Mendonça também deve explicações
Por O Globo
E a razão para isso não tem nada a ver com o
pedido para investigar Moraes
O Brasil não tem mais dúvidas de que o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado. Há contra ele mais de cinco dezenas de mensagens em que Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master, pede ajuda e conselhos. Justamente a ele, cuja mulher assinou um contrato, editado pelo próprio ministro, de R$ 130 milhões para “consultoria estratégica” diante de órgãos públicos fiscalizadores. Ainda não se sabe se Moraes é culpado, mas apenas uma investigação poderá levar a um processo judicial e, eventualmente, a julgamento. Para se defender, ele terá a seu dispor todas as garantias que nosso ordenamento jurídico prevê.
A análise dos fatos demonstra que o ministro
André Mendonça fez o que tinha de fazer. Descobrir oficialmente — e não por
meio da imprensa — quem era o interlocutor de Vorcaro. Como pedir a
investigação de um colega sem um mínimo de indícios? Era preciso esperar a
Polícia Federal (PF) revelar o destinatário das mensagens para, então, levar o
caso ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin.
O que se estranha é a cronologia . Em 6 de
março de 2026, Mendonça ao que parece tomou conhecimento de que um perito, em
1° de dezembro de 2025, havia acessado o laudo pericial com dados extraídos do
celular de Vorcaro e produzido, três dias depois, os arquivos “Moraes.pdf” e
“Toffoli.pdf”. Mandou abrir inquérito e decretou sigilo. Hoje alega que não
abriu os arquivos, pois o alvo era o perito, e não esses aquivos.
Somente em 24 de agosto deste ano, indagou da
PF quem eram os interlocutores de Vorcaro citados num relatório anterior. No
dia 27, a PF respondeu, revelando a identidade de Moraes. Em 1° de setembro, em
plena campanha eleitoral, Mendonça tornou público o relatório e o remeteu a
Fachin. A pergunta que fica é: por que Mendonça esperou de março a agosto para
perguntar oficialmente o nome daqueles com quem Vorcaro conversava? É evidente
que precisava da informação, mas por que não perguntou antes?
Embora só quem vive da impunidade queira
falar em nulidades, Mendonça tem de provar que não houve intenção eleitoral nas
decisões quanto aos sigilos. A pergunta se torna mais necessária diante do
inquérito que apura se o candidato Flávio Bolsonaro cometeu crimes de lavagem
de dinheiro, corrupção e evasão de divisas ao pedir R$ 130 milhões para
produzir a cinebiografia de seu pai. Mendonça instaurou inquérito sigiloso a
respeito em 22 de julho, e a providência só veio à tona em 11 de setembro por
decisão de Fachin. Por quê? Notícias recentes revelam que também na PF um racha
pode ter criado obstáculos às investigações. Seja qual for o motivo da
disparidade de tratamento às duas situações, Mendonça deve satisfações à
sociedade.
O STF só tem uma saída para recobrar a
credibilidade hoje em xeque: primeiro, autorizar a investigação sobre Moraes e,
depois, decidir se Mendonça abusou de seu poder ao esconder um procedimento e
divulgar o outro. Se, no decorrer das investigações, e com fundamentação, os
nomes de outros ministros surgirem ligados a Vorcaro, que sejam investigados a
seu tempo.
O caminho será duro e espinhoso. Mas ou o
Supremo decide percorrê-lo com coragem, ou a instância responsável por zelar
pelo decoro de seus ministros — o Senado — tomará as providências necessárias.
É uma exigência do povo brasileiro e da Constituição.
Retrocesso do comércio global terá custo
elevado para todo o planeta
Por O Globo
Recuo na globalização poderá reduzir trocas
em 29% e PIB mundial em 7% até 2050, segundo estudo da OMC
Até o Brexit e a chegada de Donald Trump à
Casa Branca, parecia alucinação cogitar que a globalização sofreria retrocesso.
Logo depois da Segunda Guerra, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt)
abriu caminho à queda progressiva das barreiras comerciais, foi sucedido por
tratados regionais e deu origem nos anos 1990 à Organização Mundial do Comércio
(OMC). A adesão à OMC aumentou em 140% as trocas entre seus integrantes. Em 80%
dos 166 países, o preço relativo dos produtos caiu, represando a inflação.
Economias de renda média e pobres cresceram mais e reduziram a distância para
as mais avançadas. A maré do livre-comércio elevou todos os barcos, mas os
menores mais que os maiores. Com o tempo, contudo, os perdedores nos países
ricos passaram a fazer barulho — e as naus, a fazer água.
