão à OMC aumentou em 140% as trocas entre seus integrantes. Em 80% dos 166 países, o preço relativo dos produtos caiu, represando a inflação. Economias de renda média e pobres cresceram mais e reduziram a distância para as mais avançadas. A maré do livre-comércio elevou todos os barcos, mas os menores mais que os maiores. Com o tempo, contudo, os perdedores nos países ricos passaram a fazer barulho — e as naus, a fazer água.

Mais que qualquer outro, Trump soube explorar esse sentimento e voltou ao poder disposto a iniciar uma guerra tarifária. A OMC, já enfraquecida, começou a perder relevância. A última edição de seu Relatório do Comércio Mundial tenta descrever as prováveis consequências nas próximas duas décadas do retrocesso na globalização. O documento traça dois cenários. No primeiro, o mundo ficaria dividido em três blocos — ocidental, oriental e não alinhados —, cada um com regras próprias para trocas de produtos e serviços. Fora, não faltariam obstáculos. A queda das exportações globais seria de 18,6% em 2050. O PIB mundial recuaria 5,1%. No segundo cenário, reinaria a pulverização de acordos de livre-comércio. O efeito seria ainda pior: em menos de 25 anos, o PIB global cairia 6,9%, e as vendas externas 26,9%. Nas duas projeções, os países mais pobres seriam os mais afetados.

Opositores do livre-comércio ignoram a lição fundamental de um dos maiores economistas de todos os tempos. No início do século XIX, David Ricardo provou que a especialização a partir de vantagens comparativas é benéfica para todos os países num mercado livre. O comércio não é um jogo de soma zero, em que o ganho de um acarreta perda ao outro. Déficits ou superávits comerciais não equivalem a sucesso ou fracasso. Em cada país, há quem sinta as vantagens da abertura — exportadores, importadores e consumidores —, mas também quem se sinta prejudicado, principalmente os que perdem o emprego. Tais problemas devem ser resolvidos por meio de políticas que nada têm a ver com tarifas, como programas de treinamento e requalificação profissional.

O remédio populista adotado por Trump e seus defensores, já usado no passado, só causa mais sofrimento. O mais provável é que os apoiadores do populismo terão de passar por nova experiência ruim antes de voltar a apoiar um mundo com menos barreiras ao comércio. Se confirmado um dos cenários negativos, a globalização terá sido uma oportunidade perdida. Mas o mundo teria muito a ganhar com a reversão da tendência. Pela projeção da OMC, se a integração comercial voltar a melhorar até 2050, o PIB global cresceria 2,9%, e as exportações 17,9%.

EUA abrem precedente perigoso ao militarizar o espaço

Por Folha de S. Paulo

Expansão do conflito humano para a órbita do planeta é inevitável, mas precisa de regulação

Do GPS ao manejo de campos de batalha, muito depende de satélites que ficariam na linha de fogo de um eventual bangue-bangue cósmico

Quando os soviéticos assombraram o mundo em 1957 com o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik, a principal preocupação americana para além da debacle de propaganda era o emprego militar da novidade assombrosa.

Em meio à paranoia causada pela expansão dos arsenais nucleares, a certeza de que um tira-teima entre o capitalismo e o comunismo seria atômico orientava as decisões das potências.

Dez anos depois, após a Crise dos Mísseis de Cuba em 1962, o tema tornou-se tão urgente que gerou o Tratado do Espaço Sideral.

Nele, Estados Unidos, União Soviética e outros se comprometiam a nunca instalar armas de destruição em massa na órbita terrestre. Só que o texto não se referia a meios convencionais de combate.

Atualmente, há cerca de 600 satélites militares, 250 deles dos EUA. Testes com armamentos —destruição de aparelhos com mísseis lançados da Terra— foram conduzidos por russos, americanos, chineses e indianos.

Tais ensaios não são inócuos. Em 2021, ocupantes da Estação Espacial Internacional buscaram refúgio em naves de escape após entrarem na rota de destroços de um satélite russo explodido por um teste com míssil.

