quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Gilmar e Dino mantêm agonia de Moraes

Por O Globo

Com a manobra dos ministros, STF adia decisão e frustra expectativa de abertura de investigação

Uma manobra dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes bastou para manter a agonia na maior crise enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em seus 135 anos de História. O dever dos ministros na sessão de ontem não era fácil, mas era simples: autorizar ou não uma investigação sobre as relações entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e maior fraudador da História do sistema financeiro brasileiro. O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo, manteve desde o início uma condução firme e serena dos trabalhos. Mas, em vez de enfrentar a questão com o destemor exigido dos magistrados mais graduados do Brasil, a Corte se perdeu em intermináveis discussões sobre procedimentos jurídicos, entremeadas por indiretas, algum bate-boca e até agressões incompatíveis com o decoro do cargo. Ao fim, um pedido de vista de Dino impediu o único desfecho razoável para caso de tamanha relevância — e adiou qualquer decisão por 90 dias.

Diante dos indícios eloquentes obtidos pela Polícia Federal (PF) — entre eles 52 mensagens em que Vorcaro tenta usar Moraes para barrar as investigações das falcatruas no Master e o contrato de R$ 130 milhões entre o banco e o escritório da mulher do ministro —, a sociedade brasileira esperava que o STF transmitisse um recado cristalino: o fato de Moraes ser ministro da mais alta Corte não o livraria de ser investigado; a lei que vale para todos os demais brasileiros valeria para ele também. E é oportuno repetir: não se tratava de condenar, nem sequer de denunciar, mas apenas de autorizar a apuração dos fatos diante dos indícios levantados pela PF. A despeito da simplicidade da questão, o recado do tribunal foi confuso, envolto num debate jurídico estéril, impenetrável e — para decepção de todos — inconclusivo.

É sempre difícil tomar uma decisão atingindo integrante da própria Corte, mas justamente por isso era imperativo que o Supremo tivesse cumprido tal dever com determinação. De início, os ministros mergulharam na discussão de uma questão de ordem levantada por Gilmar com base em análise de Dino. O objetivo era adiar a votação sobre o relatório da PF repleto de evidências sólidas contra Moraes para o próximo dia 23, quando está marcado o exame do pedido de investigação retaliatório que Moraes elaborou contra o ministro André Mendonça, com base noutro relatório que a própria PF qualificou como “sem valor probatório”.

Os ministros Dias Toffoli e Nunes Marques se declararam impedidos, mas Moraes se sentiu à vontade para votar num julgamento que dizia respeito a ele próprio, sob a alegação questionável de que a questão de ordem não tinha relação com o mérito do relatório de que foi alvo. Além dele, o ministro Cristiano Zanin também votou com Gilmar pelo adiamento. Do outro lado, votaram contra o adiamento Fachin, Mendonça e os ministros Luiz Fux e Cármen Lúcia. E apenas ela, que esperou com paciência até o final da sessão para falar, teve o bom senso de pedir desculpas ao povo brasileiro pelo resultado da sessão. “Não é uma das páginas mais festivas [da Corte]”, afirmou. “O país espera de nós uma tranquilidade que não conseguimos dar.

No final, aqueles que desde o início queriam tumultuar lograram seu objetivo: Moraes foi por ora poupado. Ficou claro que o Supremo decepcionou. A sociedade exige que o Judiciário zele pela justiça, não que se perca em embates vazios de interesse pessoal dos ministros. A agonia persiste na mais alta Corte — enquanto o Brasil assiste a tudo com perplexidade e consternação.

Caso Alvinho expôs descaso com crianças superdotadas no Brasil

Por O Globo

Menino com altas habilidades deixou abrigo e voltou às aulas. Mas país não sabe quantos casos similares existem

No último domingo, o menino Adriano Álvaro Melo, o Alvinho, e sua mãe Priscila deixaram enfim o abrigo municipal em que moravam desde junho no bairro do Grajaú, na Zona Norte do Rio, e seguiram para Cabo Frio, onde ele concluirá o ano letivo. Descoberto na Favela da Maré aos 7 anos, Alvinho ficou conhecido pelas altas habilidades cognitivas. Exibiu talentos como enxadrista, participou de turma de robótica na UFRJ, lançou livro, deu palestras e, depois de fazer um curso on-line de programação da Universidade Harvard, desenvolveu o jogo “Super Alvinho”. Apesar de tudo isso, passou o aniversário de 10 anos, em abril, no abrigo com a mãe, diagnosticada no ano passado com tuberculose resistente e sem condição de sustentar o filho. Depois de reportagem do GLOBO em agosto, formou-se uma rede de solidariedade que os retirou da penúria e permitiu que o menino voltasse à escola. O caso, porém, ainda serve alerta sobre o descaso com que o Brasil trata crianças com altas habilidades ou superdotação (AH/SD).

