Caso Moraes exige discussão aberta transmitida ao vivo
Por O Globo
País está estarrecido com revelações sobre
ministro. É inaceitável decisão a portas fechadas ou sessão secreta
A sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) marcada para a próxima terça-feira traz à Corte a oportunidade de recobrar um mínimo de normalidade institucional. O país está estarrecido com as revelações sobre a relação do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e artífice da maior fraude financeira da História brasileira — e exige que a questão seja passada a limpo diante do público. Não há espaço para conchavos de bastidor, acordos a portas fechadas ou sessões secretas.
Para o resgate da combalida credibilidade do
Supremo e das decisões que vier a tomar, a única alternativa é uma sessão
aberta, transmitida ao vivo pela TV Justiça, como tem sido feito sempre nas
últimas décadas, em especial nos momentos críticos do tribunal. Nos últimos
anos, nunca um julgamento foi mantido em segredo — apenas reuniões
administrativas não são transmitidas. Seria um escárnio repetir o ocorrido
quando o ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso Master depois de uma
reunião a portas fechadas que, pode-se dizer, deu frutos muito ruins, como a
situação vivida hoje.
Quando a TV Justiça começou a transmitir
sessões do STF, em 2002, logo se impôs uma discussão sobre os efeitos de levar
ao grande público debates que antes ficavam restritos. Era uma experiência
internacionalmente pioneira, e em vários países as deliberações de Cortes
Constitucionais são preservadas do escrutínio do público, sob a alegação de que
as câmeras podem alterar o comportamento dos ministros e prejudicar seus votos.
O tempo deixou claro que o modelo brasileiro — adotado também em países como
México ou Canadá — tem bem mais vantagens que desvantagens.
Além da transparência que deve estar no DNA
de toda democracia e é preconizada pela Constituição, ele mantém as decisões
sob constante vigilância e amplia o interesse da população por questões de
difícil acesso, antes mantidas isoladas pela dificuldade de compreensão do
debate jurídico. Isso é valido não apenas no caso de julgamentos criminais —
como os do mensalão em 2012 e dos golpistas do 8 de Janeiro no ano passado —,
mas também em outros temas fundamentais para a sociedade, como as pesquisas com
células-tronco embrionárias, a demarcação da reserva indígena Raposa Serra do
Sol, a união civil entre casais do mesmo sexo ou as cotas raciais. No lugar da
opacidade e dos termos jurídicos impenetráveis com que os ministros escrevem
seus votos, as questões se tornam compreensíveis e ganham alma quando debatidas
ao vivo, contribuindo para a qualidade da democracia.
Num caso explosivo como as acusações que
pesam contra Moraes, manter o debate a portas fechadas seria uma afronta não
apenas ao direito do público à informação, mas também à própria Justiça.
Vorcaro, preso por fraudes de dezenas de bilhões de reais, manteve um contrato
milionário com a mulher de Moraes e é suspeito de ter fornecido aviões,
helicópteros e cartões de crédito a seus familiares, enquanto fazia dele uma
espécie de conselheiro informal, usado para tentar deter as investigações sobre
os crimes que havia cometido. A investigação de um ministro seria fato inédito
nos 135 anos de História do STF, por isso mesmo é inadmissível que o público
não testemunhe ao vivo o debate do plenário a respeito da decisão. A sociedade
brasileira exige um debate aberto sob as luzes, não oculto pelas sombras.
Esvaziadas, multas do Ibama perdem força para
deter o desmatamento
Por O Globo
Apenas 3,6% foram pagas, segundo levantamento
do GLOBO. Demora na tramitação leva à prescrição
Apesar da ação de autoridades e
ambientalistas, apenas 3,6% das multas aplicadas pelo Instituto Brasileiro de
Meio Ambiente (Ibama) desde 2008 foram pagas, revelou reportagem do GLOBO. Quando
o Estado não consegue fazer valer as punições com eficácia e presteza, cria-se
um incentivo ao desmatamento e ao desrespeito às leis ambientais.
A principal causa dessa situação é o longo
processo administrativo dos autos de infração, com inúmeras possibilidades de
recurso, geralmente impetrados para que se esgote o prazo de cinco anos sem que
as multas sejam homologadas. Ultrapassado esse limite, elas prescrevem. Só no
ano passado, R$ 950 milhões em multas deixaram de ser recolhidos aos cofres
públicos, cifra recorde segundo a Advocacia-Geral da União (AGU).
