Lula manteve postura sóbria nas Nações Unidas
Por O Globo
Havia temor de que transformasse ONU em
palanque. Mas, apesar das derrapadas, não foi o que aconteceu
A 12 dias da eleição, havia um temor fundamentado de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformasse o púlpito das Nações Unidas em palanque. Mas, apesar das previsíveis derrapadas, não foi o que aconteceu. Lula manteve postura sóbria e soube usar o discurso de abertura da Assembleia Geral — o décimo em sua carreira — para cumprir seu papel de chefe de Estado e transmitir aos líderes globais um recado em favor de causas associadas ao Brasil, como multilateralismo, defesa da democracia, do meio ambiente, da regulação digital e da paz mundial.
Diante do temor — também fundamentado — de
tentativa de ingerência dos Estados Unidos em favor de seus adversários e do
histórico de contestação ao resultado das urnas, Lula foi incisivo: “Possuímos
um sistema eleitoral moderno e robusto. Não permitiremos que os inimigos da
democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia
brasileira pertence aos brasileiros”.
Em pouco mais de 20 minutos, ele fez uma
defesa determinada da governança global. Reconheceu o fracasso da própria ONU
“em uma de suas missões mais elevadas: livrar a humanidade do flagelo da
guerra”. Mas, com razão, defendeu como resposta ao desafio não o esvaziamento,
mas o fortalecimento das instituições multilaterais, começando pela sempre
citada — e jamais encaminhada — reforma do Conselho de Segurança da ONU. Era
esperado que desse atenção ao tema. No domingo, com o presidente do Conselho
Europeu, António Costa, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e o
presidente do Quênia, William Ruto, publicou artigo em defesa da ordem internacional
estabelecida depois da Segunda Guerra.
Lula fez questão de reafirmar a liderança
brasileira no campo ambiental e na transição energética, destacando a queda do
desmatamento na Amazônia em seu governo. Ao mesmo tempo, disse que o Brasil não
abrirá mão de explorar petróleo na Margem Equatorial: “Temos autoridade moral
para rejeitar medidas protecionistas disfarçadas de apego à causa ambiental”.
Sobre o combate ao crime organizado — tarefa
em que seu governo deixa a desejar —, reiterou a defesa da soberania
brasileira: “Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas
fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não
precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para
estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado”.
Não foi seu único momento de grandiloquência,
nem a única indireta a Donald Trump. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”,
declarou. “Precisamos de parceiros com agenda positiva que fomente
desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo a maior
integração.” Trump discursou logo depois, mas a “química” entre ambos parece
ter ficado para trás.
Lula sendo Lula, não poderia deixar de
empunhar estandartes que lhe são caros, mas incompatíveis com a tradição
diplomática brasileira — como a defesa intransigente da ditadura cubana ou o
desequilíbrio flagrante ao tratar do conflito entre israelenses e palestinos.
Também voltou a falar como candidato ao trazer para a tribuna da ONU temas como
o fim da escala 6x1 ou sua desastrada política econômica. Mas nada disso causou
embaraço grave. Foi, no cômputo geral, um discurso digno, que mereceu os aplausos
recebidos.
Depois de cortar juros, Copom faz bem em
manifestar cautela para o futuro
Por O Globo
Ata justificando corte da Selic destaca
incertezas e mantém credibilidade necessária ao controle da inflação
Divulgada nesta terça-feira, a ata da última
reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), tem o
bom senso de, ao mesmo tempo, reconhecer o efeito positivo da política
monetária no controle da inflação e de demonstrar a cautela necessária diante
do horizonte incerto. Na semana passada, o Copom cumpriu a previsão de que mais
uma vez cortaria a taxa básica de juros — 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao
ano. Daqui para a frente, porém, novos cortes dependerão do cenário.
“As expectativas de inflação, medidas por
diferentes instrumentos e obtidas de diferentes grupos de agentes, permanecem
acima da meta de inflação em todos os horizontes”, afirma o documento. “A
magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de
forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à
meta.”
É essencial que a autoridade monetária esteja
disposta a manter a serenidade que tem mantido e a preservar a blindagem contra
interferências políticas que tem, até agora, assegurado o êxito de sua política
de juros. As previsões para a inflação de 2026 e 2027 ainda estão longe da meta
de 3% (4,92% em 2026 e 4,30% em 2027). Embora a estimativa do BC para o
primeiro trimestre de 2028 esteja em 3,2%, a postura cautelosa é a mais
recomendada.
