Folha de S. Paulo
Profusão de 'irmãos' de ex-banqueiro é
resultado de parentesco fictício
Fenômeno é universal, mas, no Ocidente, tem
algumas particularidades
A essa altura, quem deve explicações é Henrique
Vorcaro, o pai de Daniel
Vorcaro. A quantidade de
"irmãos" do ex-banqueiro já identificados é sugestiva de
intensa atividade extraconjugal. Cabe até uma investigação eclesiástica, pois a
Igreja
Batista da Lagoinha, da qual o patriarca dos Vorcaros é membro
ativo, não encoraja o adultério.
Brincadeiras à parte, acho que cabem algumas reflexões sobre o parentesco fictício. A primeira observação é que se trata de um universal humano. O uso de análogos de irmão/irmã para referir-se a pessoas da mesma geração e tio/tia para gente mais velha é tão prevalente em algumas culturas, principalmente naquelas baseadas em estruturas de clã, que esses termos funcionam como pronomes de tratamento. É que nosso software mental e linguístico evoluiu no Pleistoceno, quando vivíamos em grupos familiares. Continuamos a usar essa programação, e as palavras que ela gera, mesmo depois que o mundo ficou maior que a família.
No Ocidente é um pouco diferente. Ao longo da
Idade Média, a Igreja Católica se empenhou em quebrar a espinha dorsal da
lógica dos clãs. Fez isso proibindo o casamento entre primos, mesmo primos
distantes, e a poligamia. A consequência foi o fortalecimento da família
nuclear, composta por pai, mãe e filhos. Isso os padres não previram, mas a
mudança possibilitou o surgimento de uma ética universalista, calcada não mais
em relações de parentesco, mas em regras comuns, que valem para todos.
A alteração teve impacto sobre o vocabulário.
O uso do parentesco fictício não desapareceu, mas sofreu uma cisão. Por um
lado, em contextos urbanos modernos, banalizou-se como um tique linguístico.
Dizemos "irmão" ou "tio" a prestadores de serviços e
desconhecidos, esvaziando as palavras de qualquer intimidade. Por outro, quando
direcionados a conhecidos, esses termos voltam a ser uma escolha forte.
Denotam proximidade real e intencional, dada
pelo copertencimento a círculos fechados como igrejas, guildas e até máfias nos
casos mais extremos.
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