Associações de funcionários se queixam da
falta de pessoal para agilizar a tramitação. Dos 5.235 cargos no Ibama, mais de
2 mil estão vagos, pela estimativa da Associação Nacional dos Servidores de
Carreira de Especialistas em Meio Ambiente (Ascema). Entre 2025 e 2026,
previa-se a abertura de 14 mil processos e o encerramento de 6 mil pendentes. A
previsão não foi cumprida. “Grosso modo, entram 50% mais processos do que
conseguimos encerrar. Mesmo que o Ibama não lavrasse uma única multa nova,
seriam necessários muitos anos para julgar tudo o que já está pendente”, afirma
Wallace Lopes, representante da Ascema.
Uma resposta para a carência de pessoal está
no uso de tecnologia para cruzamento de bases de dados, sensoriamento e
autuações remotas. Também é possível que recursos de inteligência artificial
possam suprir em parte a falta de pessoal (essa tecnologia foi usada pelo GLOBO
para, no cruzamento de bases públicas de dados, revelar que, de R$ 67,7 bilhões
em multas, apenas R$ 2,4 bilhões haviam sido pagos).
De 2013 a 2018, o Ibama julgou mais casos do
que o volume de novas infrações, reduzindo seu passivo. O cenário mudou em
2019, a partir de decreto do governo Jair Bolsonaro criando uma nova etapa para
conciliação entre as partes. Aumentou o tempo de tramitação e também o risco de
prescrição. Foram criados, no âmbito do Ibama e do ICMBio, Núcleos de
Conciliação Ambiental (Nucams), para agilizar processos com possibilidade de
descontos, parcelamento ou conversão das multas em serviços ambientais. Dos
mais de mil autos de infração por desmatamento na Amazônia entre outubro de
2019 e maio de 2021, 98% estavam paralisados, com risco de prescrição, revelou
estudo. O atual governo extinguiu os Nucams, mas resta grande volume de autos
represados no Ibama, em contagem regressiva para extinção.
Nos últimos dez anos, o desmatamento e a atuação dos órgãos de fiscalização ambiental têm flutuado ao sabor dos governos. No mandato de Bolsonaro, a área desmatada cresceu 28%. O atual governo tem combatido o desmatamento com mais eficácia. Apenas na Amazônia, a devastação retrocedeu 52,6%. Para que o combate tenha êxito duradouro, é essencial que as multas sejam levadas a sério — e pagas.
Moraes e Toffoli não podem votar no dia 15
Por Folha de S. Paulo
Ambos têm relações com Vorcaro e conflitos de
interesse óbvios no caso Master
Trama para tirar André Mendonça da votação carece de base fática; ministros devem avaliar tão-somente os fatos, suficientes para investigação policial
Vencida a etapa inicial para o esclarecimento
dos gravíssimos fatos que pesam sobre o ministro Alexandre de
Moraes, é preciso atenção às possíveis tentativas de sabotar o procedimento
anunciado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin.
Parece evitada a maior armadilha, a da
repetição de uma sessão secreta como a que em fevereiro livrou Dias
Toffoli. Será mais difícil conchavar à luz do dia.
Mas a batalha sorrateira não terminou. Um
jeito de tentar varrer o elefante para debaixo do tapete seria avaliar só o
parecer do procurador-geral da República, Paulo Gonet,
sem entrar no mérito da perícia da Polícia Federal. Gonet apressou-se em considerar
inválido o relatório que identificou Moraes como interlocutor do mafioso Daniel
Vorcaro.
O procurador não tem isenção no tema. É
citado no relatório da PF em situações de proximidade com a trupe do banqueiro
de fancaria, uma delas tratando da inclusão do filho numa boca-livre do Master
em Londres. A frase "Oba!!! Tomara que tenha charuto e macallan!"
tornou-se clássico instantâneo do escândalo.
Outro tópico crucial é quais dos dez
ministros estarão impedidos de deliberar sobre a abertura da investigação
policial.
Na teoria, é simples. Toffoli, que após
reunião do plenário da corte que lhe retirou a relatoria tem se declarado
impedido no caso Master, não tem por que mudar a conduta. Moraes, por óbvio,
não deveria votar num caso que envolva Moraes.
Pela movimentação de Moraes —e de Flávio Dino na
estapafúrdia tentativa de desautorizar a Segunda Turma no afastamento do
diretor-geral da PF—, especula-se no STF sobre
uma ação para retirar
da votação André Mendonça.
Essa iniciativa arguiria conflito de
interesses de Mendonça no caso porque ele teria feito prejulgamentos e
escolhido alvos na relatoria do inquérito do Master.
As evidências levantadas para tal elucubração
são fajutas. Baseiam-se na ação de um aparato policial paralelo e em
documentação apócrifa, sem valor de prova.
