Correio Braziliense
A tensão deixou de envolver apenas dois
ministros: as gravações arrastaram para o centro do palco o STF, a PGR e a
própria PF
Cenas antológicas de “Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers)”, comédia
musical dirigida por John Landis em 1980, parecem ter sido filmadas para servir
de metáfora à atual crise política brasileira. Jake e Elwood Blues,
interpretados por John Belushi e Dan Aykroyd, respectivamente, reúnem uma
antiga banda para levantar o dinheiro necessário à salvação do orfanato
católico onde foram criados. Acreditam estar numa “missão divina”, embora sejam
perseguidos pela polícia, por neonazistas, por uma ex-noiva vingativa e por uma
banda de música country.
No Bob’s Country Bunker, os músicos sobem ao palco protegidos por uma tela de
arame, atrás da qual continuam tocando enquanto garrafas são atiradas pela
plateia. Mais tarde, no grande concerto do Palace Hotel Ballroom, o espetáculo
prossegue em meio à presença de policiais, rivais e adversários dispostos a capturar
os irmãos. A confusão toma conta do salão, mas a banda não interrompe a música.
O repertório se adapta às circunstâncias, o ritmo é mantido e o público dança
em meio ao caos.
É mais ou menos o que está acontecendo no Congresso. Enquanto o Supremo Tribunal
Federal mergulha numa crise sem precedentes por causa das revelações do Caso
Master, Câmara e Senado tentam manter a música tocando. A orquestra parlamentar
executa uma pauta negociada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os
presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP) que é pura música para os eleitores: a chamada “taxa das
blusinhas”, além do fim da escala 6 x 1.
Do outro lado da Praça dos Três Poderes, porém, voam garrafas e cadeiras. O ministro
André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que
reúne mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo a
investigação, elas teriam sido trocadas com o ministro Alexandre de Moraes em
momentos críticos das apurações sobre o Master. Os registros mencionam o
procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei
Rodrigues, e sugerem tentativas do ex-baqueiro de obter informações ou proteção
diante do avanço das investigações.
Moraes reagiu e questiona Mendonça por permitir uma apuração capaz de atingi-lo
sem autorização prévia do Plenário. Mendonça, por sua vez, pediu que a Corte
analisasse publicamente o caso. Gonet entrou na disputa para sustentar que o
relator não tinha competência para investigar um colega do Supremo e pediu a
anulação dos elementos relacionados a Moraes. A tensão deixou de envolver
apenas dois ministros: as gravações arrastaram para o centro do palco o STF, a
PGR e a própria PF. O presidente da Corte, Edson Fachin, parece perdido diante
de uma crise sem precedentes no Supremo.
Mensagens, encontros e relações pessoais precisam ser examinados no devido
processo legal. Entretanto, a tentativa de anular as provas antes do
esclarecimento completo dos fatos, em vez de dissipar, amplia as suspeitas. A
Corte que exigiu transparência e rigor quando investigou políticos,
empresários, militares e manifestantes será capaz de adotar os mesmos critérios
quando as dúvidas alcançam seus integrantes? Esse é a questão.
Segue o baile
É inevitável a politização do episódio. Candidatos de oposição passaram a
exigir o afastamento de Moraes, enquanto aliados do governo cobram a retirada
integral do sigilo da investigação. A eventual colaboração premiada de Vorcaro
— ainda dependente de negociação, formalização e homologação — assombra
autoridades de diferentes Poderes e partidos. O banqueiro construiu uma rede de
relações que atravessava fronteiras ideológicas. Por isso, quase todos têm
interesse em descobrir o que ele sabe, mas muitos não querem que seja
divulgado.
É nesse ambiente que o Congresso atua como a orquestra que toca freneticamente
durante o conflito generalizado. A Câmara e o Senado aprovaram a toque de caixa
o fim da chamada “taxa das blusinhas”, imposto federal de 20% sobre compras
internacionais de até US$ 50. O texto preserva a cobrança do ICMS pelos estados
e estabelece avaliações periódicas dos efeitos da isenção sobre emprego,
arrecadação, comércio e indústria nacionais. É uma medida de forte apelo
popular, principalmente entre consumidores de baixa renda.
A pauta avançou graças a um acordo de Lula com Motta e Alcolumbre. O governo
revogou uma taxa que ele próprio havia criado, mas pretende apresentar a
decisão como demonstração de sensibilidade social. O que importa é o consumidor
voltar a comprar produtos baratos no exterior sem o imposto federal.
Entretanto, o fim da escala 6 x 1 está a meio caminho. A proposta reduz
gradualmente a jornada semanal de 44 para 40 horas, assegura dois dias de
descanso e proíbe a redução salarial. O tema enfrenta objeções empresariais e
da oposição, que alertam para o aumento dos custos de contratação, sobretudo no
comércio, na gastronomia, na saúde, na logística e nos serviços de
funcionamento contínuo.
Para contornar essas resistências, o MDB propôs uma PEC paralela com transição
gradual, negociação coletiva, ampliação do banco de horas e mecanismos de
compensação. Mesmo assim, a aprovação da proposta na Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ) representa uma vitória de Lula. Às vésperas da eleição, poucos
parlamentares desejam explicar aos eleitores por que votaram contra mais tempo
de descanso para os trabalhadores.
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