É urgente rever custo de estatais dependentes
Por O Globo
Previsão no Orçamento de 2027 alcança R$ 36
bilhões — e grande parte disso não passa de desperdício
Empresas estatais incapazes de arcar com suas
despesas de pessoal, custeio e capital são classificadas como dependentes da
União — e todo ano são obrigadas a declarar no Orçamento quanto consumirão em
recursos públicos. É assim que o cidadão brasileiro fica sabendo que, em 2027,
elas custarão R$ 36 bilhões ao Tesouro. Pode ser que parte desse custo se
justifique, mas é provável que boa parte não. Quanto desse dinheiro poderia ir
para outras áreas do governo onde faz falta? Eis um tema que deveria ter
destaque no debate eleitoral, ainda mais em momento de deterioração da saúde
fiscal e desequilíbrio nas contas públicas.
Na lista das dependentes, há estatais estratégicas, comprovadamente relevantes. Outras, porém, não resistem a uma análise com base no interesse público. O primeiro grupo deveria passar por reavaliação detalhada, em busca de ganhos de eficiência e foco. Para o segundo grupo, só há duas soluções que deveriam ser tomadas com urgência: fechar ou privatizar.
Tome-se o caso da Embrapa, que claramente
pertence ao primeiro grupo, e consumirá perto de R$ 6 bilhões. A História do
agronegócio no Brasil está dividida em antes e depois de sua criação, em 1973.
Com a Embrapa, a produtividade da agricultura mais que dobrou, e o país se
firmou como um dos dois maiores exportadores de alimentos do planeta. Mas
resultado passado não é garantia de ganho futuro. Para continuar a servir de
base ao agronegócio, precisará aprender a fazer mais com os recursos que
recebe.
O mesmo raciocínio se aplica a estatais da
área militar ou nuclear, que também poderiam ser classificadas como
estratégicas. Na maioria dos países, elas dependem de investimentos públicos,
mas isso não pode servir de pretexto para evitar uma avaliação rigorosa da
estrutura e do uso dos recursos. As estatais da área da saúde consomem cerca de
55% do orçamento, ou quase R$ 20 bilhões. Será que todo esse dinheiro é mesmo
bem aplicado?
Quanto ao segundo grupo de estatais, cada dia
de atraso para avaliar sua real necessidade equivale a dinheiro desperdiçado —
dinheiro que poderia ser investido com maior proveito. Há estatais de logística
e transportes, setores mais bem servidos pelo setor privado, e até uma estatal
que guarda os resquícios do projeto moribundo do trem-bala. Mas nenhum exemplo
de desperdício é mais eloquente que o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica
Avançada (Ceitec), desvario desenvolvimentista criado para fabricar chips no
país. O Ceitec coleciona prejuízos colossais e resultados tecnológicos
irrelevantes. Custará mais R$ 90 milhões no ano que vem (a conta chega a R$ 1
bilhão desde a fundação). Estava prestes a ser fechado, mas o governo Luiz
Inácio Lula da Silva lhe garantiu uma sobrevida inexplicável.
Outro sorvedouro crônico de recursos públicos
é a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba
(Codevasf), cujos domínios foram estendidos até o Amapá. Considerada um paraíso
de emendas parlamentares, a Codevasf foi mais uma vez foco de escândalo de
corrupção em junho, quando a Polícia Federal apreendeu maços de dinheiro e um
helicóptero. Pelo visto, o dreno de dinheiro do contribuinte não acabará até
que seja vendida ou feche as portas.
Integração do Pix a outros sistemas de
transações tem de ser encorajada
Por O Globo
Negociação em andamento com europeus reflete
pioneirismo do software de pagamentos brasileiro
É bem-vinda a negociação entre os Bancos
Centrais do Brasil e da Europa para interligar o Pix ao congênere europeu Tips.
A iniciativa faz parte de um movimento crescente para criar um sistema global
de pagamentos instantâneos que precisa ser encorajado. É fundamental notar que,
pelo pioneirismo do Pix, o Brasil deverá ter papel de destaque nele.