O recrudescimento da guerra no Oriente Médio
elevou, mais uma vez, o preço do barril de petróleo para acima de US$ 100. Os
combustíveis no Brasil têm sido subsidiados, mas cedo ou tarde a alta do barril
se refletirá nos postos, portanto na inflação. Outra incerteza no horizonte é o
Super El Niño. Caso sejam confirmadas as previsões, espera-se quebra de safras,
com alta nos preços, além do impacto na conta de luz. Tudo isso pressionará a
inflação. Por fim, a política fiscal irresponsável, com descaso pelo equilíbrio
das contas públicas e gastança eleitoreira, também contribui para o quadro de
incertezas. Um governo mais empenhado no controle de gastos certamente
diminuiria a pressão por juros altos.
No mesmo dia em que o BC cortou o juro no Brasil, o banco central americano, o Fed, sob o comando do recém-empossado Kevin Warsh, aumentou a taxa nos Estados Unidos pela primeira vez desde 2023, para 4%. As justificativa foi a inflação em alta com a economia aquecida, resultado do conflito no Oriente Médio e da guerra tarifária deflagrada por Donald Trump. Warsh demonstrou, ao mesmo tempo, cautela e independência da Casa Branca. Fez bem. No Brasil ou nos Estados Unidos, uma autoridade monetária sem credibilidade é sinônimo de caos inflacionário.
Lula mistura papéis de estadista e candidato
na ONU
Por Folha de S. Paulo
Na Assembleia Geral, petista acerta ao
apontar crise do multilateralismo, mas se alonga em temas domésticos
Não se trata de preocupação implausível; a
poucos dias da eleição, porém, não se materializou o temor de uma interferência
direta dos EUA
Ao longo da história, a Assembleia Geral da
Organização das Nações Unidas serviu tanto como palco para reflexões sobre a
geopolítica quanto para demonstrações de líderes periféricos dando recados
domésticos sob holofotes globais.
Em sua
intervenção na abertura da 81ª edição do evento, nesta terça (22),
Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) almejou um amálgama dos dois papéis. Mas o candidato à reeleição
suplantou o projeto de estadista do mandatário.
O púlpito da ONU serviu a
assuntos variados e privativos do eleitor brasileiro, incluindo até o prometido
fim da escala de trabalho 6x1, algo digno de estranheza —ainda que não
comparável à merecida pelas alucinações proferidas por Jair Bolsonaro
(PL)
durante suas passagens por lá.
Sem recusar integralmente o apoio do Itamaraty,
Lula começou bem sua fala. Fez um correto diagnóstico da derrocada do sistema
multilateral, que seria evidenciada pelo de fato relevante orador seguinte, Donald Trump.
O discurso escorregou ao tentar negar a máxima
de Carl von Clausewitz, segundo a qual a guerra é a continuação da política por
outros meios. Alguém com conhecimento do vernáculo alemão poderia lembrar Lula
de que a "Politik" do general prussiano ia além de objetivos
imediatistas.
Queixou-se de um mundo em guerra, o que está
longe de ser exagero, mas sem apresentar mais que platitudes sobre o tema. No
mais, fustigou Israel,
o embargo a Cuba
e outras ações associadas a Trump.
O republicano nunca foi nominado, talvez para
não piorar uma relação já esgarçada. Mas sua obra estava lá para ser criticada:
guerra tarifária, militarismo, inteligência artificial desabrida e a retomada
da doutrina segundo a qual o Hemisfério Ocidental é área de influência
exclusiva de Washington.
Trump não lhe deu ouvidos, tanto que o Brasil
nem sequer foi citado no discurso do americano.
Na seara da disputa com Flávio
Bolsonaro (PL), Lula deteve-se sobre o tema da segurança. Além de
elencar itens como o Pix ou a lei trabalhista, foi mais diretamente ao ponto ao
rejeitar ingerência "interna ou externa" no pleito deste ano. A
referência, novamente implícita, era a Trump e sua relação com o bolsonarismo.
O petista usou o trunfo da soberania —"o
Brasil não cabe no quintal de ninguém". Não se trata de
preocupação implausível, dada a Estratégia de Segurança Nacional e o ímpeto
intervencionista de Trump —além de ser uma estocada no bolsonarismo devotado ao
republicano.
Todavia as vantagens desse discurso não são
tão visíveis agora como no tarifaço de 2025. A ofensiva da Casa Branca contra o
crime organizado, por populista que seja, avança sobre um tema delicado para a
campanha petista.
