O Globo
Documento cita ameaças e intimidações a
bispos católicos; início da ofensiva coincide com ano em que o clã chegou ao
poder
No último domingo, a cúpula da Igreja
Católica se viu arrastada para a guerra eleitoral. O candidato do PL ao
Planalto acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de
propagar mentiras para prejudicá-lo.
Sem apresentar provas, Flávio Bolsonaro disse
que “gente de dentro da CNBB” teria ajudado a disseminar o que ele chamou de
fake news sobre Nossa Senhora Aparecida. A fala viralizou nas redes e deu
início a uma série de ataques à entidade. Não foi a primeira vez.
Um estudo feito pela Comissão Brasileira de
Justiça e Paz lista 61 investidas contra a CNBB e seus bispos desde 2018. O
início da ofensiva coincide com o ano em que Jair Bolsonaro chegou ao poder.
Entre os detratores citados no relatório, estão influenciadores bolsonaristas, uma produtora de vídeos de extrema direita e políticos do PL, como Paulo Bilynskyj, Gil Diniz e Eduardo Bolsonaro. O documento deixa claro que os ataques ultrapassam a disputa de opiniões. Há casos de ameaças, intimidações e ofensas.
Um dos primeiros registros, ainda em 2018, é
um vídeo em que Jair Bolsonaro descreveu a CNBB e o Conselho Indigenista
Missionário como “parte podre da Igreja”. No ano seguinte, Eduardo Bolsonaro
inflamou seguidores ao tuitar que a esquerda teria “se infiltrado” na
conferência.
Em outro momento, o deputado Bilynskyj chamou
a CNBB de “antro de comunistas”. O ex-ministro Adolfo Sachsida chamou os bispos
de “covardes” e disse que a entidade “apodreceu”. Num episódio pitoresco, o
arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, precisou se defender de
bolsonaristas que viram sua veste vermelha de cardeal como sinal de adesão ao
PT.
Para não se misturar à disputa política, a
CNBB costuma ignorar os ataques. Uma exceção ocorreu no domingo, quando a
entidade julgou necessário rebater a acusação do candidato do PL. “A mentira
não se combate com outra mentira”, afirmou em nota, após frisar que não apoia
nenhum partido ou candidatura.
A ofensiva política contra a Igreja não é
exclusividade brasileira. Na segunda-feira, o Papa Leão XIV disse que o
declínio do número de católicos na Alemanha pode estar ligado ao crescimento da
extrema direita. “Os valores do Evangelho não dizem respeito ao ódio e à
divisão”, afirmou.

A única influência religiosa admitida pelos bolsonaristas é quando pastores evangélicos e os arrecadadores de dízimos apoiam explicitamente os candidatos da familícia Bolsonaro.
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