O Tips, desenvolvido para transações em euro,
é usado na União Europeia (UE), mas também aceita pagamentos em coroas suecas e
dinamarquesas. Estão em curso a inclusão da coroa islandesa e a integração com
a Interface Unificada de Pagamentos (UPI), da Índia. Com isso, euros e rúpias
poderão ser transferidos de forma instantânea na UE e em estabelecimentos
indianos. O projeto-piloto da zona comum de pagamentos entre UE e Índia está
previsto para 2027. O Pix, usado por mais de 170 milhões, também já ultrapassou
as fronteiras do Brasil com os vizinhos Argentina, Uruguai e Paraguai.
Estima-se que mais de 6 mil estabelecimentos argentinos aceitem pagamentos pelo
sistema brasileiro. A integração dele com o Tips europeu poderá formar o
embrião de um sistema global de pagamentos.
Os Estados Unidos também contam com sistemas
de transferências rápidos. Entre os maiores está a Rede de Pagamentos em Tempo
Real (RTP), que usa uma estrutura privada e reúne mais de 1.300 instituições
financeiras, entre elas 25 dos maiores bancos do país (como JPMorgan Chase,
Bank of America, e Citibank). Outros são o Zelle e o FedNow, operado pelo Fed,
o Banco Central americano. Com a fragmentação, nenhum deles é maior que o
sistema brasileiro em transações ou volume movimentado. A integração e adoção
de um sistema unificado é relevante em virtude dos efeitos de rede: quanto mais
gente adota um sistema, mais ele se torna útil e atrai outros usuários.
A população de 137 países já tem à disposição
sistemas equivalentes ao Pix, segundo estudo recente do Banco Mundial (Bird).
De acordo com o documento, tais meios eletrônicos têm impacto positivo na
economia. Na Tailândia, o Bird projeta que a adoção do sistema local PrompPay
poderá representar 2 pontos percentuais no crescimento do PIB. O impacto do UPI
no PIB indiano é estimado em 1%. E o Pix, também de acordo com o estudo,
acrescentará US$ 49,9 bilhões ao PIB brasileiro em 2028.
O Bird vê esses sistemas não só como alavancas de crescimento econômico, mas também como indutores de inclusão. O estudo destaca a importância para as micro e pequenas empresas, ao acelerar a circulação do dinheiro sem custos e entraves. Menciona também a relevância da Área Única de Pagamentos em Euros (Sepa), que congrega mais de 40 países europeus e que usa diferentes infraestruturas nacionais para processar as transações do Tips. Ao integrar-se a ela, o Pix confirma o pioneirismo brasileiro na modernização financeira global.
Proibição de bets mostra Lula governado pela
eleição
Por Folha de S. Paulo
Petista busca surpresas bombásticas perto do
pleito, em desrespeito ao cidadão
Malefícios sociais da multiplicação da
jogatina regulamentada pelo governo já eram conhecidos e demandavam restrições
há muito tempo
Se Luiz Inácio Lula
da Silva tivesse um governo mais bem avaliado pela população e uma disputa
presidencial menos acirrada pela frente, dificilmente levaria adiante a
ampliação das isenções do Imposto de
Renda e o fim da escala de trabalho 6x1 —políticas de impacto
orçamentário e econômico nunca cogitadas nos quatro mandatos presidenciais
anteriores do PT.
Entre abril e junho deste ano, sem que as
grandes apostas eleitorais tivessem surtido efeito nas pesquisas de opinião
pública, Lula lançou uma saraivada de medidas de renegociação de dívidas e
estímulo ao consumo e ao crédito, além de subsídios para mitigar a alta dos
preços dos combustíveis decorrente da guerra no Irã.
Nesta reta final de campanha, sempre empatado
com o rival Flávio Bolsonaro (PL) nas intenções de voto, o petista busca
surpresas bombásticas. A 17 dias do primeiro turno, anunciou um reajuste de 15%
para o Bolsa Família;
agora, a 9 dias, proíbe as
apostas online, as famigeradas bets, e cria mais um programa de
socorro a famílias endividadas.