Assim, causou espécie a recente admissão feita pela Força Espacial dos EUA de que o país governado por Donald Trump tem armas em órbita para dissuadir rivais.

Não foram divulgados detalhes, porém especialistas supõem que se trate de sistemas para atacar satélites inimigos. O mandatário republicano já havia anunciado que seu quimérico sistema de defesa Domo Dourado teria componentes espaciais, mas visando mísseis balísticos.

China e Rússia, detentoras das maiores frotas de satélites militares após os EUA, protestaram. Para Pequim, a medida irá acelerar a incipiente corrida espacial bélica. Já Moscou exortou Washington a buscar um regramento.

A chance de isso ocorrer é mínima. Desde seu primeiro mandato, Trump se notabilizou por rasgar os tratados sobre arsenais atômicos. Argumenta, não sem razão, que os diplomas estavam desatualizados ante a evolução tecnológica e a ascensão chinesa, mas não apresenta alternativas.

A seguir a lógica do americano, o texto de 1967 pode ser a próxima vítima, ainda que a China seja signatária. Seja como for, a mera multiplicação de vetores de destruição em órbita é uma ameaça ao modo de vida atual.

Da navegação por GPS em celulares e da telefonia em áreas remotas da Amazônia ao manejo de campos de batalha, muito depende de satélites privados que ficariam na linha de fogo de um eventual bangue-bangue cósmico.

As constelações ao estilo da empresa americana Starlink, de Elon Musk, só crescem: em 2020 havia ao todo 3.300 satélites em órbita; hoje, são 16 mil.

Se a expansão do conflito humano para a órbita do planeta é inevitável dados os interesses militares e econômicos envolvidos, limites seriam desejáveis.

Custos quase invisíveis no crédito público

Por Folha de S. Paulo

Empréstimos em condições favorecidas avançam e chegam a quase R$ 100 bi no Orçamento de 2027

O problema não é a existência do crédito público; o risco está em recorrer a esse expediente sem transparência e avaliação de resultados

Discute-se, corretamente, cada real adicionado ao Orçamento, como no recente caso dos R$ 22,7 bilhões a serem destinados em 2027 ao reajuste do Bolsa Família feito às vésperas da eleição. Já um outro custo para o contribuinte passa quase despercebido: os empréstimos em condições favorecidas com dinheiro dos fundos públicos.

As dotações destinadas a créditos ligados a esses fundos somam R$ 97,9 bilhões na proposta orçamentária para o próximo ano, ante R$ 45,5 bilhões desembolsados até julho deste ano e R$ 36,7 bilhões em 2025.

O Fundo Social, que apoia o Minha Casa, Minha Vida, responde por R$ 40,3 bilhões; o Fundo Clima, por R$ 29,7 bilhões; a infraestrutura social, por R$ 10 bilhões.

São valores expressivos, mas que raramente aparecem nas discussões sobre o tamanho do Estado ou a sustentabilidade fiscal. A razão dessa pouca visibilidade pode até ser técnica, mas suas consequências são políticas.

Quando o Estado faz um pagamento, o gasto pressiona o balanço e disputa espaço com outras prioridades. Quando empresta, o recurso é registrado como operação financeira, sob a premissa de que um dia retornará.

O custo fiscal fica reduzido ao subsídio embutido —a diferença entre a taxa cobrada e o custo de captação do Tesouro. Esse valor raramente ganha destaque, tratado como se fosse despesa financeira, não considerada nas metas e limites orçamentários.

Apesar de não impactar o resultado primário, essas operações contribuem para o aumento da dívida pública e, em consequência, pressionam ainda mais as taxas de juros na economia.

Para uma ideia do impacto na dívida, todos os subsídios associados às operações de crédito por meio de fundos em 2027 somam mais de R$ 20 bilhões para todo o período da concessão.