A poucos dias da eleição, não se
materializou, até aqui, o temor de uma interferência externa direta —como o
próprio Lula atestou na conversa com
o senador esquerdista Bernie Sanders.
Trump em guerra contra notícias
Por Folha de S. Paulo
Republicano proíbe acesso de três veículos à
Casa Branca porque não aprova a cobertura jornalística
Banir repórteres dos centros de poder porque
as notícias desagradam o governante é excrescência autoritária que viola a
Primeira Emenda
Como quase todo líder populista, Donald Trump
avança contra a liberdade de imprensa desde o seu primeiro mandato (2017-2021).
Agora, o ataque a esse princípio fundamental das democracias liberais assume
alcance sem precedente na história recente dos Estados
Unidos.
Na sexta (18), o republicano anunciou que
proibiu o acesso da emissora CNN, do site
Politico e da rede MS NOW à Casa Branca; no dia seguinte, jornalistas desses
veículos foram barrados na entrada da sede do Executivo.
Após o episódio, os três processaram o
governo, alegando violação da Primeira Emenda, que protege as liberdades de
expressão e de imprensa, e do devido processo legal, já que não foram avisados
nem tiveram oportunidade de contestar a medida.
Há anos, ABC, CBS, CNN, Fox News e NBC
compartilham a cobertura televisiva dos eventos presidenciais. Em apoio à CNN,
as emissoras anunciaram a
interrupção da cobertura conjunta.
Trump alegou, sem apresentar nenhuma
evidência, que esses
veículos "reportam notícias falsas" e "escrevem
notícias negativas de propósito porque querem tentar diminuir os
republicanos".
O governo elencou ações de gestões democratas
para respaldar a medida. Mas os casos, como restrições a veículos em coberturas
compartilhadas (pool) em cidades e eventos específicos, não chegam perto da
gravidade de proibir acesso à Casa Branca, ainda mais invocando como motivo a
discordância com as notícias.
Segundo especialistas na Primeira Emenda, a
Casa Branca não é obrigada a abrir todos os seus espaços a toda a imprensa
—segurança e capacidade podem fundamentar restrições ao Salão Oval, por
exemplo.
Contudo, uma vez criado um sistema de acesso para
jornalistas, não se pode selecionar quem entra com base no conteúdo da
cobertura, já que isso colide com a proibição constitucional de discriminação
por ponto de vista assentada em jurisprudência da Suprema Corte dos EUA.
Trump é epítome de um modelo
populista que corrói as instituições lentamente e se espraia pelo
mundo. No Brasil, Jair
Bolsonaro (PL)
foi pródigo em ataques a jornalistas. Recorde-se que esta Folha, O Estado de S.
Paulo e O Globo deixaram de fazer a cobertura no chamado cercadinho do Palácio da
Alvorada devido a agressões verbais e falta de segurança.
"Imprensa é oposição", dizia Millôr Fernandes. Barrar a presença de repórteres nos centros de poder porque as notícias desagradam o governante é uma excrescência autoritária no berço da democracia moderna.
Na ONU, Lula escolhe seus inimigos
Por O Estado de S. Paulo
O petista vincula Flávio a Trump, acusa os
EUA de interferirem na eleição brasileira e diz, mais uma vez, que a manutenção
da democracia no País depende de sua vitória em outubro
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como
já se tornou um lamentável hábito, transformou o púlpito da ONU em palanque
para um comício eleitoral. Fosse apenas isso, no entanto, seu discurso na
abertura da Assembleia-Geral da ONU não mereceria mais do que algumas linhas de
repúdio. Mas o palavrório de Lula teve ao menos a serventia de expor, quase sem
meias palavras, qual será sua estratégia na reta final da campanha pela
reeleição: caracterizar o principal adversário, o candidato à Presidência pelo
PL, Flávio Bolsonaro, como um agente a serviço de interesses estrangeiros e
antidemocráticos no Brasil.
Depois de enfileirar uma série de críticas às
grandes potências mundiais, que em sua opinião enfraqueceram a ONU e outras
entidades multilaterais, comprometendo sua capacidade de “proteger os mais
vulneráveis, os que não têm exército nem arsenais”, Lula centrou fogo nos
americanos e em seu presidente, Donald Trump, sem nomeá-los – sutileza que, de
resto, era ociosa.