Nessa mixórdia de cartadas eleitoreiras, que
já somam perto
de R$ 200 bilhões, há providências corretas, duvidosas e erradas. Em
comum, são tomadas de afogadilho, não raro em contradição com políticas
anteriores, sem maior debate, planejamento ou estratégia —e, sobretudo, sem
respeito ao cidadão, cujos valores e interesses são manipulados à base de
casuísmo oportunista.
Assim como a correção do
Bolsa Família poderia e deveria ter sido feita antes, ao longo de
mais de três anos de benefícios congelados, os enormes malefícios sociais da
multiplicação das bets já eram evidentes e demandavam restrições há muito
tempo.
A proibição por meio de medida provisória,
como se estivéssemos diante de um problema repentino, pode assegurar seu
cumprimento imediato, mas não a sobrevivência posterior da decisão no
Congresso, que só deverá examiná-la após as eleições.
Foi do governo Lula a iniciativa de
regulamentar as apostas online, cuja legalização teve início em 2018, de modo a
ampliar o mercado e a arrecadação. Argumentou-se que se gerariam empregos, se
coibiria o jogo ilegal e a lavagem de dinheiro; empresas pagaram mais de R$ 2
bilhões em outorgas para operar no país.
O projeto de Orçamento para 2027, enviado ao
Congresso há menos de um mês, não prevê os R$ 22,7 bilhões necessários para o
aumento do Bolsa Família, mas conta com receita de R$ 5,3 bilhões em impostos
sobre a jogatina. Para além do rombo fiscal deixado para a próxima
administração, não há prova mais cristalina da guinada eleitoreira nas duas
políticas públicas.
Em vez de governar o país, Lula é governado
pela eleição. Acentuou-se a gastança, iniciada desde antes da posse, e
agravaram-se pressões inflacionárias, juros
e dívidas de famílias, empresas e governo. No caso das bets, ficará para depois
um emaranhado de embates legais e políticos.
Espaço para queda dos juros vai se esgotando
Por Folha de S. Paulo
Com gastos do governo em alta, além da guerra
no Irã e do El Niño, BC tem pouca margem para novos cortes
Economia deve permanecer em desaceleração;
projeção de crescimento para este ano foi reduzida de 2% para 1,8%; para 2027,
espera-se só 1,4%
A ata da reunião do Banco Central
que cortou a
taxa básica de juros de 14% para 13,75% ao ano mostrou sinais de
preocupação com o cenário à frente, depois reforçados pelo Relatório de
Política Monetária.
A favor da queda da Selic,
a economia
mostrou enfraquecimento no segundo trimestre, e o indicador da atividade de
julho voltou a dar sinais de piora adicional. Este será um terceiro trimestre
com o PIB
tateando o zero. A projeção de crescimento para este ano foi reduzida
de 2% para 1,8%; para 2027, espera-se 1,4%.
Juros nas alturas inibem o crédito privado e
fazem seu trabalho de controle da inflação.
Mas as demais variáveis, ao menos por ora, vão no sentido oposto.
As contas do governo são, de longe, o maior
fator de atenção, agora somadas à aceleração do crédito público direcionado.
Espera-se, no início do próximo governo, de quem quer que seja, um mínimo de
austeridade e a diminuição do forte impulso fiscal observado no ano eleitoral.
Contudo o déficit fiscal estrutural tem sido
uma constante desde o governo Dilma
Rousseff (PT),
como aponta a Instituição Fiscal Independente (IFI, ligada ao Senado),
e encabeça os motivos pelos quais a Selic está tão elevada. Não temos garantia
de que quem vencer a eleição fará, de fato, um ajuste relevante.