Mais que qualquer outro, Trump soube explorar
esse sentimento e voltou ao poder disposto a iniciar uma guerra tarifária. A
OMC, já enfraquecida, começou a perder relevância. A última edição de seu
Relatório do Comércio Mundial tenta descrever as prováveis consequências nas
próximas duas décadas do retrocesso na globalização. O documento traça dois
cenários. No primeiro, o mundo ficaria dividido em três blocos — ocidental,
oriental e não alinhados —, cada um com regras próprias para trocas de produtos
e serviços. Fora, não faltariam obstáculos. A queda das exportações globais
seria de 18,6% em 2050. O PIB mundial recuaria 5,1%. No segundo cenário,
reinaria a pulverização de acordos de livre-comércio. O efeito seria ainda
pior: em menos de 25 anos, o PIB global cairia 6,9%, e as vendas externas
26,9%. Nas duas projeções, os países mais pobres seriam os mais afetados.
Opositores do livre-comércio ignoram a lição
fundamental de um dos maiores economistas de todos os tempos. No início do
século XIX, David Ricardo provou que a especialização a partir de vantagens
comparativas é benéfica para todos os países num mercado livre. O comércio não
é um jogo de soma zero, em que o ganho de um acarreta perda ao outro. Déficits
ou superávits comerciais não equivalem a sucesso ou fracasso. Em cada país, há
quem sinta as vantagens da abertura — exportadores, importadores e consumidores
—, mas também quem se sinta prejudicado, principalmente os que perdem o
emprego. Tais problemas devem ser resolvidos por meio de políticas que nada têm
a ver com tarifas, como programas de treinamento e requalificação profissional.
O remédio populista adotado por Trump e seus defensores, já usado no passado, só causa mais sofrimento. O mais provável é que os apoiadores do populismo terão de passar por nova experiência ruim antes de voltar a apoiar um mundo com menos barreiras ao comércio. Se confirmado um dos cenários negativos, a globalização terá sido uma oportunidade perdida. Mas o mundo teria muito a ganhar com a reversão da tendência. Pela projeção da OMC, se a integração comercial voltar a melhorar até 2050, o PIB global cresceria 2,9%, e as exportações 17,9%.
EUA abrem precedente perigoso ao militarizar
o espaço
Por Folha de S. Paulo
Expansão do conflito humano para a órbita do
planeta é inevitável, mas precisa de regulação
Do GPS ao manejo de campos de batalha, muito
depende de satélites que ficariam na linha de fogo de um eventual bangue-bangue
cósmico
Quando os soviéticos assombraram o mundo em
1957 com o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik, a principal
preocupação americana para além da
debacle de propaganda era o emprego militar da novidade assombrosa.
Em meio à paranoia causada pela expansão dos
arsenais nucleares, a certeza de que um tira-teima entre o capitalismo e o
comunismo seria atômico orientava as decisões das potências.
Dez anos depois, após a Crise dos Mísseis de
Cuba em 1962, o tema tornou-se tão urgente que gerou o Tratado do Espaço
Sideral.
Nele, Estados
Unidos, União Soviética e outros se comprometiam a nunca instalar
armas de destruição em massa na órbita terrestre. Só que o texto não se referia
a meios convencionais de combate.
Atualmente, há cerca de 600 satélites
militares, 250 deles dos EUA. Testes com armamentos —destruição de aparelhos
com mísseis lançados da Terra— foram conduzidos por russos, americanos,
chineses e indianos.
Tais ensaios não são inócuos. Em 2021,
ocupantes da Estação Espacial Internacional buscaram refúgio em naves de escape
após entrarem na rota de destroços de um satélite russo explodido por um teste
com míssil.
Assim, causou espécie a recente
admissão feita pela Força Espacial dos EUA de que o país governado
por Donald Trump
tem armas em órbita para dissuadir rivais.
Não foram divulgados detalhes, porém especialistas
supõem que se trate de sistemas para atacar satélites inimigos. O mandatário
republicano já havia anunciado que seu quimérico sistema de defesa Domo Dourado
teria componentes espaciais, mas visando mísseis balísticos.
China
e Rússia,
detentoras das maiores frotas de satélites militares após os EUA, protestaram.
Para Pequim, a medida irá acelerar a
incipiente corrida espacial bélica. Já Moscou
exortou Washington a buscar um regramento.
A chance de isso ocorrer é mínima. Desde seu
primeiro mandato, Trump se notabilizou por rasgar os tratados sobre arsenais
atômicos. Argumenta, não sem razão, que os diplomas estavam desatualizados ante
a evolução tecnológica e a ascensão chinesa, mas não apresenta alternativas.
A seguir a lógica do americano, o texto de
1967 pode ser a próxima vítima, ainda que a China seja signatária. Seja como
for, a mera multiplicação de vetores de destruição em órbita é uma ameaça ao
modo de vida atual.