É certo que o governo federal sancionou em junho a lei que cria a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, prevendo um cadastro nacional desses alunos. A lei promove um avanço inegável ao abrir espaço para a progressão escolar mais flexível e rápida. Também é verdade que a rede de ensino básico tem avançado na identificação de crianças com AH/SD. Mas o avanço não tem se dado em ritmo satisfatório. Continua grande a subnotificação, e o caso de Alvinho mostra que, mesmo quando identificados, os superdotados não recebem o apoio necessário. O Brasil nem sequer sabe com exatidão quantos casos semelhantes existem no país.

No Censo Escolar, crianças superdotadas são incluídas no bloco da educação especial, somadas a casos de autismo, deficiência motora ou intelectual. Quando as estatísticas são desagregadas, fica claro que os registros, ainda que tenham aumentado, são inferiores ao esperado. Em 2015, havia apenas 13.800 alunos identificados como AH/SD no país. No ano passado, eram 56.200, o quádruplo, num período em que as matrículas caíram de 48,2 milhões para 46 milhões. Mas a literatura acadêmica fixa entre 3% e 5% a média de alunos do tipo no mundo. Por essa régua, o Brasil deveria ter entre 1,38 milhão e 2,3 milhão. Portanto, de 96% a 98% passam despercebidos. Em apenas dois dos 5.570 municípios brasileiros, ultrapassam 3%, diz estudo na Revista Brasileira de Educação Especial.

O futuro das crianças superdotadas será decidido nas salas de aula. Elas costumam desafiar o currículo normal, são questionadoras e podem ser classificadas como indisciplinadas. Diretores de escolas e professores precisam de preparo e atenção redobrada. Depois de aparecer na reportagem do GLOBO, Alvinho, assim se espera, receberá os devidos cuidados. Seu caso contribuiu para expor a necessidade de uma política ampla e eficaz para todos os Alvinhos espalhados pelo Brasil.

Supremo rachado ruma à desmoralização

Por Folha de S. Paulo

Gilmar, Dino e Zanin protelam decisão sobre a necessária investigação das relações entre Moraes e Vorcaro

Quase nada se falou do mais importante: que um ministro do STF se conectou a um fraudador por meio de um contrato de R$ 131 mi com sua esposa

A frustrante sessão do Supremo Tribunal Federal destinada a deliberar sobre a investigação do ministro Alexandre de Moraes —um imperativo— serviu ao menos para expor ao público as faces da atual divisão da corte.

Em defesa de Moraes, ou, mais exatamente, da procrastinação de qualquer iniciativa que possa ameaçar a impunidade de um dos seus, perfilaram-se Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin. Ao lado do próprio Moraes, que ignorou seu óbvio conflito de interesses e não se declarou impedido, o grupo deu prosseguimento à estratégia de tumultuar o debate com chicanas.

Em nada surpreendeu a questão de ordem levantada por Gilmar, baseada no intento de misturar o exame de fatos comprovados sobre as relações entre Moraes e Daniel Vorcaro, do Banco Master, com as alegações de motivação política por parte do ministro André Mendonça, até há pouco relator do caso.

Também era previsível um pedido de vista para interromper a sessão —que coube a um prolixo Dino, em meio a queixumes quanto aos bate-bocas entre os colegas e a mediação do presidente da corte, Edson Fachin.

Na obstrução teatral, magistrados que cometeram todo tipo de heterodoxia nos últimos anos se converteram em advogados fervorosos de ritos, protocolos e minúcias regimentais. Trataram um mero início de investigação formal como uma perseguição ou até uma ameaça à democracia ou ao Estado de Direito.