O que precisa ser avaliado no próximo dia 15
são tão somente suas excelências, os fatos. Eles dão conta da contratação
exorbitante, por R$ 131 milhões, do escritório da família Moraes; de que o
contrato foi modificado pelo usuário "Ministro Alexandre de Moraes";
de que há 52 mensagens enviadas do celular de Vorcaro ao contato
"Alexandre de Moraes BRASÍLIA", com quem o criminoso dialogava como
se falasse com seu consultor particular; de que cinco ocorreram na véspera da
prisão do fraudador, sempre em modo que se apaga após a visualização; de que
nessas trocas Vorcaro pedia providências para escapar das garras da lei.
Qualquer cidadão, diante desses indícios, já
estaria sob investigação policial —etapa preliminar, que não se confunde com
culpa nem condenação. Na República, um ministro do Supremo não pode ter
tratamento diferente do dispensado a qualquer cidadão.
Dois erros não fazem um acerto
Por Folha de S. Paulo
Resposta ao 11 de Setembro levou os EUA a
guerras desastrosas e infrações de direitos fundamentais
Guantánamo e programas secretos da CIA
constituíram violações dos valores que o país dizia proteger; Trump recicla a
política do medo
Vinte e cinco anos depois, o 11 de
Setembro permanece como marco histórico não apenas pela
dimensão do horror, que
deixou 2.977 mortos, excluídos os 19 sequestradores, mas pela
sucessão de decisões políticas tomadas em seu nome.
A manhã em que aviões comerciais foram
lançados por terroristas liderados por Osama bin Laden contra as torres do
World Trade Center e o Pentágono expôs a vulnerabilidade da maior potência
mundial. A reação demonstraria que democracias também podem infligir danos
duradouros a si mesmas quando, dominadas pelo medo, abrem mão de limites
legais, controles institucionais e exame dos fatos.
Os atentados exigiam resposta à Al Qaeda e
ao regime do Talibã no Afeganistão.
Não justificavam tortura, prisões por tempo indeterminado, centros clandestinos
de detenção, vigilância em massa ou a invasão do Iraque.
O governo George W.
Bush explorou o trauma para ampliar poderes e conduzir uma guerra
baseada em premissas falsas. Saddam Hussein não participara dos ataques nem
possuía arsenais de destruição em massa apresentados como ameaça iminente.
O conflito derrubou uma ditadura sanguinária,
mas deixou centenas de milhares de mortos, fortaleceu o Irã e
contribuiu para o extremismo que se pretendia combater. A ocupação do
Afeganistão se prolongou por duas décadas para terminar com a volta
do mesmo Talibã ao poder.
A Guerra ao Terror mostrou como uma sociedade
atacada pode confundir defesa com licença para agir sem freios. Guantánamo, Abu
Ghraib e os programas secretos da CIA não
constituíram desvios menores, mas violações dos valores que o país dizia
proteger.
Esse legado nocivo ganha relevância renovada
no segundo mandato de Donald Trump.
O 11 de Setembro não criou o trumpismo, e
seria simplista traçar uma linha direta entre os atentados e a atual erosão
democrática americana. A resposta aos ataques, contudo, ajudou a normalizar uma
Presidência mais poderosa, a invocação constante de emergências e uma linguagem
política fundada em ameaças.
Em vez de concentrar a mobilização num
inimigo estrangeiro, o
republicano tornou alvos parcelas da sociedade: imigrantes,
universidades, jornalistas, servidores, adversários e instituições capazes de
limitar o Executivo.
O medo do terrorismo cedeu espaço ao medo do outro. Cindido num grau não observado havia décadas, o país nunca mais se uniria como nas horas que se seguiram àquela manhã de 11 de Setembro, vinte e cinco anos atrás.
Gonet é suspeitíssimo
Por O Estado de S. Paulo
Cabe à PGR opinar sobre investigação de
ministro do STF, mas por razões óbvias o procurador-geral tem o dever de se
declarar impedido na sessão do STF que analisará o caso de Moraes
Na condição de dominus litis, ou seja, titular da
ação penal pública derivada de inquérito originário do Supremo Tribunal Federal
(STF), o procurador-geral da República é a autoridade incumbida de opinar sobre
a investigação criminal de ministros da Corte. Em tese, portanto, cabe ao sr.
Paulo Gonet requerer ou contestar a abertura de inquérito contra o ministro
Alexandre de Moraes, suspeito de ter cometido ao menos quatro crimes –
corrupção passiva, advocacia administrativa, tráfico de influência e violação
de sigilo funcional – ao se associar a Daniel Vorcaro.