Da navegação por GPS em celulares e da telefonia
em áreas remotas da Amazônia ao manejo de campos de batalha, muito depende de
satélites privados que ficariam na linha de fogo de um eventual bangue-bangue
cósmico.
As constelações ao estilo da empresa
americana Starlink, de Elon Musk,
só crescem: em 2020 havia ao todo 3.300 satélites em órbita; hoje, são 16 mil.
Se a expansão do conflito humano para a
órbita do planeta é inevitável dados os interesses militares e econômicos envolvidos,
limites seriam desejáveis.
Custos quase invisíveis no crédito público
Por Folha de S. Paulo
Empréstimos em condições favorecidas avançam
e chegam a quase R$ 100 bi no Orçamento de 2027
O problema não é a existência do crédito
público; o risco está em recorrer a esse expediente sem transparência e
avaliação de resultados
Discute-se, corretamente, cada real
adicionado ao Orçamento, como no recente caso dos R$ 22,7 bilhões a serem
destinados em 2027 ao reajuste do Bolsa Família
feito às
vésperas da eleição. Já um outro custo para o contribuinte passa
quase despercebido: os empréstimos em condições favorecidas com dinheiro dos
fundos públicos.
As dotações destinadas a créditos ligados a
esses fundos somam R$
97,9 bilhões na proposta orçamentária para o próximo ano, ante R$
45,5 bilhões desembolsados até julho deste ano e R$ 36,7 bilhões em 2025.
O Fundo Social, que apoia o Minha Casa, Minha
Vida, responde por R$ 40,3 bilhões; o Fundo Clima, por R$ 29,7 bilhões; a
infraestrutura social, por R$ 10 bilhões.
São valores expressivos, mas que raramente
aparecem nas discussões sobre o tamanho do Estado ou a sustentabilidade fiscal.
A razão dessa pouca visibilidade pode até ser técnica, mas suas consequências são
políticas.
Quando o Estado faz um pagamento, o gasto
pressiona o balanço e disputa espaço com outras prioridades. Quando empresta, o
recurso é registrado como operação financeira, sob a premissa de que um dia
retornará.
O custo fiscal fica reduzido ao subsídio
embutido —a diferença entre a taxa cobrada e o custo de captação do Tesouro.
Esse valor raramente ganha destaque, tratado como se fosse despesa financeira,
não considerada nas metas e limites orçamentários.
Apesar de não impactar o resultado primário,
essas operações contribuem para o aumento da dívida pública e, em consequência,
pressionam ainda mais as taxas de juros
na economia.
Para uma ideia do impacto na dívida, todos os subsídios associados às operações de crédito por meio de fundos em 2027 somam mais de R$ 20 bilhões para todo o período da concessão.
Não deixaremos que Lula reescreva a História
Por O Estado de S. Paulo
Para Lula, eleger Dirceu seria ‘reparação
histórica’. Na História criada pelos petistas, Dirceu é herói e Lula foi
‘absolvido’ dos crimes pelos quais foi condenado. O País não cairá nessa
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer
reescrever a História. Andou dizendo por aí que eleger José Dirceu como
deputado seria uma “reparação histórica”. Esse embuste não é casual: faz parte
do esforço dos petistas para caracterizar como perseguição política, passível
de “reparação”, a justa punição que alguns de seus principais líderes receberam
por protagonizar os maiores escândalos de corrupção da história brasileira.
Nisso inclui-se a versão petista segundo a qual Lula foi “absolvido” dos crimes
pelos quais foi condenado no âmbito da Lava Jato. Contudo, no que depender
deste jornal, bem como dos brasileiros que conservam alguma memória, nada disso
vai prosperar.
Vamos à História real. Dirceu foi cassado
pela Câmara e condenado pelo Supremo a mais de dez anos por comprar
parlamentares, no infame escândalo do mensalão. Cumpriu só parte da pena e
recebeu indulto da então presidente Dilma Rousseff. Lula agora quer vender o
mensaleiro como perseguido. Por pouco não cobrou indenizações aos brasileiros.
Na História lulista, delinquentes são heróis.
Logo que o escândalo explodiu, em 2005, Lula
chegou a balbuciar que o PT precisava pedir desculpas. Ele mesmo incriminou os
companheiros, dizendo-se “traído”. Em poucos meses, passou a garantir que “não
teve mensalão”, e em 2009 as acusações já tinham se metamorfoseado em
“tentativa de golpe”, a “maior armação já feita contra o governo”.