Não deixaremos que Lula reescreva a História

Por O Estado de S. Paulo

Para Lula, eleger Dirceu seria ‘reparação histórica’. Na História criada pelos petistas, Dirceu é herói e Lula foi ‘absolvido’ dos crimes pelos quais foi condenado. O País não cairá nessa

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer reescrever a História. Andou dizendo por aí que eleger José Dirceu como deputado seria uma “reparação histórica”. Esse embuste não é casual: faz parte do esforço dos petistas para caracterizar como perseguição política, passível de “reparação”, a justa punição que alguns de seus principais líderes receberam por protagonizar os maiores escândalos de corrupção da história brasileira. Nisso inclui-se a versão petista segundo a qual Lula foi “absolvido” dos crimes pelos quais foi condenado no âmbito da Lava Jato. Contudo, no que depender deste jornal, bem como dos brasileiros que conservam alguma memória, nada disso vai prosperar.

Vamos à História real. Dirceu foi cassado pela Câmara e condenado pelo Supremo a mais de dez anos por comprar parlamentares, no infame escândalo do mensalão. Cumpriu só parte da pena e recebeu indulto da então presidente Dilma Rousseff. Lula agora quer vender o mensaleiro como perseguido. Por pouco não cobrou indenizações aos brasileiros. Na História lulista, delinquentes são heróis.

Logo que o escândalo explodiu, em 2005, Lula chegou a balbuciar que o PT precisava pedir desculpas. Ele mesmo incriminou os companheiros, dizendo-se “traído”. Em poucos meses, passou a garantir que “não teve mensalão”, e em 2009 as acusações já tinham se metamorfoseado em “tentativa de golpe”, a “maior armação já feita contra o governo”.

Em 2022, como candidato a presidente, Lula admitiu que houve corrupção na Petrobras, pois era impossível negar as inúmeras confissões e a devolução de bilhões de reais desviados. Ainda assim, a narrativa oficial petista sobre a Lava Jato é de uma conspiração urdida pelos Estados Unidos com magistrados e procuradores brasileiros para destruir a Petrobras. Em 2025, Lula anunciou que “a História vai provar” que os corruptos eram os que diziam haver corrupção na estatal. Segundo Lula, os delinquentes foram os que a investigaram. Com ajuda do ministro Dias Toffoli, o ex-advogado do PT que Lula colocou no Supremo Tribunal Federal (STF), criminosos confessos estão recuperando seu butim.

No mesmo escândalo, Lula sofreu duas condenações (ambas confirmadas pelo TRF4 e uma também pelo STJ, somando dez votos unânimes) a um total de 26 anos de prisão, dos quais cumpriu apenas 580 dias – até que o Supremo anulasse tudo sob o argumento extemporâneo de que a Justiça de Curitiba não tinha a competência que a própria Corte ratificara havia anos. Solto, disputou e venceu a eleição de 2022, sustentando a fraude segundo a qual ele foi “absolvido” pelo STF.

Lula também proclamou Dilma “absolvida”. Depois de encerrada uma ação de improbidade sobre manobras fiscais que nada tinha a ver com o impeachment da presidente, Lula concluiu que sua criatura fora julgada por algo que “não aconteceu” e disse que o Brasil lhe devia “desculpas” e “reparação”. O PT passou anos a chamar de “golpe” uma decisão do Congresso sob rito controlado pelo Supremo. Hoje o STF costuma classificar esse tipo de discurso, se proferido por simpatizantes de Jair Bolsonaro, como “atentado à democracia”. São outros tempos.

Lula não esquece as injustiças que diz ter sofrido e cobra reparações com zelo. Já para as promessas eleitorais abandonadas, dissidentes escoriados, adversários demonizados e seus amigos autocratas, a memória é seletiva. O passado inconveniente costuma ter vida curta. Já o passado útil é submetido a retoques sucessivos até adquirir a forma que convém a Lula no presente.

O PT votou contra grandes marcos civilizatórios da redemocratização, a começar pela própria Constituição, passando pelo Plano Real até a Lei de Responsabilidade Fiscal, sem jamais dar sinal de compunção. Como a culpa pela pior recessão da Nova República foi de Deus e o mundo, exceto do governo petista, Lula nunca achou que deveria se escusar.