Quase nada se falou do mais importante: que um ministro da mais alta corte do país se conectou ao maior fraudador da história do sistema financeiro nacional por meio de um contrato de R$ 131 milhões com o escritório de sua família; que há dezenas de mensagens de Vorcaro em busca de ajuda e orientação enviadas, segundo a Polícia Federal, ao ministro, com o uso sintomático do recurso de visualização única.

Nas horas consumidas com a manobra de Gilmar, votaram contra a questão de ordem Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia —a mais comedida no caso e a única a fazer autocrítica ante da situação deplorável. Kassio Nunes Marques, no que lhe pareceu pessoalmente mais conveniente, e Dias Toffoli, por razões óbvias, declararam-se impedidos.

Rachado, o Supremo amplia a incerteza quanto a uma decisão crucial para sua credibilidade. Sabe-se lá quando a deliberação, dependente de uma maioria, será retomada; a desfaçatez do quarteto da impunidade e sua aposta no compadrio aprofundam uma crise que ameaça levar de roldão a política e as instituições.

Se a sessão pública teve o mérito de dissolver conchavos, a incapacidade escancarada de fazer o que é óbvio e republicano faz do STF um impasse nacional. As indicações para a corte, bem como o impeachment de ministros, tornaram-se tema da campanha eleitoral. O caminho para as reformas imprescindíveis do Supremo vai ficando mais perigoso.

Flávio é inexperiente e herdeiro de visão golpista

Merece escrutínio tentativa de se desvincular de relações com personagens envolvidos em atividades criminosas

Mais recentemente, veio à tona seu diálogo amistoso com Daniel Vorcaro e o pedido de milhões para o filme em homenagem ao pai

Desde que foi apontado pelo pai, Jair Bolsonaro, como candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta questionamentos sobre as qualidades que possuiria para ocupar o cargo mais alto da República.

A escolha surpreendeu setores da direita não bolsonarista que buscavam um postulante mais experiente e reconhecido, caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo e bem avaliado no Estado.

Num contexto em que mais uma vez não despontou uma candidatura conservadora forte, Flávio, mesmo sem o apoio entusiasmado do centrão, tornou-se competitivo, beneficiado pela polarização. Pesquisas recentes apontam empate técnico com Lula em cenários de segundo turno.

Tais resultados não dissipam as dúvidas sobre o candidato; ao contrário, tornam seu exame necessário. Flávio não possui experiência em gestão relevante nem trajetória parlamentar que, por si, o credencie para a Presidência. Mais grave é o projeto político do qual se apresenta como herdeiro.

Jair foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado, enquanto Flávio promete indultar o pai e preserva o discurso de confronto institucional. Também é arriscada sua subserviência a Donald Trump, presidente dos EUA, em temas sensíveis como tarifas, terras raras e mudança climática.

Não se trata de atribuir a Flávio responsabilidades de seus familiares, mas de saber que compromisso efetivo com a democracia oferece uma candidatura que reivindica essa herança política.

Merece escrutínio, ainda, a tentativa de se desvincular das relações mantidas ao longo dos anos por seu círculo político com personagens posteriormente associados a atividades criminosas.

Quando deputado estadual, chegou a conceder a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio a um policial que estava preso sob acusação de homicídio e que, mais tarde, seria identificado como integrante de milícia. Sua vida pública também foi marcada pela investigação sobre um suposto esquema de "rachadinhas" em seu gabinete.

Mais recentemente, veio à tona seu diálogo amistoso com Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o pedido de milhões para o filme em homenagem ao pai.

Nada disso, por óbvio, autoriza atribuir-lhe crimes que não foram provados. Mas é parte de sua biografia e não pode ser ignorado.

Antes de postular à Presidência, Flávio precisa demonstrar que está preparado para exercê-la —e que aceita sem ambiguidades os limites que a Constituição impõe a quem ocupa o poder.

