sábado, 26 de setembro de 2026

Pai de Vorcaro deve explicações, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Profusão de 'irmãos' de ex-banqueiro é resultado de parentesco fictício

Fenômeno é universal, mas, no Ocidente, tem algumas particularidades

A essa altura, quem deve explicações é Henrique Vorcaro, o pai de Daniel Vorcaro. A quantidade de "irmãos" do ex-banqueiro já identificados é sugestiva de intensa atividade extraconjugal. Cabe até uma investigação eclesiástica, pois a Igreja Batista da Lagoinha, da qual o patriarca dos Vorcaros é membro ativo, não encoraja o adultério.

Brincadeiras à parte, acho que cabem algumas reflexões sobre o parentesco fictício. A primeira observação é que se trata de um universal humano. O uso de análogos de irmão/irmã para referir-se a pessoas da mesma geração e tio/tia para gente mais velha é tão prevalente em algumas culturas, principalmente naquelas baseadas em estruturas de clã, que esses termos funcionam como pronomes de tratamento. É que nosso software mental e linguístico evoluiu no Pleistoceno, quando vivíamos em grupos familiares. Continuamos a usar essa programação, e as palavras que ela gera, mesmo depois que o mundo ficou maior que a família.

No Ocidente é um pouco diferente. Ao longo da Idade Média, a Igreja Católica se empenhou em quebrar a espinha dorsal da lógica dos clãs. Fez isso proibindo o casamento entre primos, mesmo primos distantes, e a poligamia. A consequência foi o fortalecimento da família nuclear, composta por pai, mãe e filhos. Isso os padres não previram, mas a mudança possibilitou o surgimento de uma ética universalista, calcada não mais em relações de parentesco, mas em regras comuns, que valem para todos.

A alteração teve impacto sobre o vocabulário. O uso do parentesco fictício não desapareceu, mas sofreu uma cisão. Por um lado, em contextos urbanos modernos, banalizou-se como um tique linguístico. Dizemos "irmão" ou "tio" a prestadores de serviços e desconhecidos, esvaziando as palavras de qualquer intimidade. Por outro, quando direcionados a conhecidos, esses termos voltam a ser uma escolha forte.

Denotam proximidade real e intencional, dada pelo copertencimento a círculos fechados como igrejas, guildas e até máfias nos casos mais extremos.

 

 

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