É por isso que a “reparação histórica” de que fala o presidente merece ser levada a sério – só que não no sentido pretendido por ele. Se Lula quer acertar as contas da História, convém abrir o livro inteiro. Nele estão as culpas que o petismo terceirizou, as vítimas que transformou em algozes e as desculpas que nunca deu. Lula cobra reparações, mas o Brasil ainda espera que ele pague o que deve. As urnas estão aí para lhe antecipar o troco.

A encruzilhada da IA

Por O Estado de S. Paulo

As próprias empresas do setor alertam que há risco de uma IA incontrolável. O desafio é desacelerar o ritmo de desenvolvimento dessa tecnologia num ambiente extremamente competitivo

Os executivos que disputam a liderança da inteligência artificial (IA) começaram a pedir tempo. Dario Amodei, CEO da Anthropic, defendeu “moderar o ritmo na fronteira”, para que mecanismos de segurança possam acompanhar o avanço das capacidades. Sam Altman, da OpenAI, Demis Hassabis, do Google DeepMind, e Elon Musk, da xAI, também apoiaram algum freio ou supervisão. A súbita convergência chama a atenção precisamente porque vem de quem tem incentivos para acelerar.

Robôs capazes de precipitar catástrofes povoam o imaginário há décadas. Agora a hipótese começou a encontrar confirmação na experiência. Modelos já violaram protocolos em testes. Sistemas também executam autonomamente parte do trabalho para desenvolver a próxima geração de IA. Isso não significa que as máquinas persigam fins próprios nem que uma superinteligência seja iminente. Mas basta constatar que sistemas cada vez mais capazes e autônomos ganham acesso crescente ao mundo para tornar concreta uma pergunta antes tratada como especulação: se surgirem sistemas muito superiores a seus controladores, como conservar o controle?

Uma primeira – e óbvia – linha de defesa é tornar os modelos mais confiáveis: compreender melhor como chegam às decisões, testá-los contra capacidades perigosas e reduzir a chance de que empreguem meios diferentes dos pretendidos. Como nenhuma garantia será perfeita, é preciso limitar as consequências de um erro do sistema. A biossegurança oferece uma analogia útil. Laboratórios não apostam tudo na inocuidade de um organismo; aumentam a contenção conforme o risco. Com IA, isso significa sobretudo não transformar automaticamente maior inteligência em maior poder de atuação – por exemplo, limitando o acesso a redes, dados ou sistemas críticos. Se uma capacidade perigosa avançar mais rápido que as salvaguardas, é prudente adiar seu próximo salto.

Essa prudência tem preço. Testar mais, restringir autonomia ou retardar capacidades pode cobrar velocidade e vantagem competitiva. Uma empresa pode acreditar sinceramente que certo avanço é arriscado e, ao mesmo tempo, temer que o concorrente chegue primeiro. Estados enfrentam o mesmo dilema. Advertir contra a corrida e continuar correndo revela a lógica do jogo. Se a cautela depender de heroísmo unilateral, ela será premiada poucas vezes.

Daí a necessidade de coordenação, com seus próprios riscos. Regras comuns podem impedir que o prudente seja punido, mas também podem proteger incumbentes e dar aos líderes da indústria poder excessivo para definir quem pode competir. O desafio é ainda maior entre Estados. EUA e China podem querer evitar uma catástrofe, mas também querem evitar que o rival alcance uma vantagem decisiva. A experiência da não proliferação nuclear sugere o princípio correto: acordos entre adversários não precisam se apoiar em confiança, mas em verificação. Chips e grandes centros de dados oferecem pontos de controle – embora sejam menos nítidos que o material físsil e sua fiscalização possa expor segredos tecnológicos. Os compromissos precisam ser verificáveis e suficientemente simétricos para não parecer instrumentos para subjugar o rival.