Espetáculo degradante no Supremo

Por O Estado de S. Paulo

Por meio de chicanas e ofensas, Moraes e seus aliados tumultuam a sessão que deveria se ater ao caso escabroso do ministro. Cármen Lúcia se disse envergonhada. Todo o Brasil decente está

O Supremo Tribunal Federal (STF) se desmoralizou perante a Nação de um jeito que nem o mais obstinado de seus detratores poderia desejar. Ao fim de uma longa sessão, marcada por bate-bocas, ofensas e graves acusações entre alguns ministros, a Corte encerrou o dia no ponto exato em que começou, vale dizer, sem decidir sobre a abertura de investigação do ministro Alexandre de Moraes pela suposta consultoria que ele teria prestado ao banqueiro vigarista Daniel Vorcaro. Foi uma vitória, muito bem arquitetada, da turma chicaneira pró-Moraes e contra a sociedade, personificada pelos ministros Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Flávio Dino, além do indigitado.

Só a ministra Cármen Lúcia teve a dignidade de pedir desculpas ao País pelo “mal-estar cívico” que o STF provocou em “todos os cidadãos e todas as cidadãs” do Brasil. Ela se disse “envergonhada” pelo espetáculo degradante protagonizado por alguns de seus pares. Como ela, todo o Brasil decente está envergonhado.

Antes de Dino pedir vista a pretexto de serenar ânimos após um chilique teatral de Mendes e, assim, interromper o julgamento da questão principal por semanas ou meses, os chicaneiros se lançaram em enfadonhas perorações, de claro vezo procrastinatório, sobre questões preliminares minúsculas à luz da gravidade das suspeitas que pesam sobre o sr. Moraes. O propósito, evidentemente, era fugir, ao menos agora, da singela decisão de autorizar ou não a investigação – a mera investigação – do ministro.

Enquanto Alexandre de Moraes e André Mendonça discutiam sobre qual deles teria “mais medo” da Polícia Federal (PF) e se insinuava a existência de uma “PF paralela” monitorando ministros, Mendes e Dino, em jogral, atacaram a autoridade do presidente do STF, o ministro Edson Fachin. Ambos chegaram a dizer que Fachin teria se valido de um expediente da ditadura militar para avocar a relatoria da petição de investigação de Moraes – não só um absurdo jurídico-factual, como um insulto à decência e à história de vida do ministro presidente. Eis o nível da degradação da mais alta instância judicial do País, à beira do irrecuperável.

Tudo o que se viu ontem foi pura chicana. Nenhum dos ministros discutiu de fato o conteúdo das dezenas de mensagens atribuídas a Moraes e Vorcaro. Discutiram relatorias, ritos, objeto e outras filigranas. Sobre a gravidade do que lhes apresenta o caso concreto, nem uma palavra de horror ou de vergonha, à exceção, como notamos, de Cármen Lúcia. Tal foi a bagunça, decerto deliberada, que o ministro Kassio Nunes Marques nem sequer se constrangeu ao cometer a barbaridade de se declarar “impedido” por sua jurisdição à frente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – como se a Constituição não autorizasse o acúmulo de função de ministro do TSE e do STF. Impassível, Marques levantou-se e foi embora.

Ao contrário do que alega Moraes, não está em curso um ataque de golpistas ressentidos com ele ou com a Corte. Foram ministros como o próprio Moraes que lançaram o Supremo nesse esgoto moral, um ultraje à memória de todos os ministros de genuína reputação ilibada que lá já tiveram assento. São amplos os segmentos da sociedade civil, de convicções democráticas insofismáveis, que não se conformam em ver o Supremo se suicidar como instituição republicana em nome da salvação pessoal de um ou outro de seus integrantes. Quando uma ministra da própria Corte se diz envergonhada pelo que viu acontecer diante de seus olhos, não há brecha para que alguns de seus colegas sigam tratando como zelo processual o que é blindagem pura e simples.

Se, ao fim de toda essa história escabrosa, o Supremo decidir não investigar Moraes, não será mais visto como um Poder da República, e sim como uma extensão do escritório de advocacia da família do ministro – e de sabe-se lá mais quem. Caberá ao Senado, então, fazer o que a Corte não teve a decência de fazer e cassar o sr. Alexandre de Moraes. Nunca é demais lembrar que a força do Judiciário vem da legitimação cotidiana de seus juízes. E se o próprio Supremo vier a matá-la para que um dos seus possa escapar do escrutínio de suas atitudes, que a maioria dos senadores salve a Corte de si mesma.