Os problemas, porém, não se limitam ao Orçamento
público. A guerra entre Estados
Unidos e Irã
não dá sinais de arrefecimento, e o preço do petróleo
pode subir ainda mais nas próximas semanas; o do diesel
tem subido com maior intensidade e já se começa a falar em falta do produto.
O fenômeno climático El Niño
se consolida como um dos
mais fortes da história e trará consequências relevantes para a
agricultura brasileira, em um momento de crise de endividamento no setor e de
encarecimento dos fertilizantes importados, também devido à guerra. O resultado
deve ser uma inflação de alimentos elevada no próximo ano.
Tanto a guerra quanto o impacto do El Niño
são choques aos quais o BC usualmente não reage com juros, por serem
temporários. Mas há preocupação com o que se chama de efeitos inflacionários de
segunda ordem, ou seja, no restante da economia.
Há, por fim, a PEC destinada a eliminar a
escala de trabalho 6x1, que, se aprovada, poderá gerar alguma pressão
inflacionária.
Há espaço para uma nova queda da Selic? Talvez apenas para mais uma, como apontam as previsões de mercado coletadas pelo BC, mas há riscos de sobra pela frente que demandam cautela do órgão neste momento.
O valor da vocação para o serviço público
Por O Estado de S. Paulo
A vida de luxo bancada pelo trambiqueiro
Daniel Vorcaro expôs autoridades que tratam seus cargos como meio de enriquecimento,
não como compromisso cívico. Eis o maior dano do caso Master
A aritmética financeira é implacável. Quem
mantém um padrão de vida superior a seus ganhos vive endividado ou precisa de
alguém para bancar a diferença. E esse alguém torna-se um credor que, mais cedo
ou mais tarde, pode vir a cobrar a dívida – sabe-se lá em que termos. Essa
lição, que todo arrimo de família neste país sabe de cor e salteado, parece não
ter sido assimilada por uma parte da elite do funcionalismo que se deslumbrou
com uma vida de luxos, ademais cafona, que seus salários de servidores públicos
jamais poderiam sustentar.
O escândalo do Banco Master expôs essa
sem-vergonhice como poucos outros escândalos de corrupção na história recente
do País. A liquidação do banco, em novembro do ano passado, provocou um rombo
estimado em mais de R$ 40 bilhões apenas no Fundo Garantidor de Créditos, sem
falar nos prejuízos não cobertos dos fundos de pensão estaduais que investiram
em papéis podres emitidos pelo banqueiro Daniel Vorcaro e na ruína do Banco de
Brasília (BRB). Ainda assim, o maior dano do chamado caso Master não pode ser
calculado em reais. Trata-se da degradação da imagem do funcionalismo público
em geral.
Para o cidadão que paga impostos para
sustentar o Estado, escândalos como esse geram a sensação de que todo
funcionário entra no serviço público na esperança de se locupletar, o que é
totalmente injusto. A maioria absoluta dos funcionários escolhe o serviço
público pela vocação de servir, e não pela possibilidade de enriquecer – o que,
de resto, só é possível por meio de corrupção.
Eis aí o desserviço das autoridades que, como
mostra o caso Master, enxergam o serviço público como um meio de
enriquecimento, não como um compromisso cívico. Todos os que aceitaram mimos
extravagantes que só lhes foram oferecidos porque havia expectativa de reciprocidade
ignoraram limites éticos que todo servidor público deve conhecer, especialmente
os que estão na cúpula da República.
Por uma noitada em Londres regada a uísque e
charutos, autoridades enxovalharam o múnus público às expensas de Vorcaro. Por
viagens em jatinhos desse cidadão, comprometeram seus mandatos, arruinaram a
aura de imparcialidade da magistratura e reduziram a pó a própria legitimidade
de servidores que devem agir em nome do império das leis, base de sustentação
de uma república democrática digna do nome. Tudo em troca de prazeres que o
dinheiro pode comprar.