O desafio é inédito e não há receitas prontas. Algumas capacidades talvez exijam padrões mais altos de segurança antes de ganhar autonomia, acesso ou escala. Certos limiares podem justificar desaceleração temporária. O impasse é que os próprios atores capazes de impor esses limites participam da corrida. Governos podem exigir avaliações independentes das empresas, mas também disputam a liderança tecnológica. Acima deles, não existe um árbitro da corrida.

Entre esses desafios, resta um dilema incontornável: se os riscos existenciais estiverem superestimados, excesso de cautela pode atrasar benefícios extraordinários; se as premonições mais extremas estiverem substancialmente corretas, uma imprudência pode não deixar oportunidade para correção. O fato é que uma tecnologia capaz de superar seus controladores – com consequências potencialmente irreversíveis – exige que a humanidade aprenda a não confundir velocidade com destino.

O primeiro teste do novo Fed

Por O Estado de S. Paulo

A alta de juros sob Warsh combina combate à inflação, independência e ambição de reforma

Kevin Warsh levou apenas três reuniões para descobrir quanto vale a independência do Federal Reserve (Fed). Escolhido por Donald Trump sob a expectativa de juros menores, o novo presidente do banco central americano fez o contrário: comandou uma alta de 0,25 ponto, para a faixa de 3,75% a 4%, aprovada por unanimidade. Foi a primeira elevação em três anos. E o primeiro momento em que sua gestão ganhou contornos próprios.

Havia boas razões para agir. A inflação continua acima da meta de 2%, e a inflação subjacente – que exclui alimentos e energia – vinha piorando havia mais de um ano. Ao mesmo tempo, a economia segue forte, com emprego resistente e investimento robusto. O crescimento está longe de sugerir recessão. Parte da alta de preços vem de contingências que o Fed não controla, especialmente o choque do petróleo. Juros não produzem um barril a mais. Mas podem impedir que um choque temporário contamine salários, preços e expectativas. Depois de cinco anos de inflação acima da meta, apostar novamente que ela cederá sozinha seria uma imprudência cara.

Trump tornou a decisão mais difícil – e mais importante. O presidente quer dinheiro barato e não faz segredo disso. Seria mais fácil obtê-lo se sua própria política não ajudasse a encarecer as coisas: tarifas e os impactos da guerra no Oriente Médio alimentam justamente a inflação que impede o Fed de cortar juros. Warsh poderia ter oferecido à Casa Branca o que ela queria pinçando explicações respeitáveis para esperar mais uma reunião. Preferiu o mandato do Fed. Uma decisão não basta para provar uma gestão inteira, mas este primeiro teste de independência teve resposta clara.

Warsh chegou ao cargo falando em “mudança de regime”. Ele criticou a gestão anterior por tolerância excessiva com inflação persistente, confiança demais em modelos e sinalização ao mercado e discricionariedade demais na condução da política. A alta da semana passada é o primeiro gesto que combina com suas ambições. Se a nova gestão pretende recolocar a estabilidade de preços no centro da instituição, começou pelo lugar certo.

Ainda falta saber qual regime ocupará o lugar daquele que Warsh quer desmontar. Ele relativiza conceitos tradicionais, como a taxa neutra, e rejeita a ideia de que seja preciso enfraquecer o emprego para reduzir a inflação. São intuições atraentes, mas não bastam como manual de operação. Um Fed menos preso a modelos ruins será bem-vindo; um Fed guiado apenas pela convicção de seu presidente seria outra forma de discricionariedade.

Esse teste virá cedo. A maioria dos dirigentes do Fed já espera novas altas. Se a inflação resistir, Warsh terá de escolher de novo entre o preço estável e a pressão por crédito, agora sob custos políticos maiores. E o resto do mundo acompanhará: juros americanos mais altos pesam sobre uma dívida federal que já torna cada aperto mais desconfortável e encarecem o capital muito além de Washington.

Warsh começou bem. Mostrou que sabe contrariar o presidente que o nomeou e que leva a inflação a sério. Sua prometida mudança de regime será julgada por um desafio maior: transformar essa firmeza em uma política monetária coerente, capaz de durar quando os aplausos acabarem e a conta dos juros chegar.