É um terreno em que Lula e o PT se sentem muito
à vontade. Como se estivesse numa assembleia estudantil, o presidente disse que
“a maior potência militar do mundo”, isto é, os EUA, quer interferir em países
da América Latina para alinhar a região a seus interesses. “O Brasil não cabe
no quintal de ninguém”, declarou Lula, para em seguida dizer que “a democracia
está novamente em xeque” e que “voltamos a presenciar a ingerência externa em
processos eleitorais” na região.
Não é preciso ser versado no dialeto
lulopetista para traduzir esse discurso: segundo Lula, os EUA pretendem causar
confusão na eleição brasileira com o objetivo de favorecer Flávio Bolsonaro, a
quem o petista acusa de entreguismo.
Lula tratou da coisa em termos explícitos.
Primeiro, disse que “alguns” candidatos se associaram a “interesses
estrangeiros contrários ao País”. Em seguida, desafiou o adversário e seu
padrinho americano: “Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e
externos, atentem contra a vontade popular”, pois “a democracia pertence aos
brasileiros”.
Fazendo-se confundir com o Estado brasileiro,
Lula tratou sua eleição como se dela dependesse a independência do Brasil
diante dos EUA. Em outras palavras, deu a entender, de maneira suficientemente
clara, que o Brasil só continuará a ser soberano se ele, Lula, derrotar Flávio.
Desse modo, Lula tratou de reduzir Flávio à
condição de mero fantoche de Trump e daqueles que pretendem apequenar o Brasil.
Tudo isso, sugeriu o petista, está vinculado ao que de pior o populismo
reacionário produziu nos últimos anos, como o negacionismo científico que,
conforme seu discurso, prejudica o enfrentamento das mudanças climáticas e a
erradicação de doenças para as quais há vacinas disponíveis.
Nessa toada, Lula estabeleceu o que ele vê
como dilema existencial do Brasil: “No dia 4 de outubro, milhões de brasileiras
e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o
presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder
Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo”.
Mais uma vez, Lula se coloca como o campeão
da democracia contra a besta bolsonarista. Foi com base nessa fraude que o
petista se elegeu em 2022, liderando uma assim chamada “frente democrática”
contra o pai de Flávio, o então presidente Jair Bolsonaro.
Agora, sem ter o que mostrar depois de tantos
anos de governos petistas medíocres, que entregaram um país com Estado balofo e
endividamento explosivo, juros na estratosfera e renda comprimida, baixo
crescimento e investimento pífio, Lula recorre mais uma vez ao espantalho da
ameaça à democracia, cuja sobrevivência dependeria de sua vitória contra Flávio
Bolsonaro.
Sejamos claros: a democracia brasileira não
depende de Lula. Se por acaso o petista vier a perder a eleição, terá sido
porque a maioria dos que se dispuseram a ir às urnas se cansaram de suas
mistificações, de seu discurso anacrônico e de sua incapacidade de oferecer uma
visão de futuro. Simples assim.
Flávio e a sombra dos milicianos
Por O Estado de S. Paulo
É extremamente preocupante que um candidato à
Presidência tenha mantido vínculo tão próximo, até pouco tempo atrás, com um
miliciano condenado pelo Supremo pela morte de Marielle
Este jornal informou na primeira página de
sua edição de ontem que, em 2023, uma assessora do senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) negociou pessoalmente com o miliciano Robson Calixto, vulgo “Peixe”, o
repasse de quase R$ 200 mil provenientes de emenda parlamentar em troca de
vantagens indevidas. A negociata já seria escandalosa se Flávio não fosse
candidato à Presidência da República e se o tal “Peixe” fosse um sicário
qualquer, desses com os quais a população do Rio de Janeiro, lamentavelmente,
acostumou-se a conviver. Ocorre que Flávio não só é candidato, como tem boas
chances de ser eleito. E “Peixe”, definitivamente, não é um ilustre
desconhecido do sistema de Justiça.
Em fevereiro deste ano, por unanimidade,
“Peixe” foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão em
regime fechado por ter participado do assassinato da vereadora carioca Marielle
Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. O indigitado
era uma espécie de “faz-tudo” para os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão,
mandantes do crime, e elo da dupla com a milícia da zona oeste da capital
fluminense de onde saiu o facínora Ronnie Lessa, autor dos disparos. Todos
cumprem pena presos.
É extremamente preocupante, para dizer o
mínimo, que um candidato à Presidência da República tenha mantido vínculo tão
próximo com um criminoso de sangue até pouco tempo atrás. Para piorar,
confrontado com um fato dessa gravidade, Flávio se limitou a dar uma resposta
protocolar, afirmando, por meio de nota, que “a emenda foi destinada dentro da
legislação vigente” e que a responsabilidade pela prestação de contas é de quem
recebe os recursos, não do parlamentar. Sobre o fato mais escabroso – a
proximidade entre o senador e um miliciano condenado –, Flávio não deu uma
satisfação sequer aos eleitores.