Não se trata de moralismo nem da pregação de
uma vida monástica para quem quer que seja. A questão é que, se na vida privada
os excessos comprometem o orçamento das famílias, na vida pública o conflito de
interesses mata a independência de quem tem de tomar decisões, por vezes duras
e impopulares, em nome do melhor interesse público. Ademais, as suspeitas não
recaem sobre servidores mal remunerados, mas sobre integrantes da elite do
funcionalismo que já recebem salários bastante dignos para exercer suas
funções, fora outros benefícios atrelados ao serviço público.
Há mais de um século, Max Weber proferiu uma
célebre conferência, A
política como vocação, na qual, basicamente, distinguiu os que vivem
para a política dos que vivem da política – aqui compreendida como “qualquer
tipo de liderança independente em ação”. Dos primeiros, Weber cobrava paixão,
senso de responsabilidade e proporção. São exigências válidas até hoje. Quem
opta pelo serviço público tem de aceitar viver sob certos limites. Na prática,
isso significa dizer que determinados “amigos”, negócios e ganhos são
absolutamente vedados, esteja a vedação escrita ou não. Noutras palavras: a
moral e o bom senso precisam voltar a ter valor neste Brasil de autoridades que
se julgam acima do bem e do mal.
Abster-se de certos comportamentos ou de
determinado padrão de vida é o preço que a autoridade de certos cargos públicos
impõe. A lei escrita, convém lembrar, é piso, não teto. Muitas das promiscuidades
em que se meteram algumas das mais proeminentes autoridades da República, do
ponto de vista técnico, não são expressamente vedadas. Mas é exatamente esse
vácuo que a vocação pública tem de preencher. Quem precisa de uma lei para
decidir a que ou a quem não deve se sujeitar não é servidor público, é só
alguém com talento para explorar os meandros da legislação e se locupletar.
Corporativismo salva Gonet
Por O Estado de S. Paulo
Qualquer cidadão teria de se explicar se
sobre si recaíssem suspeitas de relações impróprias com um banqueiro criminoso,
mas o MP entendeu que o procurador-geral não precisa
O Conselho Superior do Ministério Público
Federal (MPF) rejeitou na sexta-feira passada o pedido de investigação do
procurador-geral da República, Paulo Gonet, por sua relação com Daniel Vorcaro,
dono do liquidado Banco Master. Prevaleceu o voto do relator, o
subprocurador-geral Francisco Sanseverino, para quem as mensagens e o encontro
entre o chefe do MPF e o banqueiro não demonstram, por si sós, “relação íntima”
nem comprometem a atuação de Gonet nas investigações relacionadas à Operação
Compliance Zero. É um escárnio.
Ao livrá-lo por puro corporativismo, ao
arrepio dos indícios que pesam contra a imparcialidade de Gonet, o Conselho
Superior do MPF não só protegeu o procurador-geral, evidentemente suspeito,
como comprometeu a instituição responsável pela defesa da ordem jurídica, do
regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.
Convém repetir uma obviedade já dita neste
mesmo espaço em relação ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre
de Moraes: ninguém pediu a condenação de Paulo Gonet. O que grita é a
necessidade de o procurador-geral da República ser investigado, apenas isso,
para que sejam esclarecidas as razões de sua proximidade – seja ela “íntima” ou
não – com o acusado de ser o responsável pela maior fraude já cometida contra o
sistema financeiro nacional. Não é pedir muito. Afinal, o próprio Gonet,
fotografado quando participava de uma das extravagâncias patrocinadas por
Vorcaro, deu a seus colegas razões mais do que suficientes para ser investigado
ao menos no âmbito administrativo.
A Polícia Federal (PF), ademais, encontrou
mensagens em celulares de Vorcaro que indicam que havia algum grau de
comunicação entre ele e o procurador-geral, ainda que por meio de interpostas
pessoas. De novo, nada disso prova que o sr. Gonet cometeu alguma
irregularidade, mas mesmo o mais humilde trabalhador da Procuradoria-Geral da
República (PGR) teria de se explicar e seria investigado se sobre ele pesassem
tais suspeitas. O sr. Gonet se recusa a fazê-lo, e o Conselho Superior do
Ministério Público Federal acha que ele não precisa. Em resumo: o Brasil tem de
acreditar que o sr. Gonet é inocente só porque o sr. Gonet se diz inocente.