Em 2022, como candidato a presidente, Lula
admitiu que houve corrupção na Petrobras, pois era impossível negar as inúmeras
confissões e a devolução de bilhões de reais desviados. Ainda assim, a
narrativa oficial petista sobre a Lava Jato é de uma conspiração urdida pelos
Estados Unidos com magistrados e procuradores brasileiros para destruir a
Petrobras. Em 2025, Lula anunciou que “a História vai provar” que os corruptos
eram os que diziam haver corrupção na estatal. Segundo Lula, os delinquentes
foram os que a investigaram. Com ajuda do ministro Dias Toffoli, o ex-advogado
do PT que Lula colocou no Supremo Tribunal Federal (STF), criminosos confessos
estão recuperando seu butim.
No mesmo escândalo, Lula sofreu duas
condenações (ambas confirmadas pelo TRF4 e uma também pelo STJ, somando dez
votos unânimes) a um total de 26 anos de prisão, dos quais cumpriu apenas 580
dias – até que o Supremo anulasse tudo sob o argumento extemporâneo de que a
Justiça de Curitiba não tinha a competência que a própria Corte ratificara
havia anos. Solto, disputou e venceu a eleição de 2022, sustentando a fraude
segundo a qual ele foi “absolvido” pelo STF.
Lula também proclamou Dilma “absolvida”.
Depois de encerrada uma ação de improbidade sobre manobras fiscais que nada
tinha a ver com o impeachment da presidente, Lula concluiu que sua criatura
fora julgada por algo que “não aconteceu” e disse que o Brasil lhe devia
“desculpas” e “reparação”. O PT passou anos a chamar de “golpe” uma decisão do
Congresso sob rito controlado pelo Supremo. Hoje o STF costuma classificar esse
tipo de discurso, se proferido por simpatizantes de Jair Bolsonaro, como
“atentado à democracia”. São outros tempos.
Lula não esquece as injustiças que diz ter
sofrido e cobra reparações com zelo. Já para as promessas eleitorais
abandonadas, dissidentes escoriados, adversários demonizados e seus amigos
autocratas, a memória é seletiva. O passado inconveniente costuma ter vida
curta. Já o passado útil é submetido a retoques sucessivos até adquirir a forma
que convém a Lula no presente.
O PT votou contra grandes marcos
civilizatórios da redemocratização, a começar pela própria Constituição, passando
pelo Plano Real até a Lei de Responsabilidade Fiscal, sem jamais dar sinal de
compunção. Como a culpa pela pior recessão da Nova República foi de Deus e o
mundo, exceto do governo petista, Lula nunca achou que deveria se escusar.
É por isso que a “reparação histórica” de que
fala o presidente merece ser levada a sério – só que não no sentido pretendido
por ele. Se Lula quer acertar as contas da História, convém abrir o livro
inteiro. Nele estão as culpas que o petismo terceirizou, as vítimas que transformou
em algozes e as desculpas que nunca deu. Lula cobra reparações, mas o Brasil
ainda espera que ele pague o que deve. As urnas estão aí para lhe antecipar o
troco.
A encruzilhada da IA
Por O Estado de S. Paulo
As próprias empresas do setor alertam que há
risco de uma IA incontrolável. O desafio é desacelerar o ritmo de
desenvolvimento dessa tecnologia num ambiente extremamente competitivo
Os executivos que disputam a liderança da
inteligência artificial (IA) começaram a pedir tempo. Dario Amodei, CEO da
Anthropic, defendeu “moderar o ritmo na fronteira”, para que mecanismos de
segurança possam acompanhar o avanço das capacidades. Sam Altman, da OpenAI,
Demis Hassabis, do Google DeepMind, e Elon Musk, da xAI, também apoiaram algum
freio ou supervisão. A súbita convergência chama a atenção precisamente porque
vem de quem tem incentivos para acelerar.
Robôs capazes de precipitar catástrofes povoam
o imaginário há décadas. Agora a hipótese começou a encontrar confirmação na
experiência. Modelos já violaram protocolos em testes. Sistemas também executam
autonomamente parte do trabalho para desenvolver a próxima geração de IA. Isso
não significa que as máquinas persigam fins próprios nem que uma
superinteligência seja iminente. Mas basta constatar que sistemas cada vez mais
capazes e autônomos ganham acesso crescente ao mundo para tornar concreta uma
pergunta antes tratada como especulação: se surgirem sistemas muito superiores
a seus controladores, como conservar o controle?