O país já percorreu esse caminho no passado recente. Entre 2008 e 2014, a expansão do crédito direcionado foi apresentada como estímulo ao investimento. Parte dos recursos financiou projetos relevantes, outra beneficiou empresas que poderiam ter acesso ao mercado privado.

Deixou-se para a sociedade uma conta gigantesca em subsídios, só reconhecida nos estertores do governo Dilma Rousseff (PT).

O problema não é a existência dos fundos nem do crédito público —em muitos casos, instrumentos legítimos para viabilizar investimentos que o mercado não financiaria. O risco está em recorrer a esse expediente sem as devidas transparência e avaliação de resultados, como se não houvesse custo para o erário.

Dívida aumenta, e prêmio de risco eleva juros cobrados

Por Valor Econômico

Em seus dois primeiros mandatos, o presidente Lula obteve superávits primários em todos os anos de sua gestão, uma lição que resolveu solenemente desprezar agora

O governo central (Tesouro, Banco Central e Previdência) apresentou déficit maior em agosto, tanto em relação ao mesmo mês de 2025 como no acumulado dos oito meses do ano, estima o Ipea. Não há folgas no orçamento, cuja execução para a consecução da meta fiscal de 2027 se tornará mais difícil, não só pelo aumento de despesas previsto, acrescidas agora do reajuste de 15% nos pagamentos do Bolsa Família, como pela tendência que se esboça de diminuição do ritmo de crescimento das receitas, com o esfriamento esperado da economia no segundo semestre e no ano que vem. O aumento rápido da dívida bruta é um dos fatores determinantes para que os juros brasileiros sejam tão maiores que os de seus pares: o prêmio de risco cobrado pelos investidores para carregar dívida oficial no médio e no longo prazos explica boa parte da curva de juros elevada dos próximos anos, mostra estudo da Instituição Fiscal Independente do Senado (IFI).

Com base nos dados do Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira), o Ipea indicou que o governo central teve déficit primário de R$ 14,4 bilhões no mês passado, 2,9% superior ao do mesmo período do ano passado, e, no acumulado, 8,1% maior que de janeiro a agosto de 2025: R$ 94,5 bilhões e R$ 87,4 bilhões, respectivamente. "No acumulado do ano, a trajetória segue marcada pela expansão real das despesas, especialmente nas rubricas previdenciárias e nas despesas sujeitas à programação financeira", aponta a carta de conjuntura do Ipea. A conta da evolução em 12 meses também mostra piora, de R$ 27,5 bilhões para R$ 69,5 bilhões. Nada disso, porém, impede o governo de dar por cumprida a meta do regime fiscal, de 0,25% do PIB, após atingir seu piso (zero). Há permissão de abatimento de R$ 62,8 bilhões para a meta, e o Prisma Fiscal, que reúne estimativas do setor privado sobre os resultados fiscais, indica que a mediana para o rombo do ano feita em setembro é de R$ 52,7 bilhões.

As receitas reais, acima da inflação, continuaram até o mês passado com ótimo desempenho, avançando 5,7% no ano. Mas as despesas continuam fortes. No mesmo período, cresceram 5,7%, ou R$ 96,7 bilhões, em compasso com a arrecadação, mas nos 12 meses encerrados em agosto a superam com folga. Sua variação, de 5,6%, ultrapassa a das receitas líquidas, de 3,9%. O governo antecipou o pagamento de precatórios para março este ano, quando em 2025 eles foram pagos em julho. Esses desvios saíram da conta agora. Em março, as despesas cresceram 49,2% com isso, mas em julho, sem precatórios, caíram 20,7%.

Um dado preocupante é que se esboça perda progressiva de ritmo real de avanço da arrecadação a partir de julho, enquanto a curva das despesas não tem a mesma redução. O esfriamento da economia poderá se mostrar com mais clareza nos próximos números da arrecadação e estão particularmente defasados nas projeções do orçamento de 2027, por estimativas de crescimento da economia muito otimistas. O governo espera um PIB 2,5% maior, enquanto as estimativas privadas não ultrapassam 1,5%, com viés de baixa.