A desculpa do ‘custo da democracia’

Por O Estado de S. Paulo

Estudo mostra que o Fundo Eleitoral cresce muito mais do que o número de candidatos. Com campanhas mais curtas e mais baratas, o tal ‘custo da democracia’ deveria cair, mas só aumenta

Criado para livrar as eleições dos vícios do financiamento empresarial, o Fundo Eleitoral tornou-se uma prodigalidade permanente bancada pelo contribuinte. E ser generoso, como se sabe, é muito mais fácil quando quem paga a conta é o outro. A cada dois anos, independentemente do estado das contas públicas, deputados e senadores encontram uma maneira de aumentar a fatia do Orçamento destinada a financiar suas campanhas.

Estudo publicado pela Consultoria Legislativa do Senado ajuda a dimensionar essa escalada. Entre 2018, primeira eleição geral em que o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) foi usado, e 2022, seu valor cresceu 133% acima da inflação. Não consta que o Congresso tenha demonstrado precisar de tudo isso. Bastou decidir que queria.

No mesmo período, o salário mínimo passou de R$ 954 para R$ 1.212 e praticamente não teve ganho real, apenas a reposição da inflação. Ou seja, o caixa dos partidos engordou, mas o de quem paga essa conta continuou esquálido.

A cada aumento, os políticos entoam a mesma cantilena: esse é o “custo da democracia”. Foi com esse argumento que o Fundo Eleitoral cresceu de R$ 1,7 bilhão em 2018 para R$ 4,9 bilhões. Não consta que a verba destinada às políticas públicas relevantes para a maioria dos brasileiros tenha registrado expansão semelhante.

O estudo registra que mais candidatos à Câmara dos Deputados passaram a receber recursos públicos e que diminuiu a desigualdade na distribuição. Os próprios números, porém, dão a medida desses avanços. Entre 2018 e 2022, enquanto o Fundo Eleitoral crescia 133% acima da inflação, o número de candidatos financiados por ele cresceu apenas 49%. Ou seja, há cada vez mais dinheiro para cada vez menos candidatos.

E a fartura não eliminou uma das distorções mais evidentes do sistema. A desigualdade entre partidos diminuiu, mas a concentração dentro das próprias legendas permaneceu elevada. Partidos não são obrigados a distribuir o dinheiro igualmente, nem faria sentido exigir que o fizessem. O problema aparece quando se olha para quem costuma estar no lado mais confortável dessa distribuição.

Em 2022, deputados federais que disputavam a reeleição receberam, em média, R$ 1,7 milhão do Fundo Eleitoral, segundo levantamento da Folha. Os outros candidatos à Câmara contemplados com recursos receberam, em média, R$ 227 mil. Ou seja, quem já ocupava uma cadeira largou com sete vezes mais dinheiro público que os demais. Quatro anos antes, a diferença havia sido de oito vezes. É uma curiosa maneira de financiar a competição: entregar muito mais dinheiro justamente a quem já começa com vantagem.

A explicação dos partidos é óbvia. Quem já tem mandato costuma ter nome conhecido, estrutura política, base eleitoral e maiores chances de vitória. Para as legendas, apostar neles é um bom negócio e uma forma de evitar que o dinheiro seja desperdiçado.

Mas ora, quem exerce mandato já dispõe durante quatro anos de estrutura parlamentar, assessores e instrumentos legítimos de divulgação de sua atividade. Deputados e senadores adquiriram ainda enorme influência sobre o Orçamento por meio das emendas parlamentares. Não bastasse ao Estado financiar o exercício do poder, passou também a financiar generosamente a tentativa de nele permanecer. A renovação política, assim, fica para uma próxima eleição.

E vale ressaltar que ressuscitar o financiamento empresarial seria apenas trocar uma distorção por outra. Foi justamente a promiscuidade entre grandes empresas, partidos e candidatos que tornou aquele modelo insustentável.

Eleições custam dinheiro. Quase R$ 5 bilhões, no entanto, exigem explicação melhor que o jogral sobre o “custo da democracia”. Fica mais difícil justificar a cifra diante de regras que vêm reduzindo o número de candidatos e encurtando o tempo de campanha. Ainda assim, já circulam no Congresso articulações para engordar novamente o fundo nas próximas eleições.