Uma primeira – e óbvia – linha de defesa é
tornar os modelos mais confiáveis: compreender melhor como chegam às decisões,
testá-los contra capacidades perigosas e reduzir a chance de que empreguem
meios diferentes dos pretendidos. Como nenhuma garantia será perfeita, é
preciso limitar as consequências de um erro do sistema. A biossegurança oferece
uma analogia útil. Laboratórios não apostam tudo na inocuidade de um organismo;
aumentam a contenção conforme o risco. Com IA, isso significa sobretudo não
transformar automaticamente maior inteligência em maior poder de atuação – por
exemplo, limitando o acesso a redes, dados ou sistemas críticos. Se uma
capacidade perigosa avançar mais rápido que as salvaguardas, é prudente adiar
seu próximo salto.
Essa prudência tem preço. Testar mais,
restringir autonomia ou retardar capacidades pode cobrar velocidade e vantagem
competitiva. Uma empresa pode acreditar sinceramente que certo avanço é arriscado
e, ao mesmo tempo, temer que o concorrente chegue primeiro. Estados enfrentam o
mesmo dilema. Advertir contra a corrida e continuar correndo revela a lógica do
jogo. Se a cautela depender de heroísmo unilateral, ela será premiada poucas
vezes.
Daí a necessidade de coordenação, com seus
próprios riscos. Regras comuns podem impedir que o prudente seja punido, mas
também podem proteger incumbentes e dar aos líderes da indústria poder
excessivo para definir quem pode competir. O desafio é ainda maior entre
Estados. EUA e China podem querer evitar uma catástrofe, mas também querem
evitar que o rival alcance uma vantagem decisiva. A experiência da não
proliferação nuclear sugere o princípio correto: acordos entre adversários não
precisam se apoiar em confiança, mas em verificação. Chips e grandes centros de
dados oferecem pontos de controle – embora sejam menos nítidos que o material
físsil e sua fiscalização possa expor segredos tecnológicos. Os compromissos
precisam ser verificáveis e suficientemente simétricos para não parecer
instrumentos para subjugar o rival.
O desafio é inédito e não há receitas
prontas. Algumas capacidades talvez exijam padrões mais altos de segurança
antes de ganhar autonomia, acesso ou escala. Certos limiares podem justificar
desaceleração temporária. O impasse é que os próprios atores capazes de impor
esses limites participam da corrida. Governos podem exigir avaliações
independentes das empresas, mas também disputam a liderança tecnológica. Acima
deles, não existe um árbitro da corrida.
Entre esses desafios, resta um dilema
incontornável: se os riscos existenciais estiverem superestimados, excesso de
cautela pode atrasar benefícios extraordinários; se as premonições mais
extremas estiverem substancialmente corretas, uma imprudência pode não deixar
oportunidade para correção. O fato é que uma tecnologia capaz de superar seus
controladores – com consequências potencialmente irreversíveis – exige que a
humanidade aprenda a não confundir velocidade com destino.
O primeiro teste do novo Fed
Por O Estado de S. Paulo
A alta de juros sob Warsh combina combate à
inflação, independência e ambição de reforma
Kevin Warsh levou apenas três reuniões para
descobrir quanto vale a independência do Federal Reserve (Fed). Escolhido por
Donald Trump sob a expectativa de juros menores, o novo presidente do banco
central americano fez o contrário: comandou uma alta de 0,25 ponto, para a
faixa de 3,75% a 4%, aprovada por unanimidade. Foi a primeira elevação em três
anos. E o primeiro momento em que sua gestão ganhou contornos próprios.
Havia boas razões para agir. A inflação
continua acima da meta de 2%, e a inflação subjacente – que exclui alimentos e
energia – vinha piorando havia mais de um ano. Ao mesmo tempo, a economia segue
forte, com emprego resistente e investimento robusto. O crescimento está longe
de sugerir recessão. Parte da alta de preços vem de contingências que o Fed não
controla, especialmente o choque do petróleo. Juros não produzem um barril a
mais. Mas podem impedir que um choque temporário contamine salários, preços e
expectativas. Depois de cinco anos de inflação acima da meta, apostar novamente
que ela cederá sozinha seria uma imprudência cara.
Trump tornou a decisão mais difícil – e mais
importante. O presidente quer dinheiro barato e não faz segredo disso. Seria
mais fácil obtê-lo se sua própria política não ajudasse a encarecer as coisas:
tarifas e os impactos da guerra no Oriente Médio alimentam justamente a
inflação que impede o Fed de cortar juros. Warsh poderia ter oferecido à Casa
Branca o que ela queria pinçando explicações respeitáveis para esperar mais uma
reunião. Preferiu o mandato do Fed. Uma decisão não basta para provar uma
gestão inteira, mas este primeiro teste de independência teve resposta clara.