Como é sobejamente sabido, Moraes está
financeiramente vinculado a Vorcaro por meio do milionário contrato de
advocacia – editado pelo próprio ministro – entre o Banco Master e o escritório
de sua mulher, Viviane Barci de Moraes. Ademais, como este jornal revelou, a
Polícia Federal (PF) descobriu que ambos trocaram mensagens em ritmo frenético
até poucas horas antes da prisão do banqueiro à porta da fuga, em 17 de
novembro do ano passado.
O problema, incontornável, é que o sr. Gonet
também figura no relatório da PF como uma das autoridades que se refestelaram,
no Brasil e alhures, com as mordomias bancadas por Vorcaro – ou melhor, pelas
vítimas das fraudes que o vigarista cometeu enquanto controlava o Banco Master.
Há mensagens constrangedoras atribuídas a Gonet com interlocutores de Vorcaro.
Nelas, aquele que seria o procurador-geral diz sentir “saudades” do banqueiro,
pergunta se em determinado convescote seriam servidos uísque Macallan e
charutos aos convivas e pede para que seu filho seja incluído em uma dessas
borgas.
Como coadunar a mera ideia de república com a
presença de Gonet na sessão plenária do STF na próxima terça-feira, na qual o
colegiado decidirá se Moraes deve ou não ser investigado? Mais: como Gonet pode
continuar chefe do Ministério Público Federal sem que a Procuradoria-Geral da
República, uma das unidades fundamentais do sistema de Justiça, seja
desmoralizada pela pusilanimidade de seu titular? Convém lembrar que, no mesmo
dia em que o ministro André Mendonça levantou o sigilo sobre o relatório da PF
que apontou as supostas ligações de Moraes e Gonet com Vorcaro, o
procurador-geral defendeu a nulidade do documento que o comprometia. Noutras
palavras: o juízo do sr. Gonet já está formado – e é flagrantemente contrário
não só à robustez dos indícios que pesam contra ele, mas sobretudo ao melhor
interesse público.
Alexandre de Moraes precisa ser investigado.
É o mínimo do que esta república precisa para seguir vigorando como regime
político no qual todos são iguais perante a lei. A Moraes, como de resto a qualquer
cidadão, a Constituição garante presunção de inocência. Mas ele, no mínimo, tem
de ser investigado e, nessa condição, afastado do cargo de ministro do Supremo
Tribunal Federal. Se acaso nem uma coisa nem outra ocorrerem na sessão plenária
do STF no próximo dia 15, seguramente a mais importante nesses quase 40 anos de
vigência da ordem constitucional de 1988, será mais que uma vergonha: será uma
implosão institucional.
Se o senso de decência pessoal de Gonet
falhar e ele não se declarar impedido para seguir à frente do parquet por estar “diretamente
interessado no feito” (art. 258 do Código de Processo Penal, combinado com art.
252, inciso IV, da mesma lei), há caminhos legais para a sua destituição. O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, não só pode como deve destituí-lo
do cargo, sob autorização da maioria absoluta dos senadores (art. 128,
parágrafo 2.º da Constituição). O próprio Senado, aliás, tem razões para abrir
um processo de impeachment contra o procurador-geral.
Ademais, a Lei Orgânica do Ministério Público
da União (Lei Complementar 75/1993) prevê a substituição do procurador-geral da
República em caso de afastamento, e nada impede que Gonet seja substituído por
um subprocurador-geral naquela sessão específica. É o que tem de acontecer.
Gonet não pode atuar como dominus
litis na sessão que definirá o destino jurídico de Moraes com
base em um relatório da PF no qual ele também é implicado. É simples entender
que, em um julgamento que exige absoluta isenção do defensor da ordem jurídica,
Gonet não pode ser fiscal de si mesmo.
Um arcabouço para a inteligência de Estado
Por O Estado de S. Paulo
Crise no Supremo reforça a urgência de um
marco para a inteligência que imponha limites, proteja o Estado da
instrumentalização e não crie novas zonas de opacidade
A crise sem precedentes instalada na
República oferece uma oportunidade para o País acertar as contas com a precária
regulamentação de sua atividade de inteligência. A deficiência não é nova. O
episódio da chamada “Abin paralela” no governo de Jair Bolsonaro já havia
mostrado o risco de um órgão de Estado ser colocado a serviço de interesses de
governo. Agora, relatórios de inteligência da Polícia Federal (PF) foram
arrastados para a guerra entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O
problema, portanto, continua à espera de solução.
A lei que criou a Agência Brasileira de
Inteligência (Abin) e instituiu o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) é
de 1999. Em seus poucos artigos, organizou a estrutura, definiu atribuições
gerais e previu a fiscalização pelo Congresso. Para uma atividade que opera sob
sigilo e dispõe hoje de recursos que nem sequer existiam quando a lei foi
escrita, é muito pouco. A lei quase nada diz sobre como dados podem ser
obtidos, que técnicas podem ser empregadas, como os relatórios devem circular e
quais são os limites para seu uso. Em matéria tão sensível, imprecisão não é
detalhe burocrático.