Talvez seja mesmo difícil para o candidato tratar
do tema com mais objetividade. Afinal, faz mais de duas décadas que, por onde
quer que ande, Flávio Bolsonaro está sempre acompanhado pela sombra dos
milicianos do Rio de Janeiro com os quais se relaciona, abertamente, desde o
seu primeiro mandato como deputado estadual, iniciado em 2003. A ligação entre
Flávio e “Peixe”, por mais problemática que seja, não é um desvio pontual.
Recorde-se que, em 2007, Flávio subiu à
tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para legitimar as
milícias como um “novo tipo de policiamento”. Na ocasião, o então deputado
estadual reduziu os crimes praticados por milicianos – não raro policiais e
bombeiros corruptos – a “casos isolados”. Em outro discurso, Flávio chegou a
dizer que “não se importaria” em pagar mensalidades de “R$ 30 ou R$ 40” às
milícias para “ter mais segurança”. Ele sabia do que falava. Além de condecorar
dezenas de milicianos, pouco tempo depois, Flávio empregara em seu gabinete na
Alerj familiares de um dos mais temidos matadores do País, Adriano da Nóbrega, capo da milícia Escritório do
Crime, baseada em Rio das Pedras.
Adriano seria morto durante troca de tiros
com a polícia em 2020, escondido sob nome falso no interior da Bahia. Mas o
grupo criminoso que ergueu em Rio das Pedras, envolvido no assassinato de
Marielle Franco, sobreviveu a ele – e agora volta às páginas do jornal pela
negociação do tal “Peixe” e a assessora de Flávio Bolsonaro.
Estamos a poucos dias da eleição que definirá
o futuro presidente do Brasil. Por óbvio, não é questão menor ter entre os
postulantes à chefia de Estado e de governo um candidato cuja biografia
política está indelevelmente marcada por vínculos estreitos e reiterados – e
jamais devidamente explicados – com membros de organizações criminosas
responsáveis por execuções sumárias, extorsões, exploração ilegal do comércio e
controle social, na base do terror, sobre larguíssimas porções do território do
Rio de Janeiro.
Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela
Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na
Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a
candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das
milícias ao topo do poder da República.
Trump ataca a imprensa
Por O Estado de S. Paulo
Ao banir parte da imprensa da Casa Branca, o
presidente americano reitera seu espírito autoritário
O presidente dos EUA, Donald Trump, baniu da
Casa Branca as redes de TV CNN e MS NOW e o site Politico, acusando-os de
publicar notícias falsas e mentiras a respeito de seu governo. Ao fazê-lo,
Trump reiterou, de forma incontestável, sua vocação autoritária, absolutamente
incompatível com o espírito que guiou a fundação dos EUA e a formulação de sua
Constituição. É evidente que essa decisão será barrada pela Justiça americana,
por ser flagrantemente inconstitucional, mas serve como exemplo de como Trump
não está minimamente preocupado sequer em demonstrar alguma reverência aos
valores originais do país que preside.
A Primeira Emenda à Constituição americana
protege a liberdade de imprensa. A Quinta garante o devido processo legal. E há
quase meio século a Justiça estabeleceu que a Casa Branca precisa seguir
critérios para retirar a credencial de um jornalista, justificar a decisão e
permitir que ela seja contestada.
Nada disso aparece na decisão de Trump.
Bastou a discordância sobre cobertura jornalística para impedir repórteres de
entrar na Casa Branca.
Governantes raramente nutrem simpatia pelos
veículos de comunicação e pelos jornalistas que fazem a cobertura do poder.
Isso é próprio da natureza do trabalho da imprensa, que é lançar luz onde os
poderosos gostariam que houvesse sombra, para escrutínio público. Por isso, a
relação é tensa mesmo para presidentes cujas credenciais democráticas são
incontestáveis. É o caso, por exemplo, de Fernando Henrique Cardoso, que, em
seus Diários da Presidência,
anotou em diversas passagens duras críticas a jornais e jornalistas,
acusando-os de sensacionalismo, de investir sempre em notícias ruins e de se
acreditarem acima do bem e do mal. Mas jamais cerceou o trabalho da imprensa.