A dívida bruta do governo atingiu 82,5% do PIB em julho. Mesmo com a Selic em queda, o governo tem pagado cada vez mais para se financiar. À medida que o regime fiscal não consegue reduzir a dívida bruta, a conta dos juros reais pagos para que os investidores mantenham títulos em suas mãos sobe além da Selic, com aumento do prêmio de risco. "É o prêmio - não a expectativa - que concentra a maior parte da volatilidade recente da taxa longa e que se mostra mais sensível ao quadro fiscal, o que desloca o diagnóstico: o custo elevado de financiamento de longo prazo do país não decorre apenas da condução corrente da política monetária, mas de uma desconfiança estrutural que essa política, isoladamente, não tem instrumento para resolver", aponta relatório da IFI.

As expectativas de inflação indicam avaliação sobre a eficácia da condução da política monetária sobre a inflação e o nível de atividades, o prêmio de risco reflete o grau de incerteza associado a carregar os papéis da dívida por prazos longos. O aumento rápido da dívida bruta elevou o prêmio a 3,16 pontos percentuais em 12 meses até agosto, acima dos 2,41 pontos da crise fiscal no governo de Dilma Rousseff (2014-2016) e próxima aos 3,48 pontos durante a pandemia. Como aponta a IFI, quanto maior o prazo do título, maior a relevância dada à trajetória futura do endividamento e à capacidade de geração de resultados primários.

O presidente Lula já conviveu com taxas reais de juros muito elevadas. No período de 2000 a 2009, quando governou por 8 anos, a taxa média real foi de 9%, em parte devido à disparada do juro doméstico diante da desvalorização do real no governo de Fernando Henrique Cardoso. A taxa média real de 2022 a 2025, segundo a IFI, foi de 8%. Em seus dois primeiros mandatos, porém, o presidente Lula obteve superávits primários em todos os anos de sua gestão, uma lição que resolveu solenemente desprezar agora, para colecionar apenas déficits e juros estratosféricos.

O socorro exausto

Por Correio Braziliense

Esgotamento de médicos de UTI não é novidade para quem trabalha no setor

A medicina intensiva existe para cuidar de quem está no limite. O problema é que, cada vez mais, quem cuida também está. O esgotamento de médicos de UTI não é novidade para quem trabalha no setor. É conversado nos corredores, relatado em congressos e documentado em estudos há anos. O que falta, sistematicamente, é que alguém com poder de agir trate o problema como o que ele é: uma crise de gestão, não uma fragilidade individual.

O Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, conduzido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e divulgado na última quinta-feira, ouviu 2.338 profissionais em 26 estados e no Distrito Federal. O levantamento revela o tamanho da falência estrutural. Os dados são diretos: 48,5% dos médicos que atuam em Unidades de Terapia Intensiva apresentam alto nível de esgotamento emocional. Outros 31,2% relatam nível moderado. Somados, quatro em cada cinco intensivistas requerem atenção à saúde mental. Apenas 20,3% estão em situação de baixo desgaste.

Os números sobre despersonalização aprofundam o diagnóstico. Pelo menos 45,5% dos intensivistas relatam algum grau de distanciamento afetivo em relação a pacientes e colegas, um comportamento que, segundo a própria Amib, compromete a qualidade do atendimento e se contrapõe à humanização do cuidado. Quando 16% reportam níveis elevados desse distanciamento, a pergunta deixa de ser sobre o bem-estar do médico e passa a ser sobre a segurança do paciente.

O estudo aponta, ainda, um dado revelador sobre especialização: quanto maior o grau de preparo do médico para o ambiente intensivo, menor o esgotamento. A disparidade entre os sistemas público e privado completa o quadro. O médico do SUS enfrenta remuneração menor, mais vínculos empregatícios e infraestrutura mais precária do que o colega da rede suplementar. O resultado é previsível: maior estresse, maior desgaste e menor capacidade de sustentação a longo prazo.

