quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O que muda de Jair Bolsonaro em 2018 para Flávio em 2026? Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

STF enfraquecido, Trump e aprendizado institucional tornam diferente um eventual novo ciclo bolsonarista

Em 2026, o projeto é mais legível e as condições para executá-lo podem ser mais favoráveis

Em 2018, a rejeição ao PT, a ojeriza aos partidos e grupos que dominavam a política nacional, a sensação de que a vida havia parado de melhorar, os ventos internacionais favoráveis a um populismo radical de direita e, como decorrência disso tudo, uma vontade quase desesperada de mudança de rumo político levaram milhões de eleitores a conceder praticamente um cheque em branco a Jair Bolsonaro. Um candidato que, sabia-se então como se sabe hoje, exibia poucas, se alguma, das qualidades que normalmente se procuram em alguém a quem se pretende entregar o governo do país.

De certa forma, Bolsonaro foi um "poste". Chamamos assim o candidato cuja viabilidade eleitoral provém menos de capital político próprio do que daquele que lhe transfere um patrocinador. A diferença é que Bolsonaro não era o poste de um padrinho determinado, mas de sentimentos políticos urgentes: o antipetismo, o desprezo pela política tradicional, o "não" a tudo o que parecia errado. Era o tapa na cara que se queria desferir no sistema político.

Teve fiadores, claro, mas, como candidatura do "não", Bolsonaro não precisava explicar com muita precisão para onde levaria o país. Bastava assegurar que seria para longe daquilo. O resto vinha depois.

É curioso que, em 2026, estejamos novamente diante de uma candidatura cuja principal credencial continua a ser apenas a capacidade de derrotar o PT. A pergunta sobre quais qualificações próprias Flávio apresenta para governar o Brasil continua difícil de responder a partir de tudo o que se sabe dele. Nem mesmo a desculpa "pelo menos é honesto", usada em 2018 para justificar o voto em um candidato sem outras qualidades, resiste a um exame atento.

Mas há uma diferença decisiva. O voto em Flávio já não pode ser entendido como o mesmo cheque em branco de 2018. Há agora um projeto muito mais legível. Quem escolhe Flávio escolhe também consequências mais previsíveis que aquelas de oito anos atrás: uma inflexão conservadora nas políticas públicas e nas instituições, sim, mas também uma ofensiva para alterar o equilíbrio interno do Judiciário e uma política externa voluntariamente subordinada ao governo Trump.

Além disso, um eventual governo Flávio se daria em circunstâncias muito distintas das enfrentadas por seu pai. Há, antes de tudo, uma diferença decisiva no sistema de contenção institucional. Durante o governo Bolsonaro, o Supremo e, particularmente, Alexandre de Moraes, de um jeito ou de outro, transformaram-se nas principais barreiras às sucessivas tentativas de erosão da democracia liberal.

Não é preciso canonizar ninguém no STF para reconhecer que foi o poder dissuasivo contra um movimento que nunca demonstrou quaisquer escrúpulos para tentar perpetuar-se no poder ou dominar o Estado sem obstáculos constitucionais.

Um novo governo bolsonarista encontraria uma corte em situação muito diferente. E não se trata apenas da queda da confiança no STF. A guerra aberta entre seus ministros tornou perfeitamente plausível a percepção de que eles podem colocar os interesses das facções internas a que pertencem acima da própria instituição. E, para piorar, alguns já parecem ter perdido o antigo cuidado de evitar que suas decisões fossem lidas como extensão das preferências políticas do campo que os indicou.

Some-se a isso o fato de que o próximo presidente também terá peso incomum sobre a composição do tribunal —Flávio já anunciou que pretenderia indicar cinco ministros— e teremos uma situação completamente diferente da vivida no passado.

Antes, o problema era se o STF teria força suficiente para conter um presidente disposto a testar os limites da democracia; no próximo governo, acrescenta-se a dúvida sobre se terá credibilidade suficiente para fazê-lo.

Por fim, também muda o ambiente internacional. Jair Bolsonaro governou entre Trump e Biden. Um eventual Flávio encontraria Trump na Casa Branca durante pelo menos os dois primeiros anos de mandato.

Finalmente, existe algo que não havia em 2018: aprendizado.

O primeiro governo Bolsonaro foi, em muitos momentos, improvisação, conflito interno, iniciativas mal executadas e recuos diante de obstáculos que seus integrantes pareciam não ter previsto. Trump oferece o exemplo de como uma segunda passagem pelo poder pode ser mais consciente dos obstáculos e, portanto, muito mais eficiente.

No Brasil, a analogia sugere ao menos isto: desta vez, haveria menos incerteza sobre o que se pretende fazer, mais clareza sobre meios e metas e, possivelmente, condições mais favoráveis para executar a agenda.

 

3 comentários:

  1. o apoio ostensivo do jornalista ao Lula ex condenado corrupto há décadas pego com a boca na botija julgada e condenado preso e solto pelos amigos do ST F
    É triste ver as redações dos jornais torcendo para um corrupto incompetente que está levando o Brasil ao fracasso econômico e social nunca dantes visto
    Sabemos que tem muito dinheiro em jogo mas o jornalismo tinha que ficar a margem do poder corruptor da grana

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  2. Lula lá no pqp

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  3. Texto BRILHANTE!! Parabéns ao colunista, e obrigado ao blog por disponibilizar esta excelente coluna! A "agenda": o GOLPE sempre sonhado e defendido pelos Bolsonaros!!

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