O corporativismo do colegiado tem outro
efeito deletério para a administração da Justiça do ponto de vista prático.
Acobertado por seus pares, Gonet pode seguir atuando nos casos relacionados ao
Banco Master, o que é um completo absurdo. Ele manterá, portanto, a condição de
dominus litis no
procedimento em que o STF avalia a conduta do ministro Alexandre de Moraes,
cujo nome aparece em um relatório da PF ao lado do seu. Como não se indignar
com essa afronta à moralidade pública, ao espírito republicano, à lei
processual e, sobretudo, à decência da esmagadora maioria da sociedade
brasileira? Perdeu-se o pudor.
O procurador-geral da República não está
acima das leis. É, antes, o principal fiscal de seu cumprimento. É um servidor
público dotado de um enorme poder: decidir quem será acusado perante a mais
alta instância judicial do País. Por isso, ele não pode sequer deixar
transparecer suspeição que tisne sua independência. Daí a premente necessidade
de investigação, seja criminal, seja administrativa. Deveria ser ocioso dizer
que sobre a reputação do chefe máximo do órgão acusador não podem pairar
suspeitas de malfeitos para que siga no cargo com a legitimidade inabalada. E
todo esforço que Gonet fizer para evitar uma singela investigação será visto,
com razão, como uma espécie de fuga.
Ao blindar Gonet, o Conselho Superior do MPF
passou à sociedade a mensagem de que o
parquet, tão zeloso quando se trata da persecução penal dos outros,
é leniente com alguns dos seus, a depender do poder que tenham. Resta torcer para
que Gonet, em algum momento, ponha a mão na consciência e se afaste por conta
própria, a bem do interesse público.
A luta contra o cigarro
Por O Estado de S. Paulo
Mais brasileiros buscam ajuda contra o
cigarro, uma excelente notícia para o SUS
Uma reportagem publicada recentemente pelo Estadão trouxe uma
excelente notícia para a saúde pública brasileira: cresceu a procura por
tratamento médico contra o tabagismo no Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo
dados do Ministério da Saúde, o número de pessoas atendidas nas Unidades
Básicas de Saúde (UBSs) em busca de ajuda para abandonar o cigarro saltou de
350 mil, em 2015, para mais de 2 milhões, no ano passado. Trata-se de uma alta
de quase 500% ao longo de dez anos.
Alguns fatores ajudam a entender esse avanço.
O primeiro, obviamente, é que esses pacientes tomaram consciência dos riscos e
dos danos associados ao tabagismo, como doenças pulmonares e cardíacas, além do
câncer, e decidiram parar de fumar. Mas isso não é nada fácil: o consumo do
cigarro tem impacto em processos químicos no corpo, na estabilidade emocional e
nas relações comportamentais.
Como bem afirmou o coordenador da Comissão de
Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira (AMB), Ricardo Meirelles,
o cigarro “é um falso amigo”: ao mesmo tempo em que é um companheiro que alivia
o estresse, faz do fumante seu “escravo”. E isso ocorre porque a nicotina leva
apenas dez segundos para atingir o cérebro, ligando-se a receptores dos
neurônios que estimulam uma descarga de dopamina. Ou seja, causa uma imediata
sensação de prazer.
É por isso que o SUS oferece ao fumante uma
terapia combinada. Quando o paciente bate à porta da UBS, ele é acolhido por
uma equipe e, a partir de então, começa a ser executado um protocolo clínico
consolidado pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca). São avaliados seu padrão
de consumo, seu grau de dependência e sua saúde mental. É garantido o
fornecimento de adesivo, goma e pastilha de nicotina e do antidepressivo
bupropiona, realizando-se encontros periódicos para evitar o abandono do
tratamento e também as recaídas.