O estudo do Senado identifica mudanças na distribuição dos recursos desde a criação do fundo. Nenhuma delas, porém, explica por que o financiamento das eleições precisou crescer tanto acima da inflação.

No rastro dos celulares roubados

Por O Estado de S. Paulo

Finalmente o Estado atua de forma robusta contra esses bandidos que infernizam São Paulo

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), e as Polícias Civil, Militar e Penal deflagraram na semana passada uma megaoperação de combate ao furto e ao roubo de celulares na cidade de São Paulo. Num só dia, foram às ruas 1,7 mil agentes, acompanhados de cães farejadores treinados para detectar componentes químicos de celulares. Eles cumpriram 84 mandados de busca e apreensão, bloquearam valores milionários e recolheram toneladas de equipamentos. Ao todo, 15 pessoas foram presas, sendo 8 em flagrante.

Os paulistanos clamavam por uma resposta do Estado. A capital paulista concentra 20% do total de registros de furto e roubo de celulares do País. Em 2025, 154.058 aparelhos foram levados por ladrões que atuam de motos ou bicicletas, mirando os pedestres, ou por bandidos que agem nas gangues do quebra-vidro, vitimando motoristas ou ocupantes de veículos parados no trânsito.

Com a Operação Frankmobile, os paulistanos foram, enfim, ouvidos. E não se pode negar que o esforço conjunto foi bem-sucedido. O balanço da força-tarefa é uma evidente demonstração de firmeza do Estado, assim como um bom exemplo de que a colaboração e a articulação entre as instituições precedem a força.

Há dois anos, os investigadores do Gaeco deram início às apurações contra a cadeia de furto e roubo de celulares, a partir de desdobramentos da Operação Salus et Dignitas, que desbaratou o ecossistema do crime organizado na extinta Cracolândia, no centro da capital paulista. E é na região central que estão os principais polos de comércio de produtos eletrônicos que foram alvo da Frankmobile, como a Rua Santa Ifigênia, a Rua 25 de Março e o Shopping Mundo Oriental.

Com base em informações de ladrões de celulares que já estavam presos e integravam a primeira etapa dessa cadeia, os promotores conseguiram destrinchar as fases seguintes percorridas por um aparelho roubado. Nelas estão os criminosos que desbloqueiam os celulares, acessam dados e transferem valores; aqueles que alteram o Imei, uma espécie de identidade do aparelho, para devolvê-lo ao mercado; e os bandidos que, quando o celular não volta ao mercado, são responsáveis por desmontá-lo para abastecer o comércio ilegal de peças.

Esse cerco só se fechou graças ao trabalho de inteligência do MPSP e da Assessoria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública (SSP), que cruzaram dados de relatórios do Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) e analisaram informações da Receita Estadual. E, de posse do diagnóstico do problema, o governo paulista anunciou que o Estado pretende travar a emissão de nota fiscal que não contiver a numeração do Imei, como forma de inibir a venda, em lojas físicas e marketplaces, de aparelho roubado. É uma boa medida.

Tudo isso ilustra bem como a inteligência, a cooperação e a força se somam, e não se excluem. Certamente não é o fim desse tipo de crime, mas é um recado contundente das autoridades a esses bandidos que tanto infernizam São Paulo.

Economia chinesa desacelera, mas exportações disparam

Por Valor Econômico

O segundo choque chinês é bem mais que uma válvula de escape para as agruras do consumo interno

A economia chinesa está desacelerando aos poucos, em um movimento equilibrado pelo avanço de sua formidável capacidade exportadora. O consumo interno e os investimentos estão caindo, mas não a produção industrial, que tem permitido mega-superávits comerciais com o resto do mundo. Desde o estouro da bolha imobiliária chinesa, em 2021, o governo teve incentivos para substituir os motores do crescimento, das exportações para o consumo interno, o que exige estímulos para o aumento da renda doméstica. Isso não aconteceu, e o boom de exportações indica que não deverá ocorrer tão cedo.