Durante anos, administrações hospitalares e gestores governamentais trataram o sofrimento emocional das equipes médicas como contingência inevitável da carreira. O estudo da Amib e do CFM deixa claro que essa postura tem consequências concretas sobre a qualidade do atendimento. Equipamentos modernos e leitos monitorados perdem eficácia se quem os opera estiver no limite do colapso físico e psicológico.

A reversão desse quadro exige medidas objetivas. Hospitais públicos e privados precisam reestruturar rotinas de trabalho, coibir jornadas excessivas e garantir apoio psicológico contínuo às equipes. Ao poder público cabe valorizar as carreiras médicas no SUS, ampliar residências de qualidade em medicina intensiva e acabar com a prática de escalar generalistas para UTIs por falta de especialistas. A Amib é direta em sua recomendação: a saúde mental dos profissionais não é pauta secundária. É questão prioritária para políticas públicas. Os dados da pesquisa tornam essa afirmação impossível de ignorar.

Violência de gênero exige políticas públicas de prevenção a longo prazo

Por O Povo (CE)

Entre janeiro e agosto de 2026, foram registrados 27 feminicídios em território cearense, entre tantos outros casos de tentativas de assassinato violentas. Estatisticamente, houve uma queda de 20,6% em feminicídios em relação ao mesmo período em 2025 (34 casos). Na vida real, o aceitável é zero

Os candidatos ao governo do Ceará compartilham, basicamente, das mesmas propostas para o combate à violência contra a mulher. Há foco claro na ampliação das Casas da Mulher Cearense, equipamento público de acolhimento, proteção e atendimento humanizado e integrado de mulheres em situação de violência doméstica e familiar; no reforço do patrulhamento policial e no cumprimento de medidas protetivas; e no investimento na formação de mulheres para autonomia financeira, seja por facilitação de vias de crédito para o empreendedorismo, seja na oferta de cursos profissionalizantes; e na priorização de mulheres vítimas e chefes de família em políticas públicas de distribuição de renda.

Essas são medidas urgentes para responder ao aumento da violência contra a mulher no Ceará. Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), entre janeiro e junho de 2026, o Estado somou 13.210 registros de crimes contra a mulher. Entre janeiro e agosto de 2026, foram registrados 27 feminicídios em território cearense, entre tantos outros casos de tentativas de assassinato violentas. Estatisticamente, houve uma queda de 20,6% em feminicídios em relação ao mesmo período em 2025 (34 casos). Na vida real, o aceitável é zero.

É por isso que é igualmente necessário investir em ações de base que previnam a violência em si. A prevenção à misoginia e ao feminicídio deve levar em consideração projetos que falem com os homens e possibilitem uma mudança de cultura social, de forma que a violência seja compreendida como um sintoma de um cenário de percepção de gênero complexo e que tem centralidade na masculinidade tóxica.

Isso implica pensar em programas educativos sobre gênero que contemplem de crianças a adultos; em fortalecer e ampliar serviços de apoio psicológico, com ações de propaganda que desfaçam o tabu em torno da saúde mental masculina e estimulem a adesão deles à terapia; em políticas de regulação das redes, nos quais conteúdos de ódio contra as mulheres, com discursos violentos, degradantes e de retirada de direitos sejam imediatamente excluídos e impliquem em punição exemplar; entre tantas outras ações que desfaçam as intrincadas amarras da masculinidade tóxica e resultem, a longo prazo, em homens adultos saudáveis e equilibrados. Esse é o ponto chave para combater a violência contra as mulheres.

Os programas dos candidatos parecem ter compreendido bem a urgência do fortalecimento da rede de apoio à vítima, desde o atendimento em delegacias especializadas até a autonomia financeira. Essas medidas atuam no sintoma agudo, refletido na grave estatística de aumento da violência contra a mulher e na persistência dos feminicídios no Ceará. No entanto, faltam propostas com a perspectiva multifatorial do problema crônico: o combate à violência de gênero precisa não apenas impedir que mais mulheres morram, mas principalmente que os homens parem de vê-las como alvos. 

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