Trump, ao contrário, vem jogando todo o peso
da máquina do Estado contra a imprensa, de maneira sistemática, principalmente
na forma de processos judiciais pesadíssimos contra veículos que o presidente julga
serem seus inimigos. Na sua visão, a imprensa em geral é incapaz de lhe
reconhecer a grandeza e deve ser duramente castigada por isso.
Ademais, Trump trata a Casa Branca como se
fosse sua propriedade, e não sua residência temporária na condição de chefe de
Estado. Isso se traduz não só pelas reformas controversas que andou fazendo por
lá, mas agora também pela restrição de acesso de determinados veículos de
imprensa.
Felizmente, a imprensa americana reagiu ao
ultraje à altura. Todas as grandes redes de TV, inclusive a Fox News, mais
alinhada a Trump, decidiram suspender a participação no pool de imagens da presidência em
solidariedade aos veículos barrados. Em nota conjunta, as empresas disseram que
“o público tem um interesse vital em receber informações precisas e
independentes sobre o seu governo” e que “nenhuma administração deve restringir
uma organização de notícias por discordar de suas reportagens”.
Os veículos atingidos, com razão, foram à Justiça. A resposta da Casa Branca ao processo foi reveladora: o acesso à sede do governo seria um “privilégio, e não um direito” – como se a transparência fosse uma cortesia do governante, e não uma obrigação de quem exerce o poder.
Safra recorde sob riscos de crédito, custos e
El Niño
Por Valor Econômico
A expectativa é de aumento da produção com a ampliação da área semeada, mas a nova safra recorde não está garantida
Começou agora em setembro o plantio da safra
agrícola de 2026/27. A expectativa do governo, expressa nos números da
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), é de ligeiro aumento de 1,3% em
relação à safra anterior, que foi recorde. A produção agrícola pode crescer
para 366,6 milhões de toneladas com a ampliação da área semeada, o deve compensar
a ligeira queda esperada na produtividade média, que deve ser de 4.200 kg por
hectare.
A produção do milho promete chegar a 148
milhões de toneladas, se as condições climáticas forem favoráveis, 2,8% a mais
do que na safra 2025/26. Já no caso da soja, o resultado deve ser mais
moderado, com aumento de 0,7% na produção, para 181,6 milhões de toneladas. A
área cultivada é estimada pela Conab em 49,3 milhões de hectares, com expansão
de 1,4%, o que seria o menor crescimento percentual em 20 anos.
A nova safra recorde não está garantida. A
agricultura brasileira vem enfrentando dificuldades de suprimentos de alguns
insumos, em consequência de conflitos em outras partes do mundo. Desde a
invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, adquirir fertilizantes potássicos
ficou mais caro e complexo. A guerra no Oriente Médio, neste ano, acentuou o
problema. As escaramuças no Estreito de Ormuz dificultaram a saída de uma
grande parcela da produção mundial de ureia e amônia do Golfo Pérsico, além de
afetar os preços de todos os combustíveis e dos fretes. O Brasil é
especialmente dependente do fertilizante proveniente do exterior. O país
importa quase 85% do produto que consume, dos quais 20% são fornecidos pela
Rússia, grande produtor de nitrogênio, fósforo e potássio (NPK).
No caso do diesel, o cenário não é menos
preocupante e a questão do preço sobressai. A Petrobras
responde pela maior parte do abastecimento do mercado nacional. Mas entre 25% e
30% do consumo dependem de importações, cujas cotações vêm oscilado conforme as
flutuações do petróleo, causadas pelo conflito com o Irã, influenciando os
preços domésticos.
De tempos em tempos, a Petrobras ajusta seus
preços às cotações do mercado internacional, e o governo brasileiro tem
subsidiado o mercado com a justificativa de amenizar o impacto da guerra no
custo de vida da população. Neste mês, já anunciou a desoneração de PIS/Cofins
de R$ 0,63 por litro da gasolina e de R$ 0,19 por litro de etanol combustível.
No caso do diesel, mais recentemente, após a Petrobras anunciar o aumento do
litro do produto em R$ 1, o governo concedeu um subsídio exatamente no mesmo
valor, neutralizando o reajuste aplicado pela companhia.
O produtor rural está inseguro com a
continuidade da subvenção, concedida por um período determinado. Desta última
vez, tem prazo de 30 dias. Além disso, são fortes as críticas à ação do
governo, uma vez que a subvenção do diesel e os benefícios aos preços dos
combustíveis custam R$ 7 bilhões aos cofres da União por mês.
Todos esses problemas têm sido contornados.
