quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Quando a Igreja entra na mira, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Documento cita ameaças e intimidações a bispos católicos; início da ofensiva coincide com ano em que o clã chegou ao poder

No último domingo, a cúpula da Igreja Católica se viu arrastada para a guerra eleitoral. O candidato do PL ao Planalto acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de propagar mentiras para prejudicá-lo.

Sem apresentar provas, Flávio Bolsonaro disse que “gente de dentro da CNBB” teria ajudado a disseminar o que ele chamou de fake news sobre Nossa Senhora Aparecida. A fala viralizou nas redes e deu início a uma série de ataques à entidade. Não foi a primeira vez.

Um estudo feito pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz lista 61 investidas contra a CNBB e seus bispos desde 2018. O início da ofensiva coincide com o ano em que Jair Bolsonaro chegou ao poder.

Entre os detratores citados no relatório, estão influenciadores bolsonaristas, uma produtora de vídeos de extrema direita e políticos do PL, como Paulo Bilynskyj, Gil Diniz e Eduardo Bolsonaro. O documento deixa claro que os ataques ultrapassam a disputa de opiniões. Há casos de ameaças, intimidações e ofensas.

Um dos primeiros registros, ainda em 2018, é um vídeo em que Jair Bolsonaro descreveu a CNBB e o Conselho Indigenista Missionário como “parte podre da Igreja”. No ano seguinte, Eduardo Bolsonaro inflamou seguidores ao tuitar que a esquerda teria “se infiltrado” na conferência.

Em outro momento, o deputado Bilynskyj chamou a CNBB de “antro de comunistas”. O ex-ministro Adolfo Sachsida chamou os bispos de “covardes” e disse que a entidade “apodreceu”. Num episódio pitoresco, o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, precisou se defender de bolsonaristas que viram sua veste vermelha de cardeal como sinal de adesão ao PT.

Para não se misturar à disputa política, a CNBB costuma ignorar os ataques. Uma exceção ocorreu no domingo, quando a entidade julgou necessário rebater a acusação do candidato do PL. “A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou em nota, após frisar que não apoia nenhum partido ou candidatura.

A ofensiva política contra a Igreja não é exclusividade brasileira. Na segunda-feira, o Papa Leão XIV disse que o declínio do número de católicos na Alemanha pode estar ligado ao crescimento da extrema direita. “Os valores do Evangelho não dizem respeito ao ódio e à divisão”, afirmou.

 

Um comentário:

  1. A única influência religiosa admitida pelos bolsonaristas é quando pastores evangélicos e os arrecadadores de dízimos apoiam explicitamente os candidatos da familícia Bolsonaro.

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