Os números de agosto revelam os dois lados da economia chinesa. O varejo cresceu apenas 0,4% em relação ao mesmo mês de 2025, ante 0,6% na mesma comparação em julho. Os investimentos declinam há cinco meses consecutivos, e, nos oito primeiros meses do ano, diminuíram 7,2%. A atividade industrial, no entanto, está em alta e evoluiu 5,2% comparada à de agosto de 2025, ante 4,8% um mês antes. Cinco anos depois da debacle imobiliária, os preços dos imóveis ainda estão em declínio. No segundo trimestre, o PIB do país avançou 4,3%, a menor marca em décadas e abaixo da previsão de 4,5%-5% feita pelos governantes chineses.

Mas a China se tornou um grande exportador de produtos de alta tecnologia, superando o atraso em uma série de setores estratégicos e competindo com vantagens nos mercados antes cativos, dos países ricos. O objetivo do presidente Xi Jinping com seu “Made in China 2025”, de transformar o país em uma potência tecnológica, foi praticamente cumprido. Mesmo transtornos enfrentados no caminho — como o excesso de capacidade produtiva, a feroz competição doméstica que reduziu significativamente as margens de lucros das empresas e a ameaça de deflação com redução por anos a fio dos preços dos produtores — serviram à atual ofensiva exportadora de grande escala.

Competitividade, capacidade ociosa e juros baixos e subsídios fizeram o prodígio de a China ter obtido um superávit comercial de US$ 1,2 trilhão em 2025, ano em que as barreiras protecionistas americanas foram intensificadas e políticas de substituição de importações, com viés geopolítico, foram impulsionadas em vários países desenvolvidos. A capacidade da máquina exportadora foi ajudada por uma política dirigida de desvalorização cambial, arma tradicionalmente usada por Pequim para conquistar mercados. O Fundo Monetário Internacional estima que o yuan esteja depreciado em 20%. Há estimativas que apontam 35%.

A depreciação foi uma defesa contra o protecionismo tarifário de Donald Trump, mas serviu de coadjuvante para impulsionar as vendas em meio a tendências em desenvolvimento, bastante favoráveis aos produtos de média e alta tecnologia chineses, como aponta a consultoria Oxford Economics. O país é um grande fornecedor de produtos de eletrônica, largamente consumidos e utilizados nas exportações do Leste Asiático, como Vietnã, cujas vendas para os EUA dispararam.

Além disso, em disputa com os EUA, a China deu enormes passos na inteligência artificial (IA) e nos insumos necessários para construir sua infraestrutura, e a demanda para esses bens tem sido imensas. E, por fim, com a guerra na Ucrânia e no Irã, que catapultaram os preços da energia, a China preencheu seu mercado doméstico, e invadiu o mundo, com seus veículos elétricos e baterias — ela produz quase 75% desses carros vendidos no mundo e 86% dos painéis de energia solar.

Os produtos baratos de baixa tecnologia, que arruinaram indústrias congêneres de países em desenvolvimento no início dos anos 2000, foram agora substituídos por bens de alta tecnologia extremamente competitivos, que igualmente provocam estragos nos rivais desenvolvidos. A Unido, órgão da ONU para desenvolvimento industrial, estima que a fatia da China no valor agregado da manufatura global passará de 30% em 2020 para 45% em 2030. Essa fatia de 30% é produzida por cerca de 123 milhões de trabalhadores, e para equiparar-se à produtividade chinesa, todos os bens manufaturados do mundo poderiam ser feitos por 400 milhões de trabalhadores, ou 7% da população mundial em idade de trabalho (Adair Turner, Valor, 11-9).

Há desequilíbrios que colocam barreiras no caminho dessa prosperidade. Os países ricos, em especial EUA e Europa, estão se protegendo com tarifas da invasão chinesa, assim como países emergentes. A forte depreciação do yuan reduz os salários domésticos e retira fôlego do consumo, além de encarecer os insumos necessários à produção de bens de alta tecnologia. Isso não é um problema para um país hoje ameaçado de deflação, mas pode se tornar um no futuro. A nova onda exportadora, que economistas apelidaram de “China Shock 2.0”, foi bem mais que uma válvula de escape para as agruras do consumo interno. Pragmáticos, os líderes de Pequim consolidaram novas posições de força no mercado global, e os problemas domésticos só ganharão a atenção em outro momento, quando as tensões domésticas se acumularem.

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