Warsh chegou ao cargo falando em “mudança de
regime”. Ele criticou a gestão anterior por tolerância excessiva com inflação
persistente, confiança demais em modelos e sinalização ao mercado e
discricionariedade demais na condução da política. A alta da semana passada é o
primeiro gesto que combina com suas ambições. Se a nova gestão pretende
recolocar a estabilidade de preços no centro da instituição, começou pelo lugar
certo.
Ainda falta saber qual regime ocupará o lugar
daquele que Warsh quer desmontar. Ele relativiza conceitos tradicionais, como a
taxa neutra, e rejeita a ideia de que seja preciso enfraquecer o emprego para
reduzir a inflação. São intuições atraentes, mas não bastam como manual de
operação. Um Fed menos preso a modelos ruins será bem-vindo; um Fed guiado
apenas pela convicção de seu presidente seria outra forma de
discricionariedade.
Esse teste virá cedo. A maioria dos dirigentes
do Fed já espera novas altas. Se a inflação resistir, Warsh terá de escolher de
novo entre o preço estável e a pressão por crédito, agora sob custos políticos
maiores. E o resto do mundo acompanhará: juros americanos mais altos pesam
sobre uma dívida federal que já torna cada aperto mais desconfortável e
encarecem o capital muito além de Washington.
Warsh começou bem. Mostrou que sabe contrariar o presidente que o nomeou e que leva a inflação a sério. Sua prometida mudança de regime será julgada por um desafio maior: transformar essa firmeza em uma política monetária coerente, capaz de durar quando os aplausos acabarem e a conta dos juros chegar.
O país já percorreu esse caminho no passado
recente. Entre 2008 e 2014, a expansão do crédito direcionado foi apresentada
como estímulo ao investimento. Parte dos recursos financiou projetos
relevantes, outra beneficiou empresas que poderiam ter acesso ao mercado
privado.
Deixou-se para a sociedade uma conta gigantesca
em subsídios, só reconhecida nos estertores do governo Dilma
Rousseff (PT).
O problema não é a existência dos fundos nem do crédito público —em muitos casos, instrumentos legítimos para viabilizar investimentos que o mercado não financiaria. O risco está em recorrer a esse expediente sem as devidas transparência e avaliação de resultados, como se não houvesse custo para o erário.
Dívida aumenta, e prêmio de risco eleva juros
cobrados
Por Valor Econômico
Em seus dois primeiros mandatos, o presidente Lula obteve superávits primários em todos os anos de sua gestão, uma lição que resolveu solenemente desprezar agora
O governo central (Tesouro, Banco Central e
Previdência) apresentou déficit maior em agosto, tanto em relação ao mesmo mês
de 2025 como no acumulado dos oito meses do ano, estima o Ipea. Não há folgas
no orçamento, cuja execução para a consecução da meta fiscal de 2027 se tornará
mais difícil, não só pelo aumento de despesas previsto, acrescidas agora do
reajuste de 15% nos pagamentos do Bolsa Família, como pela tendência que se
esboça de diminuição do ritmo de crescimento das receitas, com o esfriamento
esperado da economia no segundo semestre e no ano que vem. O aumento rápido da
dívida bruta é um dos fatores determinantes para que os juros brasileiros sejam
tão maiores que os de seus pares: o prêmio de risco cobrado pelos investidores
para carregar dívida oficial no médio e no longo prazos explica boa parte da
curva de juros elevada dos próximos anos, mostra estudo da Instituição Fiscal
Independente do Senado (IFI).
Com base nos dados do Siafi (Sistema
Integrado de Administração Financeira), o Ipea indicou que o governo central
teve déficit primário de R$ 14,4 bilhões no mês passado, 2,9% superior ao do
mesmo período do ano passado, e, no acumulado, 8,1% maior que de janeiro a
agosto de 2025: R$ 94,5 bilhões e R$ 87,4 bilhões, respectivamente. "No acumulado
do ano, a trajetória segue marcada pela expansão real das despesas,
especialmente nas rubricas previdenciárias e nas despesas sujeitas à
programação financeira", aponta a carta de conjuntura do Ipea. A conta da
evolução em 12 meses também mostra piora, de R$ 27,5 bilhões para R$ 69,5
bilhões. Nada disso, porém, impede o governo de dar por cumprida a meta do
regime fiscal, de 0,25% do PIB, após atingir seu piso (zero). Há permissão de
abatimento de R$ 62,8 bilhões para a meta, e o Prisma Fiscal, que reúne
estimativas do setor privado sobre os resultados fiscais, indica que a mediana
para o rombo do ano feita em setembro é de R$ 52,7 bilhões.