O País já descobriu isso da pior maneira.
Durante o governo de Bolsonaro, a investigação da chamada Abin paralela
levantou suspeitas de que recursos da agência foram empregados para monitorar
autoridades, políticos, jornalistas e adversários e atender a interesses
particulares do então presidente e de sua família. Ao tratar do caso, em 2024,
este jornal advertiu que nenhuma democracia digna do nome pode tolerar uma
parte da máquina estatal agindo fora dos controles institucionais para
satisfazer interesses do governante. O escândalo deveria ter sido suficiente
para apressar o Congresso. Não foi.
A crise atual mostra que as brechas continuam
abertas. O ministro do STF Alexandre de Moraes valeu-se de um relatório de
inteligência da PF para acusar seu colega André Mendonça de uma série de
irregularidades. Era um documento que se declarava “sem caráter decisório e sem
valor probatório”, de “baixa a moderada confiabilidade”. Como este jornal já
afirmou, uma peça tosca acabou transformada em munição numa disputa entre
ministros do Supremo. Na reação, Mendonça atingiu a própria cúpula da PF. A
inteligência, que deveria subsidiar decisões do Estado, foi tragada por uma
disputa entre autoridades.
O episódio torna evidente a necessidade de
limites. A produção de inteligência tem finalidade própria e não pode ser
confundida com investigação criminal. Seus relatórios tampouco são provas.
Muito menos deveriam circular e produzir consequências conforme a conveniência
de quem consegue pôr as mãos neles.
O Congresso já tem uma proposta para
regulamentar o setor, elaborada pela Comissão Mista de Controle das Atividades
de Inteligência. O projeto chegou ao plenário do Senado, mas teve sua votação
novamente adiada em julho, desta vez a pedido da liderança do governo, por
falta de acordo sobre o texto.
O projeto corrige parte das brechas expostas
nos últimos anos, mas ainda precisa de ajustes, sobretudo para que a
regulamentação não crie novas zonas de opacidade. O texto coloca o
diretor-geral da Abin entre as autoridades com poder para classificar
informações sob as regras da Lei de Acesso à Informação. É um poder
especialmente sensível nas mãos do dirigente de um órgão ao qual o próprio
projeto confere novas prerrogativas.
A atividade de inteligência exige discrição,
continuidade e instrumentos excepcionais porque sua função é proteger o Estado.
Por isso mesmo, não pode ficar a serviço de quem temporariamente exerce o
poder.
Bolsonaro não podia ter uma Abin para chamar
de sua. Moraes não pode transformar um relatório da PF em arma numa disputa
pessoal. Governos passam, ministros passam, diretores passam, partidos entram e
saem do poder. Inteligência de Estado só merece esse nome quando está protegida
de todos eles.
A gasolina de Lula
Por O Estado de S. Paulo
Governo volta a anunciar medidas para conter
preços de diesel e gasolina a três semanas das eleições
O petróleo superou a marca de US$ 100 por
barril, mas, no Brasil, os combustíveis continuam imunes à explosão das
cotações internacionais e à escalada dos conflitos entre Estados Unidos e Irã.
Não se trata de mágica, muito menos autossuficiência na produção de derivados.
O motivo é a renovação do arsenal populista do governo Lula para conter os
preços do diesel e da gasolina a três semanas do primeiro turno da disputa eleitoral.
Quando as primeiras medidas foram lançadas,
em março deste ano, logo após o início da guerra no Oriente Médio, o Executivo
garantiu que elas só contemplariam o diesel. Era algo relativamente
compreensível em um país cujo transporte de cargas é majoritariamente
rodoviário, tendo em vista o impacto na inflação de maneira geral.
À época, no entanto, a equipe econômica
descartou a possibilidade de incluir a gasolina e o gás de cozinha entre os
itens que seriam alvo de desonerações ou subvenções e ficou muito contrariada
com as comparações entre as medidas anunciadas por Lula agora e as adotadas
pelo então presidente Jair Bolsonaro em plena campanha eleitoral de 2022.
Como se vê, nada como o tempo – e pesquisas
desfavoráveis para o incumbente – para mudar convicções. O que começou com o
diesel rapidamente foi ampliado para a gasolina, o gás de cozinha, o etanol
hidratado, o biodiesel e o querosene de aviação. Da mesma forma, ações que se
diziam temporárias foram esticadas para durar, convenientemente, até as
eleições.
