terça-feira, 8 de setembro de 2026

O silêncio das Forças Armadas, por Míriam Leitão

O Globo

Sete de setembro mostrou o afastamento das Forças Armadas das eleições, enquanto templos religiosos ainda são usados como currais eleitorais

Não se ouve mais barulho vindo dos quartéis, ao contrário do que ocorreu nas eleições de 2018 e de 2022. Não é por acaso. Nos últimos quatro anos comandantes militares fizeram um trabalho silencioso, mas determinado, para corrigir a rota na qual Jair Bolsonaro havia colocado as Forças Armadas. Algumas decisões foram públicas, como a de proibir manifestação do pessoal da ativa em redes sociais. Outras foram bem mais discretas e exigiram dos comandantes muitas conversas internas e viagens pelos estabelecimentos militares em todo o Brasil.

Jair Bolsonaro havia feito uma mobilização deliberada para envolver as tropas na disputa eleitoral brasileira. Começou anos antes de sua eleição e foi escancarada durante seu mandato. Oficiais voltaram a participar da disputa de poder no Brasil, depois de terem estado alheios durante todos os outros governos após a redemocratização.

Os acampamentos nas portas dos quartéis não surgiram por acaso. Foram estimulados por Jair Bolsonaro. Nos anos em que governou o Brasil, ele dedicou inúmeros fins de semana em visitas nas quais estimulava as tropas à politização. Por outro lado, insuflava seus seguidores a pedir coisas como “intervenção militar com Bolsonaro”. O antídoto a esse desvio institucional tem sido aplicado de 2023 para cá. É um persistente trabalho de convencimento dos militares de que eles devem ficar longe de disputas eleitorais e focados na sua missão constitucional.

Mas há problemas concretos apontadas pelos presos aos atuais comandantes. O ministro Alexandre de Moraes foi o relator do processo que julgou e condenou oficiais, entre eles, generais, almirante e coronéis. Eles hoje cumprem pena nos estabelecimentos militares, como têm direito – o único que está em prisão domiciliar é o general Augusto Heleno – e se queixam de que Moraes foi o juiz da condenação e também é o juiz da execução penal, o que seria um erro processual. Evidentemente os advogados que defendem os militares presos seguem com interesse cada vez maior a crise na qual Alexandre de Moraes está envolvido, buscando brechas para a anulação das condenações.

O silêncio dos militares nos últimos anos teve o efeito de reduzir os números de quadros das Forças Armadas e das PMs em disputa eleitoral. Havia muita torcida entre os comandantes para que fosse aprovada a PEC que obriga o militar a ir para a reserva quando assume um cargo político ou disputa um mandato eletivo. Hoje ele pode voltar para a ativa caso perca a eleição. Entre os favoráveis à despartidarização dos militares é considerada essencial a aprovação desta proposta para criar um cordão sanitário, que impeça no futuro contaminações como a que houve durante o governo passado. A PEC permanece parada no Senado.

Neste sete de setembro não houve qualquer fala convocando as Forças Armadas a escolher um lado político, como era comum quando Jair Bolsonaro usava a expressão “o meu Exército”. Em Brasília houve o tradicional desfile e não um ato de campanha. O clima entre Lula e os chefes das Três Forças é considerado de confiança mútua. O 7 de setembro foi um teste deste afastamento militar, nem eles foram invocados pelos bolsonaristas, nem a data cívica foi usada pelo governo com discurso eleitoreiro.

No entanto, o país continua a ver as cenas lamentáveis de manipulação da fé dos evangélicos. Neste fim de semana, Flávio foi incensado numa denominação criada em março de 2026, chefiada por um influencer que se diz profeta. Em outra igreja, Flávio Bolsonaro foi ao púlpito e fez um discurso inteiramente eleitoral apresentado-o como se fosse uma “oração”. Michelle Bolsonaro fez uma postagem de mãos dadas com André Mendonça dizendo ter orado três noites para ele fosse aprovado pelo Senado, quando teria tido uma “visão” da sua aprovação como obra divina. O próprio André Mendonça não fez qualquer esforço para neutralizar esse movimento. Ele gravou vídeo, na sexta-feira, agradecendo pelas orações, que circulou pelas redes bolsonaristas. De novo enfrentamos uma eleição em que há abuso do poder religioso por parte de líderes evangélicos.

Se os templos continuam sendo usados como currais eleitorais, é um alívio constatar que, independentemente do que pense cada militar, e como ele vote como cidadão, já se pode sentir o resultado do trabalho de afastamento das Forças Armadas da disputa eleitoral no Brasil. Deu muito errado usar a instituição como um ativo eleitoral da extrema direita.

 

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