As receitas reais, acima da inflação,
continuaram até o mês passado com ótimo desempenho, avançando 5,7% no ano. Mas
as despesas continuam fortes. No mesmo período, cresceram 5,7%, ou R$ 96,7
bilhões, em compasso com a arrecadação, mas nos 12 meses encerrados em agosto a
superam com folga. Sua variação, de 5,6%, ultrapassa a das receitas líquidas,
de 3,9%. O governo antecipou o pagamento de precatórios para março este ano,
quando em 2025 eles foram pagos em julho. Esses desvios saíram da conta agora.
Em março, as despesas cresceram 49,2% com isso, mas em julho, sem precatórios,
caíram 20,7%.
Um dado preocupante é que se esboça perda
progressiva de ritmo real de avanço da arrecadação a partir de julho, enquanto
a curva das despesas não tem a mesma redução. O esfriamento da economia poderá
se mostrar com mais clareza nos próximos números da arrecadação e estão
particularmente defasados nas projeções do orçamento de 2027, por estimativas
de crescimento da economia muito otimistas. O governo espera um PIB 2,5% maior,
enquanto as estimativas privadas não ultrapassam 1,5%, com viés de baixa.
A dívida bruta do governo atingiu 82,5% do
PIB em julho. Mesmo com a Selic em queda, o governo tem pagado cada vez mais
para se financiar. À medida que o regime fiscal não consegue reduzir a dívida
bruta, a conta dos juros reais pagos para que os investidores mantenham títulos
em suas mãos sobe além da Selic, com aumento do prêmio de risco. "É o
prêmio - não a expectativa - que concentra a maior parte da volatilidade
recente da taxa longa e que se mostra mais sensível ao quadro fiscal, o que
desloca o diagnóstico: o custo elevado de financiamento de longo prazo do país
não decorre apenas da condução corrente da política monetária, mas de uma
desconfiança estrutural que essa política, isoladamente, não tem instrumento
para resolver", aponta relatório da IFI.
As expectativas de inflação indicam avaliação
sobre a eficácia da condução da política monetária sobre a inflação e o nível
de atividades, o prêmio de risco reflete o grau de incerteza associado a
carregar os papéis da dívida por prazos longos. O aumento rápido da dívida
bruta elevou o prêmio a 3,16 pontos percentuais em 12 meses até agosto, acima
dos 2,41 pontos da crise fiscal no governo de Dilma Rousseff (2014-2016) e
próxima aos 3,48 pontos durante a pandemia. Como aponta a IFI, quanto maior o
prazo do título, maior a relevância dada à trajetória futura do endividamento e
à capacidade de geração de resultados primários.
O presidente Lula já conviveu com taxas reais de juros muito elevadas. No período de 2000 a 2009, quando governou por 8 anos, a taxa média real foi de 9%, em parte devido à disparada do juro doméstico diante da desvalorização do real no governo de Fernando Henrique Cardoso. A taxa média real de 2022 a 2025, segundo a IFI, foi de 8%. Em seus dois primeiros mandatos, porém, o presidente Lula obteve superávits primários em todos os anos de sua gestão, uma lição que resolveu solenemente desprezar agora, para colecionar apenas déficits e juros estratosféricos.
O socorro exausto
Por Correio Braziliense
Esgotamento de médicos de UTI não é novidade
para quem trabalha no setor
A medicina intensiva existe para cuidar de
quem está no limite. O problema é que, cada vez mais, quem cuida também está. O
esgotamento de médicos de UTI não é novidade para quem trabalha no setor. É
conversado nos corredores, relatado em congressos e documentado em estudos há
anos. O que falta, sistematicamente, é que alguém com poder de agir trate o
problema como o que ele é: uma crise de gestão, não uma fragilidade individual.
O Inquérito Nacional sobre a Força de
Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, conduzido pela Associação de Medicina
Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com o Conselho Federal de Medicina
(CFM) e divulgado na última quinta-feira, ouviu 2.338 profissionais em 26
estados e no Distrito Federal. O levantamento revela o tamanho da falência
estrutural. Os dados são diretos: 48,5% dos médicos que atuam em Unidades de
Terapia Intensiva apresentam alto nível de esgotamento emocional. Outros 31,2%
relatam nível moderado. Somados, quatro em cada cinco intensivistas requerem
atenção à saúde mental. Apenas 20,3% estão em situação de baixo desgaste.
Os números sobre despersonalização aprofundam
o diagnóstico. Pelo menos 45,5% dos intensivistas relatam algum grau de
distanciamento afetivo em relação a pacientes e colegas, um comportamento que,
segundo a própria Amib, compromete a qualidade do atendimento e se contrapõe à
humanização do cuidado. Quando 16% reportam níveis elevados desse
distanciamento, a pergunta deixa de ser sobre o bem-estar do médico e passa a
ser sobre a segurança do paciente.