Enquanto dedica atenção personalizada ao
paciente, o SUS também implementa políticas públicas de amplo impacto social em
saúde coletiva. Na prática, são políticas de Estado que vão se acumulando ao
longo de sucessivos governos, em todas as esferas da Federação, com resultados
efetivos. Entre elas, destacam-se o veto ao fumo em locais fechados, a
restrição à publicidade de cigarro nos meios de comunicação, as campanhas
publicitárias com alertas sobre os danos causados pelo fumo, a alta carga
tributária, o atendimento telefônico no 136 – o Disque Saúde – e a oferta
gratuita de tratamento antitabagismo. São medidas integradas que fazem do SUS
uma referência mundial.
Desse modo, o SUS oferece a todo brasileiro fumante a chance de se libertar do vício, de reconquistar seu equilíbrio emocional e de ter uma vida mais saudável e plena. Tudo isso atesta que o crescimento na busca por tratamento contra o tabagismo na rede pública não é fruto do acaso: é resultado do trabalho acumulado de profissionais da saúde e de autoridades públicas comprometidas com o bem-estar da população.
O bom combate à obesidade
Por Correio Braziliense
Assim como ocorreu com a vacinação na
pandemia de covid-19, o governo tem papel fundamental na implementação de ações
que ampliem o acesso à saúde, um direito constitucional
Na última quinta-feira, o Ministério da Saúde
requereu à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de
Saúde (Conitec) a inclusão das canetas emagrecedoras (GLP-1) no rol de
medicamentos ofertados pelo SUS. Como justificativa, a pasta alegou o
crescimento acelerado de brasileiros com sobrepeso e obesidade.
Os números são preocupantes. Em um intervalo
de 18 anos, o contingente de adultos com obesidade mais do que duplicou. Passou
de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. Segundo o Ministério da Saúde, esse
problema de saúde pública exigirá acompanhamento médico e tratamento por longos
períodos, com impactos na redução da mortalidade, na qualidade de vida dos
pacientes e nos gastos do sistema de saúde.
Em relação ao excesso de peso, o sistema
Vigitel também identificou uma tendência de alta. O percentual de adultos nessa
condição aumentou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024. Ainda segundo os dados
levantados pelo governo federal, houve um aumento nos casos de diabetes. A
proporção de adultos com diagnóstico médico autorreferido (quando o paciente
informa a condição com base no que ouviu de um profissional de saúde) subiu de
5,5% em 2006 para 12,9% em 2024.
Ao pedir a inclusão das canetas emagrecedoras
no SUS, o Ministério da Saúde busca enfrentar um problema que atinge, portanto,
uma enorme parcela da população brasileira. E não se pode falar em combate à
obesidade sem considerar os aspectos econômicos. O excesso de peso está
diretamente ligado à alimentação de má qualidade, com alto consumo de produtos
ultraprocessados. Estimular hábitos alimentares saudáveis é uma parte do trabalho
a ser feito, especialmente em um contexto em que a inflação dos alimentos ainda
pesa no orçamento doméstico. E o remédio para esse mal também é caro. Até pouco
tempo, era comum canetas emagrecedoras custarem mais de R$ 2 mil.
Em agosto, a Conitec havia recomendado a não
inclusão da liraglutida e da semaglutida, princípios ativos de medicamentos
agonistas, no sistema público de saúde. O argumento era o impacto financeiro no
orçamento do SUS —aproximadamente R$ 8 bilhões anuais.
Desta vez, o Ministério da Saúde observa uma
redução de até 70% no preço desses produtos, além do desenvolvimento de
similares nacionais, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
"Até o momento, 25 canetas emagrecedoras já foram registradas no país,
sendo 14 delas em 2026, fruto direto da estratégia de fomento do Ministério e
da Anvisa, incluindo versões produzidas nacionalmente e medicamentos genéricos.