Com algumas diferenças, foi assim no governo
Bolsonaro, que sangrou as receitas dos Estados ao obrigar o Congresso a mudar a
legislação do ICMS sobre combustíveis e demitiu presidentes da Petrobras até
encontrar um que fizesse o que ele queria. A administração de Michel Temer, por
sua vez, recorreu a subsídios para acabar com a greve dos caminhoneiros. E na
gestão de Dilma Rousseff, a conta do represamento dos preços, de caráter
escandalosamente eleitoreiro, foi repassada à Petrobras.
Entre renúncia de receitas e gastos com
subvenções a produtores e importadores, o governo Lula já torrou R$ 25 bilhões
e deve desembolsar mais R$ 12,5 bilhões até o fim deste mês. Em tese, isso será
bancado pela arrecadação extraordinária oriunda do Imposto de Exportação de 12%
que Lula impôs sobre o petróleo cru em março e que acaba de ser renovado por
mais 60 dias, manobra que a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) não permitia,
mas que o Congresso aprovou a pedido do governo.
Para completar, não passou despercebida a
confusão dos comunicados da Petrobras, que inicialmente divulgou um reajuste na
gasolina, ainda que com efeito neutro para o consumidor, para horas depois
corrigir a informação e anunciar que haveria, afinal, redução nos preços.
Em relação ao preço do diesel vendido pela empresa nas refinarias da companhia, a defasagem já estaria em nada menos que R$ 3,20 por litro, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Manter preços artificialmente baixos em uma situação de escassez é o mesmo que estimular o consumo – e sinaliza que a conta da reeleição, cedo ou tarde, também chegará à Petrobras.
Alta de juros de longo prazo nos EUA é má
notícia para o Brasil
Por Valor Econômico
Em um cenário mais desafiador, seria recomendável que o país contivesse seu endividamento o mais rápido possível
Os investidores encontraram ontem mais
motivos para exigir rendimentos maiores dos títulos de 30 anos do Tesouro
americano, que bateram dois recordes. No mercado secundário, eles chegaram a
5,35%, maior taxa desde 2007. Mas em leilão primário de US$ 22 bilhões de
títulos de 30 anos, feito à tarde pelo Tesouro, os papéis foram vendidos com
rendimentos de 5,308%, um recorde em um quarto de século. Petróleo em alta
acelerada e uma aposta errada do secretário do Tesouro, Scott Bessent, de
recomprar títulos para reduzir os juros ajudaram a empurrar os rendimentos para
cima. Do outro lado do Atlântico, o Banco Central Europeu (BCE) elevou
novamente a taxa de juros a 2,5%, vislumbrando uma inflação que só recuará em
fins de 2027, e o Federal Reserve americano (Fed) pode fazer a mesma coisa nos
próximos meses.
A reeleição de Donald Trump e a execução de
uma política econômica protecionista e errática aceleraram algo improvável há
alguns anos: os títulos do Tesouro americano, os mais seguros do mundo, estão
com seus prêmios de risco em alta, elevando ainda mais uma dívida pública de
US$ 40 trilhões que cresce sem parar. O déficit público deve fechar o atual
exercício fiscal em 6% do PIB, perto de US$ 2 trilhões.
Há fatores conjunturais e estruturais que
motivam as altas. Sem qualquer perspectiva de acordo em duas guerras, na
Ucrânia e no Oriente Médio, o petróleo voltou a ultrapassar os US$ 100 o barril
— o barril do Brent chegou ontem a US$ 107. Novos desdobramentos indicam piora
da situação de suprimento. Depois de atacarem instalações na Arábia Saudita, os
rebeldes houthis tomaram um porto no estreito de Bab el Mandeb, avançando em
seus planos de cortar a rota alternativa de escoamento do óleo saudita pelo Mar
Vermelho.
A inflação então ganhou novo fôlego,
exemplificado ontem no Índice de Preços ao Produtor dos EUA, que subiu 0,4% em
agosto e 5,4% em 12 meses. A alta reflete em grande parte aumento de 24,1% nos
preços do diesel no período. Na Europa, a inflação de agosto foi de 3,3%, e o
BCE elevou em 0,25 ponto a taxa de juros, para 2,5%. Mais distante da meta de
2% do banco, a inflação só deverá fazer o caminho de volta no fim de 2027,
segundo a presidente do banco Christine Lagarde. Os títulos de 10 anos do Reino
Unido pagavam rendimento de 5,38%, o mais elevado desde 2007, e os alemães de
mesmo prazo, 3,5%, os maiores juros desde 2011.