O estudo aponta, ainda, um dado revelador
sobre especialização: quanto maior o grau de preparo do médico para o ambiente
intensivo, menor o esgotamento. A disparidade entre os sistemas público e
privado completa o quadro. O médico do SUS enfrenta remuneração menor, mais
vínculos empregatícios e infraestrutura mais precária do que o colega da rede
suplementar. O resultado é previsível: maior estresse, maior desgaste e menor
capacidade de sustentação a longo prazo.
Durante anos, administrações hospitalares e
gestores governamentais trataram o sofrimento emocional das equipes médicas
como contingência inevitável da carreira. O estudo da Amib e do CFM deixa claro
que essa postura tem consequências concretas sobre a qualidade do atendimento.
Equipamentos modernos e leitos monitorados perdem eficácia se quem os opera
estiver no limite do colapso físico e psicológico.
A reversão desse quadro exige medidas objetivas. Hospitais públicos e privados precisam reestruturar rotinas de trabalho, coibir jornadas excessivas e garantir apoio psicológico contínuo às equipes. Ao poder público cabe valorizar as carreiras médicas no SUS, ampliar residências de qualidade em medicina intensiva e acabar com a prática de escalar generalistas para UTIs por falta de especialistas. A Amib é direta em sua recomendação: a saúde mental dos profissionais não é pauta secundária. É questão prioritária para políticas públicas. Os dados da pesquisa tornam essa afirmação impossível de ignorar.
Violência de gênero exige políticas públicas
de prevenção a longo prazo
Por O Povo (CE)
Entre janeiro e agosto de 2026, foram
registrados 27 feminicídios em território cearense, entre tantos outros casos
de tentativas de assassinato violentas. Estatisticamente, houve uma queda de
20,6% em feminicídios em relação ao mesmo período em 2025 (34 casos). Na vida
real, o aceitável é zero
Os candidatos ao governo do Ceará
compartilham, basicamente, das mesmas propostas para o combate à violência
contra a mulher. Há foco claro na ampliação das Casas da Mulher Cearense,
equipamento público de acolhimento, proteção e atendimento humanizado e integrado
de mulheres em situação de violência doméstica e familiar; no reforço do
patrulhamento policial e no cumprimento de medidas protetivas; e no
investimento na formação de mulheres para autonomia financeira, seja por
facilitação de vias de crédito para o empreendedorismo, seja na oferta de
cursos profissionalizantes; e na priorização de mulheres vítimas e chefes de
família em políticas públicas de distribuição de renda.
Essas são medidas urgentes para responder ao
aumento da violência contra a mulher no Ceará. Segundo dados da Secretaria da
Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), entre janeiro e junho de 2026, o
Estado somou 13.210 registros de crimes contra a mulher. Entre janeiro e agosto
de 2026, foram registrados 27 feminicídios em território cearense, entre tantos
outros casos de tentativas de assassinato violentas. Estatisticamente, houve
uma queda de 20,6% em feminicídios em relação ao mesmo período em 2025 (34
casos). Na vida real, o aceitável é zero.
É por isso que é igualmente necessário investir
em ações de base que previnam a violência em si. A prevenção à misoginia e ao
feminicídio deve levar em consideração projetos que falem com os homens e
possibilitem uma mudança de cultura social, de forma que a violência seja
compreendida como um sintoma de um cenário de percepção de gênero complexo e
que tem centralidade na masculinidade tóxica.
Isso implica pensar em programas educativos
sobre gênero que contemplem de crianças a adultos; em fortalecer e ampliar
serviços de apoio psicológico, com ações de propaganda que desfaçam o tabu em
torno da saúde mental masculina e estimulem a adesão deles à terapia; em
políticas de regulação das redes, nos quais conteúdos de ódio contra as
mulheres, com discursos violentos, degradantes e de retirada de direitos sejam
imediatamente excluídos e impliquem em punição exemplar; entre tantas outras
ações que desfaçam as intrincadas amarras da masculinidade tóxica e resultem, a
longo prazo, em homens adultos saudáveis e equilibrados. Esse é o ponto chave
para combater a violência contra as mulheres.
Os programas dos candidatos parecem ter compreendido bem a urgência do fortalecimento da rede de apoio à vítima, desde o atendimento em delegacias especializadas até a autonomia financeira. Essas medidas atuam no sintoma agudo, refletido na grave estatística de aumento da violência contra a mulher e na persistência dos feminicídios no Ceará. No entanto, faltam propostas com a perspectiva multifatorial do problema crônico: o combate à violência de gênero precisa não apenas impedir que mais mulheres morram, mas principalmente que os homens parem de vê-las como alvos.

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