Talvez o que mais preocupa o produtor rural no momento é o acesso ao crédito. A
inadimplência dos produtores do campo foi a que mais cresceu. O setor
financeiro impôs mais exigências e custos mais elevados na oferta de crédito,
em um momento em que os insumos também pressionam as margens da agricultura.
Os dados mais recentes do Boletim do Crédito
Rural e do Proagro do Banco Central (BC) mostram que a inadimplência no
segmento chegou a R$ 45,8 bilhões em julho, ou 5,2%, da carteira de crédito
rural de R$ 881,7 bilhões naquele mês — acima da média geral de 4,9% do total
de empréstimos concedidos a pessoas físicas e empresas. Uma parcela de nada
menos do que 23,5% da carteira de crédito rural, equivalente a R$ 207,4
bilhões, era considerada problemática.
Apenas um ano antes, o cenário era melhor. A
inadimplência era só um terço da atual, somando R$ 15,5 bilhões, ou 1,9% do
total de R$ 811,7 bilhões do crédito rural naquele momento. As operações
classificadas como problemáticas somavam R$ 136,4 bilhões, ou 16,8%.
Além disso, há agora a perspectiva de um El
Niño mais intenso, com chuvas atípicas nas regiões Sul e Sudeste e seca no
Norte e Nordeste, podendo trazer efeitos negativos na produção agrícola, nos
preços dos alimentos e na inflação.
Em reação em cadeia, outros negócios são afetados, como as vendas de máquinas e equipamentos agrícolas. Afinal, o agro é atualmente um importante motor da economia brasileira. A participação da atividade agropecuária no Produto Interno Bruto (PIB) do país ficou em 7,1% no ano passado, o maior percentual da série histórica iniciada em 2000 do IBGE. Se forem acrescentadas atividades industriais e de serviços relacionadas, a contribuição do setor para o PIB chega a 23,4%. O agro também tem repercussão relevante no comércio exterior. As exportações do agronegócio atingiram o recorde de US$ 169,2 bilhões em 2025, respondendo por 48,5% de todas as vendas brasileiras ao exterior, e geraram superávit comercial de US$ 149,07 bilhões. Esses números explicam a enorme expectativa depositada na nova safra.
Os recados na Assembleia das Nações Unidas
Por Correio Braziliense
A reforma da ONU é uma pauta repetida em cada
assembleia e enterrada logo depois. Mas a crise de legitimidade que a
instituição enfrenta hoje é de uma escala diferente
A Assembleia Geral da Organização das Nações
Unidas (ONU), nesta terça-feira, colocou em cena duas visões de mundo que
dificilmente poderiam ser mais distintas e escancarou a paralisia de uma
instituição que deveria arbitrar a diferença entre elas. O Brasil abriu os
trabalhos, como faz desde 1955, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu
ao púlpito com um discurso de assuntos amplos: criticou o imobilismo do
Conselho de Segurança, defendeu o multilateralismo, cobrou ação climática,
falou em soberania da América Latina e afirmou, sem rodeios, que "o Brasil
não cabe no quintal de ninguém". Nos momentos finais, cedeu ao calendário:
falou em democracia contra negacionismo, em interferência estrangeira nas
eleições e na solidez do sistema eleitoral brasileiro. Eram recados para
dentro, não para o plenário da ONU.
Donald Trump fez o caminho inverso. Começou
pelo inventário doméstico: a economia como "inveja do mundo", as
forças armadas como "as mais poderosas da Terra", a tecnologia
norte-americana sem rivais. Só depois virou para o cenário externo, onde
anunciou que os EUA usarão "poderio militar incomparável" na América
Latina se necessário, comparou cartéis de drogas ao Estado Islâmico, declarou
Cuba um Estado falido prestes a cair e chegou a ameaçar "aniquilar" o
Irã antes de recuar para um convite ao isolamento econômico do país.
Sobre o Brasil — maior economia do Hemisfério
Sul, parceiro comercial relevante, país com quem Washington mantém uma disputa
tarifária aberta —, Trump não disse uma palavra. O silêncio americano é, por si
só, um dado diplomático. Não ignorar um adversário, mas ignorar um interlocutor
com quem se está em conflito ativo sugere que a relação bilateral ocupa um
espaço menor na agenda de Washington do que Brasília gostaria.
O episódio, porém, ilustra um problema maior
do que a relação bilateral. Num mundo em que a maior potência militar ignora
parceiros comerciais no plenário da principal organização multilateral do
planeta e em que o representante de uma nação emergente usa o mesmo plenário
para mandar recados eleitorais ao próprio eleitorado, fica a pergunta
inevitável: para que serve a ONU? A resposta foi dada pelos próprios
participantes.