O pano de fundo da alta do custo dos títulos
de longo prazo é o enorme endividamento geral de todos os Tesouros dos países
ricos, após grandes rodadas de aumentos da dívida para enfrentarem, primeiro, a
grande crise financeira de 2008, depois, no caso da Europa, a crise da dívida
soberana de 2011, e, todos, em seguida, a mortífera pandemia da covid-19.
Novas demandas continuam empilhando gastos e
tornando mais distantes a perspectiva de austeridade. A principal ameaça é o
aquecimento global, que exige investimentos enormes na reconfiguração da matriz
energética para longe dos combustíveis fósseis. Mas a geopolítica, com a
destruição da ordem mundial vigente por Trump, joga um peso forte, ao tornar
inadiáveis para a Europa, por exemplo, os gastos com defesa.
A iniciativa de tentar asfixiar a Rússia
congelando reservas e cortando seus laços com o sistema financeiro ocidental,
iniciada pelo democrata Joe Biden e intensificada por Trump contra o Irã,
abalaram a confiança nos EUA como refúgio seguro para recursos de longo prazo
em seus títulos soberanos. Enquanto a oferta desses papéis se acelerou com o
aumento da dívida americana, clientes cativos como os bancos centrais se
desfizeram deles. A China encolheu suas posições de US$ 1,3 trilhão para US$
633 bilhões. A Índia reduziu em 26% seu estoque, para US$ 176 bilhões. O Brasil
diversificou reservas e reduziu em US$ 61 bilhões a exposição a esses papéis.
A posição dos BCs, que correspondia em 2007 a
72% do total do estoque do Tesouro americano, caiu a 43% hoje (Benn Steil, FT,
ontem). Em lugar de clientes institucionais e estáveis, os títulos do Tesouro
estão agora na maior parte nas mãos de investidores focados em ganhos, entre
eles os hedge funds, a ponta mais agressiva e especulativa dos mercados
financeiros. Há o risco, se o movimento de alta prosseguir por muito mais
tempo, de que o rendimento dos títulos soberanos dos EUA retire atratividade
dos investimentos nas bolsas e force a uma reprecificação atabalhoada dos
ativos.
Para o Brasil, a elevação das taxas de longo prazo nos EUA não é um bom sinal. O título de 10 anos do Tesouro é benchmark para captações externas dos países emergentes, aos quais se acrescentam prêmios de risco correspondentes à avaliação dos investidores estrangeiros sobre a solidez da economia e das contas públicas dos países que emitem papéis de dívida. Com a alta dos rendimentos dos treasuries, e mesmo sem mudança no prêmio de risco, a taxa que o Tesouro brasileiro tem de pagar tende a subir. Ou então, a remuneração dos treasuries de 10 anos mais o prêmio formam um piso a partir do qual os juros domésticos não poderão ser reduzidos. Nos dois casos, seria recomendável que o país contivesse seu endividamento o mais rápido possível.
Um número que nos envergonha
Por Correio Braziliense
O Brasil aboliu a escravidão em 1888. Mas,
138 anos depois, trabalhadores continuam sendo encontrados sem carteira
assinada, sem direitos e sem liberdade real de ir embora
Quantas pessoas precisam ser resgatadas de
condições análogas à escravidão para que o país pare e preste atenção? Em
agosto, 479 pessoas foram encontradas trabalhando nessa situação, segundo dados
da Operação Resgate VI divulgados nesta quarta-feira pelo Ministério Público
Federal. Entre elas, 13 crianças e adolescentes, 75 mulheres e 66 estrangeiros,
vindos de países como Burkina Faso, Senegal e Guiné-Bissau. O número,
obviamente, deveria ser zero.
O Brasil aboliu a escravidão em 1888. Mas,
138 anos depois, trabalhadores continuam sendo encontrados em lavouras de café,
plantações de cebola e de batata e obras de construção civil sem carteira
assinada, sem direitos e sem liberdade real de ir embora. A maioria dos casos é
na zona rural, mas quase dois em cada cinco estão nas cidades, inclusive em
ambiente doméstico, onde a fiscalização é historicamente mais difícil e a
invisibilidade das vítimas, maior.
A Operação Resgate, iniciada em 2021 com a
combinação de esforços do Ministério Público Federal, do Ministério Público do
Trabalho, da Polícia Federal, da Defensoria Pública da União e do Ministério do
Trabalho, produziu resultados concretos: 1.192 trabalhadores resgatados em
cinco anos, quase 760 ações penais em primeira instância. A lei sancionada em
julho, que autoriza auditores fiscais a entrar em residências para apurar
suspeitas sem mandado judicial, amplia o alcance da fiscalização no ambiente
doméstico.