E novos registros ainda são esperados. A ampliação da concorrência fez do
Brasil o país com a maior variedade do produto no mundo e derrubou os preços no
varejo", informou a pasta no requerimento da última quinta-feira. O
Ministério da Saúde ressalta que a inclusão das canetas emagrecedoras no SUS
virá acompanhada de uma seleção criteriosa de pacientes com indicação médica
para esses medicamentos.
Preservar a saúde pública exige regulamentação responsável e uma política que auxilie, sobretudo, a população mais vulnerável. Assim como ocorreu com a vacinação no pandemia de covid-19, o governo tem papel fundamental na implementação de ações que ampliem o acesso à saúde, um direito constitucional. Havendo responsabilidade orçamentária, contratos firmados dentro da lei e acompanhamento médico rigoroso a pacientes com sobrepeso e obesidade, a popularização das canetas emagrecedoras pode se tornar mais uma ação bem-sucedida do SUS.
Jornalismo e o compromisso com a verdade
Por O Povo (CE)
O Dia Mundial do Jornalismo, celebrado em 28
de setembro, é uma oportunidade para reafirmar o valor do jornalismo
profissional, independente, responsável e comprometido com os fatos
O Dia Mundial do Jornalismo, comemorado nesta
segunda, 28 de setembro, é uma data a ser celebrada principalmente nestes
tempos, em que a informação circula em velocidade nunca vista, mas que a
verdade pode se perder entre opiniões, interesses, desinformação e conteúdos
produzidos sem qualquer compromisso com a apuração. É por isso que o jornalismo
profissional se torna cada vez mais necessário.
A data ganha importância especial em um
cenário marcado pelos desafios impostos pelas novas tecnologias, inclusive pela
inteligência artificial. É uma oportunidade para reafirmar o valor do
jornalismo profissional, independente, responsável e comprometido com os fatos.
Assim, a campanha promovida pela Associação
Nacional de Jornais (ANJ) para marcar o Dia Mundial do Jornalismo chama atenção
justamente para essa realidade. A mobilização, que reúne mais de uma centena de
veículos e organizações no Brasil, procura mostrar à sociedade o valor do
jornalismo profissional e o trabalho que existe por trás de uma informação
publicada com responsabilidade.
Uma notícia não nasce pronta. Antes de chegar
ao público, passa por apuração, entrevistas, checagem de dados, consulta a
documentos, confronto de versões, edição e revisão. Esse processo pode ser
invisível para quem recebe a informação na tela do celular ou nas páginas do
jornal, mas é ele que estabelece uma diferença fundamental entre jornalismo e
simples produção de conteúdo. E essa diferença nunca foi tão importante.
Neste contexto, o Grupo de Comunicação O POVO
ocupa um lugar singular. Desde 1928, O POVO acompanha as transformações do
Ceará e do Brasil, atravessando diferentes períodos históricos e tecnologias.
Do jornal impresso ao rádio, da televisão às plataformas digitais, O POVO
construiu uma trajetória associada à informação e ao debate público. E assim,
faz parte da campanha da ANJ ao declarar seu compromisso público com os
princípios jornalísticos.
A preocupação com a credibilidade é
especialmente relevante em um momento em que a confiança se tornou um dos
maiores patrimônios de qualquer veículo de comunicação. Além disso, a liberdade
de imprensa é uma garantia da sociedade. É inegociável o direito da sociedade
de ter acesso a informações verificadas e de formar suas próprias opiniões a
partir delas. A própria campanha da ANJ para o Dia Mundial do Jornalismo chama
atenção para os desafios contemporâneos à liberdade de imprensa. O alerta é
oportuno, pois a democracia depende também da possibilidade de informar e ser
informado com responsabilidade.
O Dia Mundial do Jornalismo deve ser uma
oportunidade para a sociedade refletir sobre o tipo de informação que deseja
consumir e sobre a importância de apoiar quem se dedica profissionalmente a
produzi-la. Em tempos de desinformação, credibilidade é patrimônio.
Assim, defender o bom jornalismo é defender algo maior do que uma profissão. É defender o direito de saber e de proteger a nossa democracia.

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