Lula foi explícito: afirmou que a organização
"está falhando em uma de suas missões mais elevadas" e que a
credibilidade da instituição nunca esteve tão baixa. O próprio secretário-geral
António Guterres, em seu último discurso de abertura, reconheceu o impasse:
alertou para um mundo em risco de fragmentação caso não haja "uma estrutura
comum de direito internacional e regras compartilhadas".
No mais, a Assembleia Geral não produziu
nenhuma resolução, nenhum acordo, nenhum mecanismo novo de contenção de
conflitos. Produziu discursos: alguns importantes, outros eleitoreiros, todos
sem força vinculante. O Conselho de Segurança, com seu direito de veto e sua
composição do pós-guerra, segue paralisado diante de conflitos que matam civis
todos os dias — 2025 registrou o maior número de guerras desde a Segunda Guerra
Mundial.
A reforma da ONU é uma pauta repetida em cada assembleia e enterrada logo depois. Mas a crise de legitimidade que a instituição enfrenta hoje é de uma escala diferente, reconhecida pelo próprio secretário-geral, cobrada pelo representante do maior país da América Latina e ignorada pelo líder da maior potência militar do mundo. Quando três dos principais atores de uma assembleia chegam à mesma conclusão sobre a impotência do foro em que estão reunidos, o sinal não poderia ser mais claro. A ONU precisa ser reformada, seja na composição do Conselho de Segurança, seja nos mecanismos de tomada de decisão, seja na capacidade de implementar o que delibera.
Debate em momento decisivo
Por O Povo (CE)
Que os candidatos saibam aproveitar essa
oportunidade apresentando propostas factíveis para melhorar a vida dos
cearenses
A exatamente 11 dias do primeiro turno da
eleição que elegerá o presidente da República, governadores, deputados e
senadores, o povo cearense terá uma ótima oportunidade para conferir a
performance dos candidatos a administrar o Estado nos próximos quatro anos. O
governador Elmano de Freitas (PT), que busca a reeleição, e o ex-ministro Ciro
Gomes (PSDB) estarão esta noite frente a frente na sede da Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB-CE).
Este é o segundo debate organizado pelo Grupo de Comunicação O
POVO neste ano. O anterior foi realizado na Região do Cariri. Além dos
confrontos, O POVO promoveu uma série de sabatinas, em um esforço para
contribuir com o eleitor para que ele disponha de mais elementos para avaliar
cada candidato.
Com relação aos candidatos, o desempenho no
debate pode ser fundamental na campanha de Ciro, buscando manter a diferença de
sete pontos percentuais sobre o adversário e, quanto a Elmano, para trabalhar
pela confirmação da tendência de alta que apresentou na última pesquisa, ambas
contratadas pelo O POVO.
É de se registrar que, no levantamento
espontâneo (quando o nome dos candidatos não é apresentado ao eleitor), há um
empate técnico, considerando a margem de erro de três pontos percentuais. Ciro
tem 33% das intenções de voto e Elmano 30%.
Esses dados indicam uma disputa apertada, não
sendo possível fazer nenhum tipo de prognóstico. Em uma situação assim, cada
detalhe conta. Sem dúvida, os candidatos estão cientes de que um mau desempenho
no debate, tanto na forma de apresentação do candidato, quanto no conteúdo das
propostas que apresentará, pode ter grande influência no ânimo do eleitor ou
mesmo ser decisivo para a definição de seu voto.
Se tomarmos o debate anterior como base, os
temas sobre os quais insistirão os candidatos são aqueles que, de fato, mais
preocupam os cearenses, como saúde e segurança pública. No evento do Cariri, em
torno de 45% das menções entre Ciro e Elmano tratavam de saúde e segurança
pública, especialmente sobre as facções criminosas, com um candidato jogando a
responsabilidade para outro sobre a atuação do crime organizado.
O cenário nacional é um assunto do qual Ciro
procura esquivar-se, mas certamente Elmano citará o presidente Lula como seu
apoiador, criticando a aproximação do tucano com setores bolsonaristas.
Os candidatos têm hoje a oportunidade de
falar para dezenas de milhares de cearenses, atentos ao debate, que será
transmitido por todos os veículos do O POVO, das redes sociais à TV; do rádio
ao Youtube. Que eles saibam aproveitar essa oportunidade apresentando propostas
factíveis para melhorar a vida da população.

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