São avanços. A escala do problema, porém,
ainda supera a capacidade de resposta. Empregadores flagrados são notificados e
obrigados a regularizar contratos retroativamente. A pergunta que os dados
deixam em aberto é quantos deles já tinham passagem pelo radar da fiscalização
e continuaram operando. A punição precisa ser proporcional ao crime, e submeter
alguém a condições análogas à escravidão, seja numa fazenda de café, seja num apartamento,
é crime grave que exige consequências graves.
A fiscalização precisa crescer em escala e em
profundidade. Os 1.836 autos de infração emitidos em agosto são um indicativo
de que, quando os agentes chegam, encontram irregularidades, o que levanta a
questão óbvia sobre quantos locais semelhantes nunca foram visitados. O
orçamento destinado à inspeção do trabalho no Brasil segue aquém do necessário
para cobrir um país de dimensões continentais e uma economia informal que ainda
emprega dezenas de milhões de pessoas.
Ampliar o número de auditores fiscais,
garantir recursos para operações de campo e endurecer as penalidades para
reincidentes não são medidas opcionais. São o mínimo que se pode exigir de um
Estado que se compromete a erradicar o trabalho escravo, um desafio que o
Brasil assumiu perante si mesmo e perante a comunidade internacional há
décadas.
O número de agosto pode ser lido como prova de que a fiscalização funciona. Mas também pode ser lido como prova de que o problema persiste em escala que nenhuma operação, por mais bem conduzida que seja, resolve sozinha. O Brasil tem instrumentos legais, força-tarefa ativa e jurisprudência consolidada para combater o trabalho escravo. O que falta é escala. E vontade política para sustentá-la no tempo, independentemente do calendário eleitoral ou da pressão de setores que preferem que a fiscalização continue chegando tarde.
Jovens precisam de proteção contra jogos
online
Por O Povo (CE)
Quase a metade dos alunos do 3º ano do ensino
médio apostaram em plataformas digitais
Pesquisa da Frente Parlamentar Mista da
Educação mostra que um em cada cinco estudantes nos anos finais do ensino
fundamental e do médio já fez apostas online, como divulgou este jornal na
edição desta quinta-feira. Ou seja, segundo o levantamento, 20,4% dos
estudantes afirmaram já terem jogaram em bets. No Brasil, é proibido o acesso a
plataformas digitais de jogos a menores de idade. No entanto, pelo que se pode
comprovar, o veto é facilmente desrespeitado.
Se o recorte restringir-se a alunos do 3º ano
do ensino médio, o percentual chega a 49,7%; praticamente a metade dos
pesquisados apostaram digitalmente. Uma das informações consideradas de maior
impacto é que muitos jovens começam a apostar aos 11 anos de idade.
Pelo menos 9,5% dos estudantes até essa faixa etária disseram já ter feito
apostas. Outra observação importante é que, comparando-se por gênero, os
meninos apostam mais que as meninas, somando 27,8% ante 12,6% das meninas.
É um resultado que se pode chamar de
assustador, em vista dos malefícios causados por esse tipo de aposta
que, facilmente, leva ao vício, como já está sobejamente comprovado. O
levantamento, em parceria com a Equidade.info ouviu 1.912 estudantes de 191
escolas de todo o país, com entrevistas presenciais.
Para o supervisor da pesquisa, Guilherme
Lichand, professor de Educação da Universidade de Stanford, o levantamento
contribui para trazer à luz o problema em toda a sua extensão. "Os números
geram incômodo e muitas outras perguntas. Essas apostas estão concentradas em
eventos esportivos, sobretudo futebol? Como crianças e adolescentes
descobrem essas plataformas? Como contornar as restrições de idade,
problema comum tanto aos sites de apostas esportivas quanto às redes
sociais?", questiona ele.
Analisando a pesquisa, o professor traça
as características do aluno que faz apostas: "Os dados ajudam a entender o
perfil típico do estudante que aposta online. Menino, frequentando o ensino
médio, de famílias com alguma renda disponível, mas cujos pais não cursaram o
ensino superior. É deste público de onde vem a maior parte do volume enorme de
recursos".
Em 2025 o Fundo das Nações Unidas para a
Infância (Unicef-Argentina) publicou um estudo para ajudar adultos a
conversarem com crianças e jovens, de modo a protegê-los dos jogos online.
O documento chama a atenção para os
"sinais de alerta" que podem indicar "o vício em jogos de
azar" em adolescentes, como alterações de humor, insônia e baixo
rendimento escolar, entre outros,recomendando mais atenção, mais apoio e
diálogo aberto com os jovens.
Por sua vez, as autoridades têm a obrigação de tornar muito mais severa a regulamentação das bets para proteger os jovens do jogo.

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